sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

para os visitantes desse blog FELIZ ANO NOVO. mas como aqui não é lugar comum, o que desejo a vcs é muita arte pra comer gente.
os posts novos estão aguardando a ressaca passar.
quero começar a novela mas muitas cartas e e-mails pedem sempre mais uma histórieta da série O Tamanho de Deus e sabe como é, como é a minha filha e a minha mãe quem mandam essas cartas tenho que atender.
beijos grandes a toda
e um 2009 fuderoso para todos nós.
vamos botar quente mermão.
beijos.
semana que vem tem post novo, prometo
e também prometo nunca mais me embriagar de vinho.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Ave Nelson

Mulher bonita gosta de papo besta. Muita elaboração vira tese, e ninguém quer ir para cama com um Phd em alguma porra que não seja o sexo.

Mayra era gostosa, mas levava uma vida marital com seu namorado chato. Mesmo com a pouca idade dos dois, eles acreditavam mesmo que deviam fidelidade absoluta um ao outro. Juntos, era um casal enojador, fazendo ceninhas de ciúmes em público e quase sempre deixando a mesa de bar antes de todos, em meio a porradas.

Mayra era gostosa e bem de vida, pele boa, cabelo tratado, unhas sempre feitas, se vestia com personalidade. Todo mundo só esperava um dia pegar ela sem o namoradinho chato. Minha particular batalha com Mayra já durava quase um ano, como ela sempre sorria das minhas palhaçadas, eu aproveitava para jogar deixas para ela pegar. Um dia, cheguei mesmo a ser sincero, “Se eu não fosse acanhado, eu te diria que estou enamorado pr ti”.
Mulher adora homens ingênuos e frases feitas. Quando eu descobri a palavra ‘enamorado” jamais usei de novo a palavra “apaixonado”, que essa dá um ar de compromisso. Enamorado é mais solto, e algumas delas, não sabem nem o que é isso.

De tanto esperar, meu dia chegou.

Estava rolando um festival de cinema na cidade, e alguns amigos programamos para ir. A turma, junta, somava umas seis pessoas, o número par só foi possível porque nesse dia, o namoradinho chato não foi, Mayra, sim. E eu estava disposto a cercar mais uma vez. “Faz um tempinho que encontro a Mayra sem o namorado por aí, será que terminaram?”, comentou com um certo veneno feminino Amanda, namorada de um amigo. Peguei a senha.

Quando Mayra chegou, sem o mala, fui logo mandando o recado: “não posso entrar nesse cinema contigo”, mandei. “Por quê?”, ela respondeu. “Cinema ter ar de romance, e como estás sozinha, não vou responder por mim”, cravei. Ela sorriu, me chamou de palhaço, mas também não decretou distância alguma.

E foi como eu tinha pensado, sentado lado a lado, eu fazia comentários sobre o filme no ouvido de Mayra, que só respondia sorrindo. O filme já pouco me importava, era de graça mesmo, e eu estava mais interessado em mapear cada parte daquele coxão exposto que sobrava na sainha de Mayra.

Quase no final do filme ela se virou e falou no meu ouvido: aquele papo de enamorado ainda está de cima?, quase amarelei, mas mantive a pose. “Não me entenda mal, você é uma pessoa adorável”, me finge de tímido. Ela também fingiu que acreditou, e logo, logo estávamos trocando longos beijos. Mas também acabou no cinema nosso romance. Fomos para o bar depois e mantivemos a distância, imposta por ela, claro.

Mas confesso que fiquei empolgado e decidi realmente fazer a coisa certa. Na mesma semana saímos por duas vezes e foi somente beijos trocados. “Não quero que nossa história seja somente cama, quero que a gente se conheça melhor e tu tenhas certeza do que estas fazendo”, menti.

Sempre no carro dela, porque o meu já estava caindo aos pedaços e não comportava uma mulher como aquela, ela me deixava na esquina de casa acreditando ser a ativa na relação.

Mas com os beijos cada vez mais quentes, chegou uma hora que não dava mais para segurar, o grande momento estava chegando.

Sempre preguei que a leitura é um instrumento maravilhoso para romper barreiras e tirar a gente de encrencar. É lá, nos livros, que estão os grandes ensinamentos da vida, sabedoria é colocá-los em prática na hora certa.

Mayra havia sucumbido aos constantes assédios do ex-namorado, e me dito de maneira muito triste no telefone que havia reatado a merda do relacionamento dela. Para não perder por completo tirei um João Antônio da cartola e mantive a malandragem: “Tudo bem, para um homem como eu, o que vivemos já foi uma experiência extasiante”, e desliguei o telefone num Putaquepariu.

Mas o que foi plantado naquele dia renderia frutos à frente. Mandei flores e um Neruda para sua casa, em uma despedida à lá Chico Buarque.

Uma semana depois São Nelson me valeria.

Estávamos todos no mesmo bar, a mesma turma, dessa vez em número ímpar, quando o casal nojo resolveu empreender mais uma briguinha, ele pegou o carro e foi embora e, eu, bom, eu elegantemente me retirei da mesa e fui beber no balcão.

Deu certo, ela se aproximou e disse, “Dessa vez é para sempre”, e mais: “Me leva daqui, para onde quiseres”. Para onde eu quisesse valia bem mais do que me prometer vida eterna, entendem?

O negócio era que eu andava meio quebrado, gastando mais do que podia, e naquela noite, fazendo as contas rápido, pagando a despesa, me sobraria uns vinte paus. Era muito pouco pra tudo aquilo de mulher. Sorri um sorriso amarelo.

“Me tira daqui, vai”, ela implorava. Tirei um Paulo Coelho da manga para ganhar tempo, e ataquei com pieguice: “A raiva nunca é a melhor conselheira”. “Raiva é o caralho, eu passei a noite inteira te olhando”, ela respondeu com a sinceridade de uma Hilda Hilst.

“Ta bom. Vamos nos dar ao desfrute”, era Ana Cristina César falando em mim. Mas... (lembrei da pouca gasolina, no meu carro fedorento, do carro dela confortável, da minha carteira magricela, mas aí me veio meu santo de cabeça. Nessas horas as mulheres gostam de homens de atitude).

Deixa o teu carro aí e vem comigo. Ela sorriu. Peguei ela pelo braço e saímos andando pela rua, “Para onde tu estas me levando?”, ela questionou. “Se vai rolar algo entre a gente, vai ter que ser diferente. Uma história que seja só nossa”, continuei andando e falando, “freqüentas os lugares mais chiques, não é? Quero te fazer experimentar uma história diferente”, ela sorriu.

Quatro quadras depois entramos no El Camiño, um hotel vagabundo no centro da cidade, que cobrava 15 paus duas horas. Ela entrou meio ressabiada, mas não desistiu. Pelos meus cálculos ainda sobraria 5 paus para colocar um litro de gasolina no meu caro até chegar em casa depois.

Na cama, sacramentei a jogada: “É que eu te acho nelsonrodriguiana, sabe, bonitinha, mas ordinária, quero contigo, mas só vai ser bom se for em um lugar brega como esse”. Ela adorou a declaração.

Ainda declarei muito Nelson Rodrigues naquele ouvidinho cheiroso. Sempre nos piores motéis da cidade.

Uma gatíssima à preço custo

Ave Nelson.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Blasfêmia

Blasfemar, trepar ou torcer por futebol só tem valia se for por transgressão. Quem blasfêma por ódio corre o risco de ser tão extremista quanto o fanático. Quem torce pelo seu time quieto, certamente não pode-se considerar um torcedor. Assim com quem trepa em, no máximo, três posições e goza baixinho jamais será uma pessoa plenamente realizada.

Rita de Cássia era o que poderia se chamar de uma coroa enxuta. De idade desconhecida, mas de corpo esbelto e todo durinho, casara ainda cedo e se empenhara na criação de seus filhos. Hoje, todos encaminhados, como ela gostava de dizer, resolveu “curtir a vida”. Arrumou malas, fez viagens, experimentou maconha, dançou em boates e se dedicou, com o espírito muitos quilos mais leve, à sua clínica de dermatologia.

Mas suas transgressões deveriam ir mais além.

Médica experiente matou de cara quando entrei em seu consultório: “Isso é catapora!”. Porra, eu exclamei, pensei que fosse macumba, ela riu um sorriso lindo. “cuidado para não ir para o saco”, embarcou na brincadeira. “Tudo, menos o saco”, respondi com um sorriso em meu rosto monstruoso. “Catapora depois de velho é perigosa, hein”, disse. Daí até eu ficar sarado e nós nos encontrarmos e irmos para cama, foi uma sucessão de acontecimentos que nem eu saberia dizer.

Só sei dizer que no início Rita de Cássia só tirava a roupa no escuro, e tempos depois se transformaria na mais nova ninfomaníaca do meu caderninho. - Não entendam “caderninho” como uma forma cafajeste de me referir às mulheres. É que para um homem que já passou fome na vida como eu não, se pode dar ao luxo de dispensar ninguém – sabe lá se amanhã a dispensa esta vazia.

Bom, explicações dadas, Rita de Cássia entrou na minha vida com toda a fúria que só anos de repressão em um casamento falido pode explicar. Mesmo ela ainda mantendo o relacionamento com o marido, nós mantínhamos uma regularidade semanal na cama. Só havia um único mês em que ela recolhia sua fúria sexual e se dedicava a outros afazeres, digamos assim, mais puros. Assim era o mês de outubro, mês das festas de Nossa Senhora de Nazaré, a padroeira dos paraenses. Católica convicta Rita de Cássia canalizava suas energias nessa época em organizar os promesseiros da padroeira. No entanto, o mês de novembro entrava exigindo cautela, porque não era fácil domar aquela mulher na cama, nem dentro do carro, a sua mais recente descoberta de aventura sexual.

Posso dizer também que me tornei devoto de Rita de Cássia, a doutora. Desde os sacramentos iniciais, a missa com ela era longa. Acostumada com o velho testamento de seu marido, que não permitia certas audácias na cama, o novo testamento era todo escrito por ela, e em cada parábola, em cada versículo, a mulher se tornava menos santa, mais carnal e, talvez por isso, me fazia chegar cada vez mais próximo do céu a cada ritual realizado.

Foi por Rita de Cássia que deixei de levar mulheres ao meu apartamento. Não porque tivesse me tornado um beato, apesar dos encontros religiosos, mas por que a mulher gritava como uma cabrita. Das vezes que estivemos lá, ela narrava gritando cada posição, cada sensação, cada orgasmos, feito um Galvão Bueno em um bacanal. Cheguei mesmo a ter vergonha do porteiro. “Tô aprendendo muito como senhor”, gracejou Seu Antônio, certo dia, quando eu descia para o trabalho.

Depois de mais de um ano de nossa profissão de fé, eu e Rita de Cássia resolvemos fazer um programa completamente diferente do que ela jamais imaginava. Fomos a um estádio de futebol.

Jogavam Clube do Remo e Ceará, um jogo pela segundona do brasileirão, o Remo precisava ganhar, mas era o Ceará que tomava conta do gramado. Desde que chegamos, ela parecia encantando com aquele bando de homens de shorts e tão focado no jogo, que poucos perceberam a bermuda branca de Rita de Cássia que chegava mesmo a aumentar sua bunda e deixava à mostra pernas roliças e bem torneadas. Com uma camisa azul, colocada exatamente para homenagear o Leão de Antônio Baena, Rita de Cássia desfilava sua graça e provava das delícias de um estádio de futebol, assando o seu próprio churrasquinho de gato e mandando ver na farofa com a colher comunitária.

Mas de futebol mesmo, ela entendia pouco. Foi quando aquela santa descobriu o que somente discípulos do futebol mais abençoados entendem: a função da torcida. “A defesa dos caras estão cuns caralho!”, gritou um torcedor do nosso lado. “Porra, a bola não chega na área. Como é que os atacantes podem fazer gol, pô”, respondeu outro.

Mas o primeiro quarto de jogo passou e o Leão começou a atacar mais, fazendo uma verdadeira pressão no time Alencarino. Em apenas cinco minutos de pressão total, o goleiro já tinha evitado três gols certos, com defesas sensacionais.

Rita de Cássia vibrava. “Porra, não é para vibrar com a defesa, o lance é vibrar com o gol, porra”, eu gritei no ouvido dela. Mal calei a boca e, num contra-ataque rápido o time alvi-negro cearense abriu o placar. Rita de Cássia ainda tentou comemorar, mas dei um beliscão nela, e mantive sua bunda sentada na arquibancada.

O primeiro tempo acabou, com o Remo atrás no placar, mas jogando bem. Enquanto decorriam os quinze minutos de descanso dos jogadores, corremos para o churrasquinho e algumas cervejas.

O estádio do clube do Remo é um desses estádios modestos, com capacidade para no máximo 15 mil pessoas, o alambrado fica tão próximo dos jogadores que é possível cuspir nos adversários, quando iam bater lateral. E quando jogo era ruim, era essa a nossa diversão.

“Eu não sabia que era tão animado um jogo de futebol”, falou Rita de Cássia. ‘Geralmente fica melhor quando o time de casa está ganhando. As vezes uma derrota dá merda para todo mundo”, disse, desconversando.

“Os jogadores paraenses são meio lentos, os outros caras correm pra caramba”, continuou Rita de Cássia. “O problema são os sobrenomes”, disse eu. “O quê?”

-E acho mesmo que o problema do futebol brasileiro é esse tal de sobrenome. Jogador tem que ter apelido, porra. Tirando Ademir da Guia , que esse é Deus ( e não se brinca com Deus), o futebol antigamente tinha mais encanto porque os jogadores só tinham apelidos. O Brasil só é que é no futebol por causa dos apelidos. Zizinho, Garrincha, Pelé, Zico, Careca, isso sim são jogadores de futebol. Jamais escalaria no meu time de pelada um cara que se chamasse Carlos Queiroz, porra esse centroavante do Remo tem nome de advogado, porra, não podemos exigir que ele jogue bola. Se o nome dele fosse Carlinhos, Cacá ou até mesmo Querozene, esse jogo já tava 5 a 1. Desde que inventaram de colocar nome de gente em jogador, o futebol acabou. E depois veio essa merda de fair play, Futebol é jogo de malandro. Quem quiser ter sobrenome, que vá estudar, porra-.

O segundo tempo começou sonolento. Mas logo o Leão tomou as rédeas e passou a pressionar, era tanto “uhhhhhh” da torcida que mais parecia uma homenagem ao modo como Rita de Cássia trepava.

Mas o primeiro gol do Leão não tardou a sair, na batida de uma falta da intermediária, a bola bateu na zaga e sobrou para o Carlos Queiroz empurrar para o gol. A galera veio a baixo, era tanta comemoração, tantos abraços em quem agente nem conhecia, que parecia hora da comunhão na missa das seis. Muitos neguinhos correram para abraçar Rita de Cássia. Claro.

Foi o que bastou para que Rita de Cássia se encantasse totalmente pelo futebol. Apenas um gol separava o Leão de Antônio Baena da próxima fase da competição, e ainda faltavam 25 minutos.

Porém, o Ceará se fechou ainda mais depois do gol paraense, e o jogo ficou truncado. Faltava cinco minutos apenas para acabar o jogo, a torcida em polvorosa, os nervos à flor da pele suscitavam discussões entre os próprios torcedores, quando Rita de Cássia resolveu interceder à Deus.

Acreditando ter chegado o apocalipse, Rita de Cássia, abriu caminho naquele mar de torcedores e foi atrás de sua terra prometida: o alambrado, logo atrás de João Luís, o pobre goleiro cearense.

O Leão ia bater escanteio e esperava que o zagueiro do time alencarinho se recuperasse de uma suposta contusão, quando a voz de Rita de Cássia, talvez clamando aos céus por linhas tortas, se sobressaiu na multidão.

“Ê goleiro filho da puta, enquanto tu ta jogando aqui, a tua mulher ta fudendo com outro cearense, filho da puta, corno, safado”, e as palavras que saiam daquela boca santa, pareciam ser tão verdadeiras que, pela primeira vez, o goleiro olhou de canto de olho para a direção que vinha aquela voz.

Ney Dias correu para bater o escanteio, a bola veio aberta e ainda estava pipocando na área, quando Rita de Cássia levantou de novo sua voz. “aquelavacasafadatáatéotalocomapicanabucetaetuaquisegurandobola,otário,filho da puta,cearensecorno”, parecia uma mãe dando um conselho ao filho, de tão sincera que pareciam aquelas palavras.

Enquanto o goleiro tentou buscar com o canto de olho a responsável pelo que parecia a abertura do terceiro segredo de Fátima, a bola aproveitou para beijar o fundo do barbante. Festa total dos paraenses. Olhos de incredulidade do pobre goleiro alvi-negro. Rita de Cássia foi levada às alturas pela torcida.

O jogo acabou com o Leão ascendendo no campeonato, assim como Rita de Cássia no gosto da torcida.

Para quem não acredita em milagres, perdi Rita de Cássia para a torcida “Fé Azul”, que ela mesma fundou e preside até hoje.

Mas ficaram seus ensinamentos: a verdadeira salvação divina está na transgressão.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

As estagiárias

Não existe um método 100% seguro para se comer uma estagiária. Bicho arisco, ao menor passo mal dado pode se entocar e nunca mais sair do buraco. Quando o assunto é estagiária, o caso requer estudo, observação diárias até conhecer os hábitos, os desejos, as aspirações, os trejeitos e, sobretudo, os pontos fracos. Só então é possível se montar uma estratégia. E mesmo assim é um tiro no escuro.
Janaína e Tamara haviam entrado no escritório há pouco mais de seis meses, e nesse tempo, ninguém havia conseguido desentocá-las. As duas pareciam ter sido escolhida para agradar a todos os machos caçadores de um escritório em que 70% dos trabalhadores eram homens. Dos 30% de mulheres que restavam, 20% eram feias, 9% eram velhas demais e os 1% que sobravam ficavam por conta da secretária do chefe, que, claro, ele deveria estar comendo.
Ainda lembro do primeiro dia em que Janaína e Tâmara chegaram no escritório. Com roupas sóbrias, uma vestia jeans e a outra uma saia preta, uma usava blusa de algodão e a outra usava um tailler. Era dois tipos distintos. Duas pedras preciosas que caíram em um limbo de machos estranhos, feios e famintos.
Não deu outra. Na primeira semana, os candidatos a ajudar as duas beldades se multiplicavam pelo escritório. Vira e mexe se via um debruçado no computador de uma delas, claro, por sobre os ombros das meninas, tentando explicar o que até hoje ninguém compreendia direito. Números, números e mais números, percentagens, sub-totais e totais. Números, somente, nada de mais importante.
Na hora sagrada do cafezinho, o exército de macharada ficava espreitando através do vidro, as duas moças, sentadas uma ao lado da outra. No máximo, Janaína levantando os olhos por cima da tela do computador para ter uma panorâmica daquele lugar triste. Seus olhos verdes movendo-se de um lado para o outro pareciam os de um jacaré na lagoa, atento aos predadores.
Janaína tinha olhos verdes, Tamara negros. Janaína tinha cabelos falsamente loiros, Tamara negros. As duas tinham a pele branca, as duas estavam no último ano da faculdade, em meio a TCC’s, as duas experimentavam o primeiro emprego. As duas experimentavam a sensação de ser caça em uma savana de predadores. Janaína vez ou outra ria, Tamara nunca levantava os olhos do computador, chegava e saia e só se ouvia um sutil "bom dia" daquela boquinha avermelhada. As duas só tinham um pequeno-grande problema: havia nascido na década de ’80 e faziam aparte da geração do nada. Com vinte e poucos anos ninguém é confiável.
A fome se expandia entre os predadores, que chegavam a travar verdadeiras lutas corporais para tentar se aproximar das presas. Janaína expandia amizade, Tâmara preferiu a distância.
Depois do Fagundes ter levado o primeiro pau na testa, o Souza chegou na segunda-feira contando vantagem. Dizia que encontrou Janaína em uma festa e ela estava tomando todas e que tinha armado o seu bote. Sinal vermelho na savana. Ninguém em sã consciência iria perder para o Souza, que era desajeitado, mal cheiroso e puxa saco do chefe. Foi uma semana de batalhas, estratégias, alegrias e decepções.
Há algumas estratégias possíveis para atrair uma caça normal –não estagiárias-. A primeira, e mais conhecida, e dar atenção total, ser gentil sempre e, em seguida, dar um gelo total, sem mais nem menos. Mas também não é com todas as estagiárias que isso dá certo; a segunda, é mostrar profissionalismo, retidão no trabalho e concentração no bem estar da empresa; e a terceira, e mais arriscada, e mirar o alvo e tentar abocanhar em um único bote. Nada disso deu certo para os pobres confrades caçadores do escritório.
Mas, os deuses da caça estavam do meu lado. Ou quase.
Naquela sexta-feira, passava das seis e meia da noite quando desliguei o meu computador. Pelos meus cálculos era o tempo de passar em casa, tomar um banho e ir ao encontro de Zilá para uma noite e tanta.
Foi o que fiz. As dez da noite estava entrando em um bar com Zilá, uma deusa bronzeada de sol. Mas, quem disse que a vida é programável? Mal entrei no bar e dei de cara com um trio inusitado. Na mesa do canto, Fagundes, Tamara e Janaína conversavam animadamente. Quase morri de susto, inveja e raiva. Sentei distante, sem que eles me vissem, e, como um chacal, esperando o leão pegar a presa, fiquei de olho. Como Zilá era irrequieta e popularíssima, em pouco tempo estávamos pulando de mesa em mesa par falar com os amigos. Era o que eu precisava.
Deixei Zilá em uma mesa com amigos e, "por pura coincidência", dei de cara com trio. A receptividade de Janaína foi total. Um sorriso largo e os olhos brilhando me destruíram na hora. Sentei à mesa e tomei uma cerveja com o trio que estava desde as seis horas no bar. Esperto, Fagundes bebia pouco, e deixava as meninas se exaltarem no álcool. Reconhecendo um lobo no ato da caça, percebi que o alvo era Tamara e que seria um favor se eu sumisse com Janaína dali. Entendi o recado, e aí se configurava ali, naquele bar apertado, a perfeita analogia de uma cadeia alimentar: eu precisava me livrar de minha predadora para pular em outra caça. Tinha que usar todo meu jogo de cintura.
"Namorada?", Janaína perguntou de sopetão. "Eu... não... amiga", respondi, sem certeza. "Dificilmente um homem como tu sai com ‘amigas’". Janaína mostrava uma faceta distante daquela capa de estagiária comportada. Mais meia hora, e senti que tinha que dar satisfações a Zilá. Disse que ia ao banheiro, passei pela mesa dela, sentei afobado, numa agonia de dar dó e levantei novamente. Fui ao banheiro, dessa vez, de verdade. Fagundes me esperava por lá. "Cara, nunca esteve tão fácil. Como é que tu me apareces com uma namorada, porra", "Porra se não fosse a coincidência tu não ias me ligar", "É verdade, tentei arrastar as duas, mas vi que não vai dar certo. Dá uma desculpa e leva a Janaína contigo", "Como, porra?", "A Zilá nem vai perceber, daqui a pouco ela toma todas e vai vomitar em casa", "Bora voltar, a gente já ficou muito tempo aqui, vou pensar no que fazer".
Voltei pra mesa de Zilá, me esquivando do beijo. Eu já suava frio. Zilá não era uma mulher que se desprezasse. Mas Janaína era carne nova, estagiária e o Fagundes, fatalmente, arrastaria Tamara. Não iria ter outra oportunidade tão boa tão cedo. Se ao menos ela não tivesse vinte e poucos anos, poderia entender que o importante é fazer pares, que nessa vida a experiência sexual conta muito em relação à postura de vida e blá blá blá. Mas não, ela era estagiária e havia nascido na década de ’80, a geração do nada. Deveria ser bobinha e nunca daria no primeiro encontro. Certamente teria que se sentir namorada minha para abrir as pernas, essas coisas dessa geração.
A noite já ia alta, pelos meus cálculos a cerveja já estaria fazendo seus efeitos na defesa das presas.
Voltei à mesa do trio, realmente a animação era maior. "És tão popular assim, que uma simples ida ao banheiro demora horas", Janaína me saldou com uma direta. Dei uma desculpa qualquer, engatei um papo e entrei na animação.
Algumas horas depois, me lembrei de Zilá, dei mais uma desculpa e foi procurá-la. Qual o quê. A moça já tinha ido embora com todos na mesa em que ela estava. O garçom me entregou um bilhete: "Vê se não me liga, viu?", um minutinho para passar o susto e depois achei que tinha sido melhor assim, ia deixar a coisa esfriar e depois retomava o lance com ela. Voltei pra mesa do trio aliviado e sabendo que a hora do bote estava perto. "Pronto, agora garanto que não me levanto mais dessa mesa, a não ser por um bom convite", preparei o bote. "espero que tu estejas esperando que o convite venha dessa mesma mesa", Janaína respondeu ao chamado. "Claro, não esperava outra coisa dessa noite", mostrei as garras, e puxei minha cadeira para mais perto de Janaína.
Apenas duas cervejas depois de um papo que já estava ao pé do ouvido, as duas informaram aos leões que iam ao banheiro. Assim que elas levantaram, eu e Fagundes passamos o plano à limpo. "Cara, vou arrastar agora. Como as duas moram em lados opostos da cidade, vou dizer que vou levar a Tamara de táxi e tu levas a Janaína. Agora é cada um por si", decretou o Fagundes. Eu concordei. Pedimos mais uma cerveja para brindar a farra que estava por vir.
Acabamos a cerveja sem sinal das duas estagiárias. Em seguida, a música ao vivo acabou, sem sinal das estagiárias, mais um tempo e só restávamos nós naquele bar que agora parecia imenso. Nós, em silêncio, percebemos o duro golpe, pedimos a conta e ainda tive que levar o Fagundes em casa.
Colocamos a culpa na idade das meninas.
Não se pode confiar em quem nasceu na década de ’80. Não se pode confiar em estagiárias.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Bola na área

É nas primeiras incursões nas quatro linhas que se aprende que um homem de área tem que ser catimbeiro. Se quiser ter uma carreira longa e ser respeitado, um homem de área precisa sempre estar bem colocado, ter jogo de cintura e coragem para encarar os mais monstruosos zagueiros. Claro que a inteligência é um atributo que é necessário sempre, aonde quer que se esteja.

O Bar da Vala era um lugar pra caçar. Dito cult por alguns, mesmo depois de ter saneado a vala que o nomeara, continuou carregando o status duvidoso de ser um bar descontraído, para “descolados” (sabe-se lá o que isso queria dizer), mas o fato é que muita gente ia para lá para ver e ser visto, e claro, arranjar parceiros.

O futebol bem que poderia ser uma matéria ensinado em sala de aula. É lá, no futebol, que tu podes entender um pouco sobre estratégias. E também sobre companheirismo. Saber se colocar na área é tão importante quanto saber se colocar em um bar. É meio caminho andando para que a caça seja farta. É necessário sentar sempre em uma cadeira que lhe permita ter uma visão panorâmica do lugar, para que nada, nada fuja ao seu controle. Quem entra em campo achando que já ganhou, geralmente se dá mal. O importante é se manter atento para atacar sem abrir a guarda para um eventual contra-ataque, e se colocar bem na área.

O adversário também é importante. Jogar contra time ruim não dá emoção. Uma partida é tanto mais emocionante quanto melhor for a qualidade do adversário. Uma partida que termina em 10 a 0, não é mais emocionante que o gol da vitória aos 45 do segundo tempo.

Assim como no futebol atuar em equipe não é tão simples.

Naquela noite sai para encontrar um velho parceiro de farra. Atacante também. E esse é o perigo de se jogar com dois homens de área, o time fica mais ofensivo, mas às vezes falta espaço, e foi o que aconteceu. Como me atrasei, já encontrei o cara sentado na melhor mesa, e na melhor cadeira. Era um prenúncio que marcar um gol naquela partida não seria fácil. Mas também não sou de desistir.

“Para um atacante não pode existir bola perdida”, foram as palavras mais sábias que Seu Zuzu, meu técnico nas divisões de base do Paysandu, me ensinou e que levo para a vida inteira. “Um atacante não pode entrar em campo e deixar o placar em branco. Tem que lutar, ter garra, demonstrar vontade e prazer de estar em campo. Vale tudo, o importante é o gol. Gol de canela vale tanto quanto um gol de bicicleta”, ele continuava a preleção. O mesmo texto por anos. Jogo após jogo.

Sentei visivelmente contrariado para ouvir de cara as regras do jogo. “hoje tu vais cair um pouco mais pela esquerda”, o parceiro me disse. Caímos na gargalhada.

O papo ia bem quando entrou no bar Roberta e Ana Flávia. Roberta era uma moreninha tipo índia de parar o estádio. Ela também só jogava no ataque. Lábios carnudos, olhos amendoados, sobrancelhas grossas emoldurando um olhar maroto, cabelos lisos, com franjinha que ao balançar deixava transparecer escrito em sua testa: “Me coma!”. Ana Flávia era gorda.

Sentaram-se em uma mesa próxima, e pelo que pareceu, já chegaram no 2x5x3, esquema quase suicida.


Mas eu estava mal colocado na área. Roberta chegou esbanjando charme e jogando bola pro frente. Colocamos nosso time em campo e o parceiro pegou o flerte. Bola pra lá, bola pra cá, Ainda tentei tirar o cara da jogada com um escorão, mas há um acordo tácito entre os atacantes: cada um tem o seu pedaço da grande área. Joga em equipe não é fácil. O importante é não deixar o placar em branco, já dizia o Seu Zuzu. Deixei o parceiro jogando solto, enquanto procurava uma bola perdida para tentar um chute de fora da área.

Mais algumas cervejas e parecia mesmo que o gol estava amadurecendo, para ele, claro. Para mim, nada de bola espirrada. Enganando a linha de impedimento, o parceiro lançou a bola para ele mesmo e pegou na frente: foi encontrar com Roberta enquanto ela ia pedir uma música no balcão. Eu desci para o meio de campo. Fui ao banheiro.

Me espantei com a entrada do parceiro: “É seguinte, a Roberta ta afim, mas não vai deixar a amiga na mão. Rola?”

Eu olhei para o jato de minha própria urina, depois fiquei buscando um ponto qualquer na parede, voltei àquele vestiário fétido do Paysandu, enquanto calçava o meião e ouvia a preleção de Seu Zuzu.

Respirei fundo, levantei o meião, apertei o nó da chuteira e subi a escadaria do túnel: hoje rola!

Vou deixar placar em branco?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A secretária do chefe

Melhor do que comer a mulher do chefe é comer a secretária do chefe. Claro, desde que seja gostosa. Comer a mulher do chefe pode colocar em risco a sua própria vida, mas comer a secretária, não, é status, respeito, é como se você tivesse se servindo na cozinha da casa dele, abrindo a geladeira e sentando só de cueca no sofá. Não há nada melhor para atingir o chefe do que comer sua secretária, é uma desmoralização para o resto da vida, tem gosto de sexo, mas também tem gosto de vingança, de humilhação, de plenitude. É a vingança dos proletariados.

Inês não fugia á regra das secretárias brasileiras, morena, cabelo liso, escorrido até os ombros, boca carnuda, nariz afilado, olhos meio agateados e um corpo esculpido com esmero, entre ela e o bagulhão da mulher do chefe havia um verdadeiro grande cânion.

O chefe também não fugia à regra dos patrões brasileiros. Era um cara que tinha a instrução básica, tinha ganho o cargo à custa de muito puxa saquismo, e tinha um humor feroz. Aliás foi colocado naquele cargo exatamente para não deixar ninguém trabalhar com prazer. Não dava bom dia, não reunia com os funcionários, não deixava sua mesa nem para desejar feliz natal.

Um funcionário só entrava no aquariozinho em que ele vivia para ser humilhado. Somente a dona Inês entrava no aquário dele incólume. Por razões óbvias. Mas para nós, reles mortais, a cena era sempre a mesma. Para entrar no aquário do chefe, todos tinham que passar pela saleta de dona Inês, a pergunta era sempre a mesma: “Como ele está hoje”, e a resposta não era diferente: “Com a macaca”, o pobre infeliz voltava da sala do chefe destroçado.

Para assumir a cadeira de chefe também é importante alguns truques. Na mesa, há sempre alguns papeis espalhados, um lap top que ele navega ao léu ao falar com os funcionários, jornais do dia e um telefone. À frente de sua mesa é preciso colocar duas cadeiras estrategicamente desconfortáveis, assim, quando o pobre infeliz for chamado para sentar na cadeira vai perceber que aquilo ali não é o seu lugar e a cada esporro, vai diminuindo.

Ah, importante também: um chefe nunca, nunca olha nos olhos do funcionário, a não ser em pé, para deixar claro a hierarquia.

Depois de muitos meses chegou a minha vez de entrar no aquário com o tubarão. Passei pela sala de dona Inês e não fiz pergunta alguma. Enquanto rolava o chá de cadeira, puxei o jornal e fiquei lendo animadamente. Tudo truque. Meu cu estava apertadíssimo. Mas, mais valia fazer o tipo na frente de dona Inês do que tentar amaciar o chefe. Enquanto passava os olhos nas figuras do jornal eu ficava tentando experimentar uma cara para sair de lá depois da mijada demonstrando para dona Inês que eu não tinha medo de perder o meu emprego.

Mulher bonita não gosta de muito respeito. Se um homem a olhar como quem olha para uma pessoa qualquer, elas se ofendem. Elas precisam ser olhadas com olhos de fome para comentar depois com as amigas num tom de reprimenda: “Aquele cara é um porco. Ele me olha como se tivesse tirando a minha roupa”. É o jeito delas gozarem também.

Usei com a dona Inês a velha estratégia do “Não me interesso”.

Quando entrei na sala do chefe, a cena era igual a de todos os esporros. Ele ali, de cabeça baixa, balançando a caneta por entre os dedos, mandou eu sentar e ficou alguns segundos calado, terminando de olhar o jornal. Na verdade também faz parte da estratégia dele, o silêncio cria um suspense e instala o terror no pobre coitado que tenta se segurar na cadeira escorregadia.

Quando abriu a boca, o chefe começou a grunir coisas incompreensíveis e monocórdias. Era uma mijada, com certeza. Eu nunca sei aonde colar meus olhos numa hora dessas, não sei se baixo a vista e deixo ele gozar com minha covardia, ou se o encaro, mostrando que não tenho medo. Ele grunindo e eu no ahan, foi o que consegui fazer, enquanto amargava o insucesso de querer parecer intocável.

Na saída, dona Inês estava em pé, me esperando. ‘e aí?’, ela perguntou. Eu tentando o meu sorriso tranqüilo, respondi “o de sempre, ele só queria provar que era chefe me mostrando o quanto sou incapaz”. Ela sorriu, e aí tudo se iluminou. Aquela boca cheia de dentes parecia ter luz própria, quase eu derrapo e tiro a roupa dela com o meu olhar, mas me controlei. “è isso”, eu disse. “Tenha um bom dia, dona Inês”, passei por ela segurando o meu olhar.

Meses depois foi a vez de dona Inês experimentar o terror do aquário. Dava para ouvir de longe o esporro, sabe-se que era por causa de uma correspondência sumida. O patrão comeu o cu do meu chefe e o chefe precisava comer o cu de alguém. É a vida.

Mas dona Inês não estava preparada para essa dura realidade, acostumada com os cortejos, não agüentou os impropérios e desatou a chorar na copa, e na minha frente, santa hora do cafezinho.

Quando um homem que quer comer uma mulher a encontra fragilizada, é preciso ter tato, senão joga tudo a perder. O melhor caminho é sempre ser somente um bom ouvido, nada de querer dar conselhos, ou usar frases feitas como “você é maior que isso”, não. O lance é se mostrar solidário, até chegar àquela hora dela se jogar nos teus braços em busca de acolhimento.

Dona Inês chorava de soluçar, e eu, absolutamente encantado com aqueles pares de seios que pululavam dentro do decote a cada soluço. O nariz dela escorrendo e eu só via aquela boquinha linda, falando indignações e xingando até a oitava geração do chefe. A bolsa dos olhos já levemente inchada e finalmente jogo o primeiro valete na mesa.

“a senhora vai me perdoar, mas até chorando a senhora é linda”. Usei uma tática arriscada, a de tentar desviar o assunto para acabar com aquela porra de chororôrô chato. Ela tomou um susto. E disse, ainda indignada: “Eu aqui sofrendo, e o senhor vem com papo furado”, isso era bom, o importante é desequilibrar, a fúria é mais fácil de controlar do que o sangue frio.

“não me entenda errado. Sou solidário a sua dor. Mas para quê prolongar o infortúnio? O importante é virar o jogo. Sentir dor é o que o chefe quer que você sinta, mas se você der a volta por cima, vai devolver o câncer para ele”.

Ela calou. Isso era bom. Ficou olhando para o vazio, tentando raciocinar as coisas sem sentidos que acabava de falar. Aí, voltei a blefar, descartei o rei de ouro para pegar a dama de copas.

Dei as costas e fui me servir de mais café. Ela foi para a água. Bebeu de um gole só um copo inteiro de água, balançou aquele cabelo lindo, limpou os olhos e descartou: “você tem razão”. “obrigado pelo esforço de me compreender”, eu disse pegando o descarte dela. “você é um cara legal, pena a gente não ter tido tempo de conversar outras vezes”. Aí bati o jogo. “quer saber. Hoje deve ser um dia de transgressões. O que tu achas de fugir e fazer um dia diferente?”, “grande idéia”.

Nunca mais o chefe me olhou com desprezo. Agora eu tenho respeito daquele filho da puta.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A princesinha estava morta

Metrônomo é um instrumento que serve para regular os andamentos musicais. Apesar de nem toda música se prezar, ele é utilizado em todos os estúdios de gravações, é por obra e graça da marcação do metrônomo que o músico não perde o compasso e pode levar o andamento da música até o final.

“Que horas são?”, eu perguntei. “Quase quatro”, ela disse, limpando o suor do rosto. A porra da música alta, e ela não parava de dançar. Eu já estava pregado. Pedi um tempo e fui ao balcão pedir mais uma cerveja. De lá dava pra ver, vez ou outra, a cabeça dela, pulando no meio de uma multidão, acompanhando o bate-estaca da música que parecia ser sempre a mesma, sem variações, somente sons incidentais e o mesmo ritmo e andamento. Detesto música eletrônica e seus DJ’s com roupa extravagante e sorriso besta na cara, óculos escuro em plena noite e cabelo colorido. Odeio os seus gestos de “tô doidão” e o balanço mecânico do corpo. Não sou daqui, eu pensava. Mas o que não se faz por uma buceta.

Magaly era uma típica princesinha da noite. Popularíssima aonde quer que fosse, gente boa, risonha e bom papo, sempre animada, acompanhar o seu ritmo não era fácil. Já tinha esbarrado com ela em vários bares pela cidade, mas nunca fiquei tão perto. Magaly gostava mesmo era de meninas. Essa porra dessa moda de mulher com mulher, e o pior é que a grande maioria não quer um homem por perto. Realizar as fantasias sexuais no mundo de hoje, não está fácil. Como a gente involuiu. Viva os gregos.

Mas pelo que parecia, naquela noite, Magaly queria realizar minhas fantasias. Entre as desvantagens de Magaly tinha a necessidade de ser sempre vista como a descolada, sem amarras, medos ou preconceitos, mas na intimidade, eu sabia, ela era outra coisa, insegura, instável e deprimida às vezes. Mas como meus motivos em sair com ela passava longe da nobreza de estudá-la, pouco me importava seus problemas, só pensava mesmo era nas vantagens.

“E aí, cansou?”, ela disse me agarrando por trás. Virei e ficamos frente a frente, nem pensei duas vezes, tasquei-lhe um beijo na boca. Era o nosso primeiro beijo naquela noite. Meu investimento já contava com mais de seis horas e quase duzentos reais entre táxi e uísques, já que era eu quem estava bancando tudo.

Valia a pena. Magaly era uma mulher de capa de revista. Loira falsa, um corpo escultural, roupinha transadíssima, sorriso com covinhas e gestos largos. Mas gostava de mulher e eu era o primeiro homem que eu tinha notícia que saía com ela. Ser visto ao lado dela valia os reais que estavam indo. E mais, coloca-la no topo do currículo ainda era uma batalha a superar naquela noite. Pelo compasso dos amassos, já estava chegando perto do gran finale.

Pelo beijo de Magaly dava para antever aquela mulher na cama. Era só ter calma e mais alguns reais para outras doses.

Mais meia hora de papo e lá estávamos nós na rua, esperando um táxi na frente do bar.

Nem perguntei, dei as coordenadas para o motorista e lá fomos nós a caminho do motel mais próximo, escolhido exatamente por ser o mais próximo, uma vez que o taxímetro de Magaly era sempre bandeira 2. A última parte do trajeto fizemos num longo beijo. Pedi um apartamento e entramos no quarto às gargalhadas.

Mas foi só trancar a porta atrás de mim que Magaly mudou totalmente de figura.

Deitou-se na cama de peito para cima e ficou mirando o espelho do teto. Eu animado, e ainda sem perceber o que se passava, deitei sobre ela e colamos em mais beijos. Tirei-lhe a blusa, me deliciei naqueles seios lindos e fartos, desabotoei a saia, deslizei a língua por aquela barriga lisa, desci a calcinha e mergulhei naquele mar de maravilhas, totalmente ensopada.


Enquanto sorvia aquelas delícias, eu, de joelhos ao pé da cama, dava um jeito de me livrar do tênis, da calça e da cueca, sem parar de me lambuzar naquela gruta molhada. Quando consegui, subi de novo para outro beijo, foi quando eu constatei:

A princesinha estava morta.

“com tudo que sei acendi uma vela, abri a janela e pasmei../ alguns edifícios explodiam/ pessoas corriam, eu disse bom dia/ ignorei...”

Da mesma maneira que deitou na cama, ela permanecia. Os olhos grudados no espelho do teto. Achei que fosse uma tara. Vesti a camisinha e fui entrando sem pedir licença, mas devagar. Ela então deu sinal de vida deixando o ar escapar por entre os dentes.

Com um gemido estranho e compassado, ela acompanhava as estocadas começando a marcar o tempo simétrico da trepada com um hum-hum que parecia base de uma música lenta qualquer. Me senti em um estúdio de gravação com o metrônomo se movendo à minha frente.

Dependendo de meus movimentos naquele papai-e-mamãe necrófilo ela mudava o ritmo. Começou a ficar interessante. Enquanto ela revirava os olhos na direção do teto eu trocava a melodia. “quero ouvir um bolero agora”, eu pensava, e passava a fazer movimentos circulares, seguidos de estocadas mais forte, e ela respondia com os huns-huns boleriando o seu tesão na cama.

“vamos voltar a bossa nova”, e lá ia ela. “agora um pagodinho suingado”, o hum-hum-hum vinha junto.

Ela gozou no forrozinho, e eu quase eu grito: “Luís respeita Januário, moleque!”. Ela se recuperou na MPB e seguiu para um breguinha, passamos pelo calipso, cumbia e gozamos juntos no batecum da música eletrônica.

Virei para o lado, ela se refez, levantou aquele corpinho lindo e ressureito vestiu a roupa e me abraçou bem apertado.

Eu hoje me embriagando de uísque com guaraná, dei pra lembrar de Magaly,... são dois pra lá, dois pra cá.