sábado, 31 de janeiro de 2015

Sol do meu quintal

acomapanhem a contrução de mais um livro.
depois de construir juntos com os amigos do blog "O Livro dos Canalhas com princípios ou O Tamanho de Deus", agora voltemos no tempo para contar uma Belém que só existe em nossa memória.
O Sol do Meu Quintal, título provisório é uma volta a infância em Canudos, onde nasci e me criei.
vamo juntos

O DIABO EM PESSOA


O DIABO EM PESSOA

Em Canudos era natural passarmos as noites contando histórias de terror. Quando faltava luz então... era uma delícia sentir medo sentado na calçada do Seu João, com a rua às escura. Quando a luz voltava era um grito geral que ecoava muitas ruas depois. Um pouco de alívio pela luz ter voltado. Um pouco de alívio por as histórias terminarem. Mas dormi muitas vezes assustado.

A primeira vez que tive contato com o desconhecido, eu tinha apenas uns 8 ou 9 anos.
Canudos vivia na sua calmaria tempestuosa de sempre. As ruas pedregosas. As encarnações com o “Pega-burra”, um carroceiro que odiava o apelido e jogava pedras na gente quando alguém gritava: “faaaallllaaaa Pega-burra” era um corre-corre com o zunido das pedras voando pra todo lado.
Após o almoço o encontro de sempre embaixo da mangueira para falar de futebol e outras bobagens enquanto jogávamos pedras na vala, onde outros meninos se esforçavam para pescar peixinhos.
Vez ou outra o Cidinho e o Chulipa se juntavam a nós para contar tolices maiores ainda, eram dois bandidos juvenis perigosos, segundo minha mãe, mas o tempo iria contar que ela tava certa. (O Chulipa morreu na cadeia anos depois, lá no presídio São José, durante uma rebelião, o Cidinho desapareceu no mundo). Mas lembro que chegávamos a rir das histórias dos assaltos que eles faziam. Quando a mamãe via a gente juntos, era escroteada na certa.

Os dias se sucediam assim, éramos somente crianças querendo diversão total, além da bola de todo santo dia, brincávamos de polícia e ladrão, esconde-esconde, jogo de ficha, bate e fica, fura-fura, peteca, figurinhas. A noite, mais histórias de lendas e terror pra dormir com os cabelos em pé.

Mas um dia veio dos céus e se concretizou na terra, a melhor e a mais apavorante de todas as histórias.

O ano de 77 se preparava para acabar, as provas finais nos enchia o saco. Então começou um boato que luzes sugadoras de sangue estavam atacando no interior do Estado e estava a caminho de Belém. O Pânico começou a se instalar aos poucos, todos os dias, embaixo da mangueira, alguém chegava com um caso novo. “Dizem que uma menina foi atacada em Mosqueiro”, “Agora parece que atacaram alguém lá pelas bandas da Agulha”, “Rapá, viram as luzes na Bandeira Branca”.

A cada dia o terror chegava mais próximo. Até a bomba fatal: “Égua moleque, uma senhora tava voltando do interior, aí desceu no Terminal Rodoviário e quando tava andando foi paralisada por uma luz... dizem que a luz puxou todo o sangue dela e ela ficou sequinha ali mesmo na Cipriano Santos”.

Pronto. Pânico total. A mãe de mais ninguém deixava a gente sair à noite, horário preferido do Chupa Chupa, as rádios noticiavam que a aeronáutica estava se encaminhando pra Colares, os Jornais a cada dia mais sensacionalista espalhavam mais e mais terror.
Minha mãe, que estudava a noite no Colégio Augusto Olimpo, um dia chegou em casa e disse que as aulas estavam suspensas por causa da luz misteriosa.
E de repente, as ruas ficaram desertas a noite. Ninguém saia de casa. Os ônibus lotados traziam as pessoas mais cedo do trabalho. Após as oito da noite, nem latido de cachorro nas ruas se ouvia. Silêncio. Medo. Terror.
De tarde sempre um chegava dizendo que ficou a noite brechando a rua e viu um foco misterioso passar bem devagar. Algumas pessoas já anunciavam o fim do mundo. Na igreja de Queluz, aos domingos, o sermão do padre era sobre salvação. Mamãe começou a tirar o terço junto com a gente todo dia.

Um dia ouviu-se gritos horrorosos vindo da casa da Coló, corremos para a porta para ver. Mamãe brigou com a gente, Papai gritou para todo mundo ir para o quarto, e ficar lá. Mamãe puxou o terço.
De manhã soubemos que o pânico foi por que ela viu um foco de luz que “furava” as paredes de madeira da casa e perseguia ela. A menina contava isso de olhos arregalados e cabelos desgrenhados, a boca espumava vez ou outra. Estava mais feia do que nunca. Nervos à flor da pele. A história se espalhou. O pessoal da outra rua se aglomerava na frente da casa dela para ouvir a história com detalhes.

Alguns anos depois soubemos que a tal luz misterioso que atacou a Coló viria da lanterna do Cidinho, que fez só de sacanagem mesmo. “Cara sempre quis ver o Diabo em Pessoa”.

A COZINHA NOVA


A COZINHA NOVA
Nós mesmos trabalhamos na construção da cozinha nova. Era um acontecimento a chegada de madeira, cimento, areia, barro, telhas... Meu pai organizava os trabalhos e nós suávamos em bicas carregando o material para o quintal, mas era tudo com um prazer impossível de ser descrito.
Enquanto batíamos a massa ou quebrávamos as pedras conversávamos sobre tudo, geralmente ás gargalhadas. Cantávamos, falávamos sobre os nossos times no campeonato, minha mãe trazia sucos e meu pai mantinha a seriedade do trabalho.
Quando ficou pronto, por fim, a cozinha nova, com o banheiro finalmente dentro de casa, pia (e não mais giral) e até fogão novo, minha mãe tava feliz, meu pai tava feliz, meus irmãos estavam felizes, todos nós partilhávamos de uma felicidade muda, contida.
Devagar, e com cuidado para não ser percebido pelo outro, um a um admirava a cozinha nova, sem falar nada, sem demonstrar a felicidade. Era o jeito estranho que nós aprendemos de ser felizes. Calados.
Um lanche delicioso de pão bem quentinho, café e fanta uva e o sol de fim da tarde desenhando o final do telhado por sobre a mesa de tábua corrida, foram as testemunhas da estréia da cozinha, onde muitas histórias viveríamos ainda.

É PROIBIDO COCHILAR.


É PROIBIDO COCHILAR.
Meu pai sempre gostou de rádio e traquitanas eletrônicas. Formado bem novo em técnico em eletrônica por correspondência pelo I.U.B (não dá pra explicar, coloquem no google rsrs), adorava construir os próprios rádios. Era sua cachaça, já que seu organismo jamais suportou uma gota de álcool sequer.
Então crescemos ao som das rádios, com os maiores sucessos das décadas. Ouvimos muitos artistas nascerem. A Rádio do Seu Rocha não cessava um minuto sequer.
Meu pai espalhava caixas de som pela casa e instalava nelas temporizadores. Quando uma desligava a outra ligava. Então pela manhã a Marajoara troava na cozinha, a tarde era a vez da Radio Clube na sala, a noite ligava no quarto do papai e na madrugada no corredor que dava para todos os quartos.
Lembro ainda de todas as principais vinhetas: "Paulo Ferreeeeeer, o amarelinho-linho". "É uma tristeza/ uma infelicidada-a-de/ ouvir meu nome na patrulha da cidade". "Alô, Alô interior: Alô dona fulana, seu marido manda dizer que esse final de semana não vai voltar para casa, mas esta mandando uma saca de farinha no navio tal".
Mas havia um programa mais emblemático na madrugada: "É proibido Cochilar" A vinheta era esta frase (acho que cantada pelos 3 do nordeste) repetida incansavelmente. Em seguida entrava o locutor com uma voz nordestina, voz de idoso, e depois de mandar duzentos abraços anunciava a próxima música, que, quase sempre, era um forró agitado.
A gente odiava esse programa. Apesar dos diversos apelos ao papai, ele nem abaixava o volume do rádio (que ficava cada vez mais alto com o silencio da madrugada), nem mudava de estação.
Mas nenhum de nós odiava mais esse programa que meu irmão.
Naqueles dias meu irmão andava estranho. Menos brincalhão. Mais impaciente do que de costume. Andava mocambúzio. Sério. Fechado. E principalmente com uma insônia da porra. Levantava de madrugada, deitava com raiva. Batia no beliche de cima, passava se esfregando na minha rede, bebia água no filtro de barro e voltava pra deitar, tão barulhento quanto se levantou. Não tinha sossego.
O apetite dele, que sempre foi um cavalo pra comer, havia desaparecido. Mamãe comentava baixo: Teu irmão não tá bem, nem tocou no prato. Meu outro irmão respondia: e nem tá dormido também, mãe.
O papai com a sabedoria de um boiadeiro, comentava enquanto chupava com barulho mais um tutano: é buceta.
Mamãe dava-lhe logo uma cotovelada: Respeita teus filhos macho abestado.
Mal sabia a mamãe que o oráculo dos tutanos estava certo, e logo logo seríamos surpreendidos com a chegada de uma sobrinha. Mas enquanto "a bomba" não estourava os dias se passavam, com madrugadas terríveis.
E quando meu irmão, por fim, parecia que ia dormir: "é pribido cochilar/ cochilar/ cochilar/ é proibido cochilar/ cochilar/cochilar"
Meu irmão, que sempre foi explosivo, não aguentou mais. Se levantou num pulo e saiu pelo corredor destruindo Todas as caixas do papai.
naquele dia ele apanhou cantando "A Jardineira".

Yogurte


Yogurte.
Meus filhos não acreditam em minhas histórias de pobreza de natal. sabem de nada. Inocentes. kkkk
Não acreditam que a primeira vez que peguei um taxi na vida, eu tinha mais de 18 anos, e era um fusca sem a cadeira do carona. kkkk
Que a primeira vez que vi televisão sentado no sofá da sala, eu tinha uns 10 anos. (antes era pegar janelada na cara na casa do vizinho).
Não acreditam que meu pai comprava sempre um número a mais do sapato para nós, para que ele durasse mais, e até o pé crescer preenchia com jornal a pontinha.
Mas a primeira vez que provei Yogurte, eles se cagam de rir.
Era um dia qualquer de Junho, a molecada estava reunida na rua, como sempre sem ter o que fazer, (só conversando miolagem).
De repente uma fumaça preta sobe aos céus vindo da direção do terminal rodoviário (morávamos duas ruas após o terminal), e uma notícia correu rápido. alguém chegou gritando: O Passarinho tá pegando fogo!
Se tratava do supermercado, que ficava logo atrás do terminal (hoje em dia o banco Bradesco). Como bons moleques de rua, corremos pra ver a desgraça dos outros.
Muita gente rodeava o local, carro de bombeiros, polícia, curiosos, trânsito fechado. Uma correria. Os funcionários se arriscavam para salvar a mercadoria e empilhavam no meio da rua um monte de caixas. O fogo subia alto e tomava rapidamente conta do local. A pobralhada agradecia a desgraça, era os funcionários empilharem as caixas, e a gentalha saia correndo carregando o que desse.
Então, algo brilhou mais que o fogo aos olhos do Robson Chita: Égua tão colocando iogurte na rua! _Que porra é iogurte?, replicou o Boi.
Rapá, apesar de estar quente, o sabor foi inesquecível. Ate hoje sinto o gosto de danone na boca, era Yougurte com "Y", tomamos tanto, que ainda deu pra brincar de guerra de iogurte na praça do Operário.
Cheguei em casa todo sujo, da cabeça aos pés.
A surra daquele dia foi com gosto de morango.

Killer, o AMOROSO


Killer, o AMOROSO
A casa da minha infância era um mundo delicioso de madeira, sonhos e um quintal inesquecível povoado de bichos e de fantasias. Tinha patos, galinhas, coelhos, tartarugas, passarinhos, cachorro e gato. Tinha lago, casinha de madeira, chocadeira, poleiro, planta. Tinha jambeiro, pé de mamão, jasmim, capim santo, floreira, espada de São Jorge... Tinha quarador, minha mãe lavando roupa, minha irmã varrendo o terreiro. Tinha um monte de areia branca (sobra da construção do piso da cozinha).
A casa da minha infância tinha uma cozinha construída pela gente, piso de cimento com vermelhão, teto de telha de barro, paredes de madeira pintadas de azul. Tinha um corredor de tábua corrida e três quartos,um para o meu pai e minha mãe, outro das meninas e outro dos meninos. Tinha uma sala onde ficava a televisão, o gato e o cachorro, o Killer.
Desde quando eu me lembro ele já estava lá, ao lado de meu pai, colado em meu pai, isso todo mundo se admirava, aonde o meu pai ia ele ia também e era só o meu pai viajar para o Killer deixar de comer, era incrível. Os dias que meu pai ficasse fora o bicho não comia e não saia debaixo da poltrona dele, para nada. Nem no dia da faxina ele saía de lá, ele que adorava correr atrás do escovão enquanto a gente passava cera na casa. Um dia, quando meu pai tava viajando, meu irmão, só de brincadeira, gritou da cozinha: benção, pai! O Kilei saiu pela casa, desesperado, correu para porta, correu para o quarto dele, pro quintal, procurou ele na casa toda e, como não encontrou, voltou mais triste do que nunca para debaixo da poltrona do papai. Todos gargalharam em casa, minha mãe, meus dois irmãos, minhas duas irmãs e eu forcei um riso, mas confesso que morri de pena e quase fui lá, em baixo da poltrona, partilhar a dor do bichinho.
Um dia, o Killer deu pra seguir o papai pela rua, bastava ele sair para trabalhar que lá ia o kilei atrás, por várias vezes o papai voltava do ponto do ônibus só para prender o kilei em casa.
Fui crescendo assistindo a paixão do Killer pelo meu pai. Enquanto todos lá em casa éramos grudados na mamãe, o Killer fazia o que nenhum filho se atrevia em fazer: pousar a cabeça no colo do papai, dividir o dia com ele. Meu pai que tinha fama em casa de durão e pouca paciência para aturar as coisas de meninos, se entregava em carinhos pelo cachorro e vice versa.
Mesmo se eu me esforçar eu não consigo lembrar o latido do Killer, só consigo lembrar do seu pelo marrom, dos seus olhos amarelos e as sobrancelhas cerradas, meio de tristeza meio de estranheza.
Um dia, ele já velho, eu com quinze anos, saiu atrás do papai e nunca mais voltou. Não tivemos nunca mais notícias do Killer. Meu pai tentava ter bom humor, tentava fingir para gente, mas eu via que ele sentia a falta do seu companheiro.
Então foi a vez do papai parar de comer.

O TORNEIO DOS LARÁPIOS.


O TORNEIO DOS LARÁPIOS.
Sempre fui um pouco abestalhado, mas quando o assunto era "bater uma bola" eu me espertava e fazia de um tudo.
Todo final de semana na rua lá de casa, nós jogávamos um torneio, com direito a time de camisa e tal. Até os adultos esperavam as partidas. havia muita torcida. Nosso time era foda. O ataque era eu e Ivan, matadores. Mas tínhamos um goleiro fraquíssimo, o Biratan, mas como ele era metido a fortão da rua, a gente não podia barrá-lo por nada (sob pena de uns olhos roxos).
Para ter um time de camisa naquela pobreza toda nós fazíamos de tudo, principalmente vender alumínio e cobre para comprar as camisas e shorts.
Então, já viu, éramos o terror dos quintais desavisados. À noite a patrulha do futebol saía pulando de quintal em quintal atrás de uma roupa de molho na bacia de alumínio dando sopa, panelas, canecos, penicos, tudo que fosse de alumínio e mais a fiação das casas abandonadas era nossa pré temporada para os torneios.
Daí era só colocar uma pedra lá dentro, amassar e correr pro ferro velho do Seu Pelé pra em seguida estar em campo com uniforme novo.
Naquele ano, nós havíamos inexplicavelmente perdido o campeonato. (inexplicavelmente nada, um puta frango do Biratan tirou nosso troféu, mas era melhor dizer que foi inexplicavelmente).
Precisávamos trocar as camisas (que ja estavam velhas demais devido a quantidade de jogos em um ano). Então foi decidido que sairia o Glorioso Remo e entraria a Estrela solitária. Jogaríamos o próximo torneio de Botafogo. Mas os vizinhos já estavam espertos àquela altura. Não estava nada fácil conseguir novas camisas.
Então o Ivan teve uma idéia. Roubar as camisas lá do supermercado Almirante, que trabalhava também com material esportivo. Eu gelei de cara. Mas diante do desafio, todo o time topou. O Caveirinha (uma espécie de mestre na arte de furtar), no dia seguinte ja mostrou a sua, novinha e no saco. Biratan foi depois. Ivan. Boi. Chulipa. Faltava eu, que só de pensar em ser pêgo me cagava todo. Sempre fui medroso. Tentei roubar no desafio, pedi pro meu irmão (que ja trabalhava no veropa vendendo peixe), mas não rolou. Pedi pro papai nem pensar.
Tentei vender umas panelas da mamãe, mas pensei que a surra ia ser grande também. A galera me pressionava. Os dias se passavam. O torneio se aproximava. faltava eu, meu Deus me dá uma luz!! Nada, até Deus dizia: te vira, moleque.
reuni coragem e fui pela enésima vez ao Almirante, a camisa já havia brilhado aos meus olhos várias vezes. Faltava era coragem. Mas naquele dia tinha que ser. O Biratan ja tinha me prometido até porrada, não dava pra voltar atrás.
Fui. Peguei o saco da camisa, coloquei dentro do short. sabia que na minha testa tava escrito LADRÃO. olhava pra todos os lados. Mas ia, depressa rumo a porta. Um segurança me olhou com atenção. Gelei. Mas segui em frente e finalmente eu estava na rua, com o coração batendo forte, tentando atravessar a Almirante Barroso correndo.
Só fico pensando hoje que o segurança jamais deve ter entendido aquele rastro de urina, que seguia da terceira gôndola e seguia até a rua.