segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Ave Nelson

Mulher bonita gosta de papo besta. Muita elaboração vira tese, e ninguém quer ir para cama com um Phd em alguma porra que não seja o sexo.

Mayra era gostosa, mas levava uma vida marital com seu namorado chato. Mesmo com a pouca idade dos dois, eles acreditavam mesmo que deviam fidelidade absoluta um ao outro. Juntos, era um casal enojador, fazendo ceninhas de ciúmes em público e quase sempre deixando a mesa de bar antes de todos, em meio a porradas.

Mayra era gostosa e bem de vida, pele boa, cabelo tratado, unhas sempre feitas, se vestia com personalidade. Todo mundo só esperava um dia pegar ela sem o namoradinho chato. Minha particular batalha com Mayra já durava quase um ano, como ela sempre sorria das minhas palhaçadas, eu aproveitava para jogar deixas para ela pegar. Um dia, cheguei mesmo a ser sincero, “Se eu não fosse acanhado, eu te diria que estou enamorado pr ti”.
Mulher adora homens ingênuos e frases feitas. Quando eu descobri a palavra ‘enamorado” jamais usei de novo a palavra “apaixonado”, que essa dá um ar de compromisso. Enamorado é mais solto, e algumas delas, não sabem nem o que é isso.

De tanto esperar, meu dia chegou.

Estava rolando um festival de cinema na cidade, e alguns amigos programamos para ir. A turma, junta, somava umas seis pessoas, o número par só foi possível porque nesse dia, o namoradinho chato não foi, Mayra, sim. E eu estava disposto a cercar mais uma vez. “Faz um tempinho que encontro a Mayra sem o namorado por aí, será que terminaram?”, comentou com um certo veneno feminino Amanda, namorada de um amigo. Peguei a senha.

Quando Mayra chegou, sem o mala, fui logo mandando o recado: “não posso entrar nesse cinema contigo”, mandei. “Por quê?”, ela respondeu. “Cinema ter ar de romance, e como estás sozinha, não vou responder por mim”, cravei. Ela sorriu, me chamou de palhaço, mas também não decretou distância alguma.

E foi como eu tinha pensado, sentado lado a lado, eu fazia comentários sobre o filme no ouvido de Mayra, que só respondia sorrindo. O filme já pouco me importava, era de graça mesmo, e eu estava mais interessado em mapear cada parte daquele coxão exposto que sobrava na sainha de Mayra.

Quase no final do filme ela se virou e falou no meu ouvido: aquele papo de enamorado ainda está de cima?, quase amarelei, mas mantive a pose. “Não me entenda mal, você é uma pessoa adorável”, me finge de tímido. Ela também fingiu que acreditou, e logo, logo estávamos trocando longos beijos. Mas também acabou no cinema nosso romance. Fomos para o bar depois e mantivemos a distância, imposta por ela, claro.

Mas confesso que fiquei empolgado e decidi realmente fazer a coisa certa. Na mesma semana saímos por duas vezes e foi somente beijos trocados. “Não quero que nossa história seja somente cama, quero que a gente se conheça melhor e tu tenhas certeza do que estas fazendo”, menti.

Sempre no carro dela, porque o meu já estava caindo aos pedaços e não comportava uma mulher como aquela, ela me deixava na esquina de casa acreditando ser a ativa na relação.

Mas com os beijos cada vez mais quentes, chegou uma hora que não dava mais para segurar, o grande momento estava chegando.

Sempre preguei que a leitura é um instrumento maravilhoso para romper barreiras e tirar a gente de encrencar. É lá, nos livros, que estão os grandes ensinamentos da vida, sabedoria é colocá-los em prática na hora certa.

Mayra havia sucumbido aos constantes assédios do ex-namorado, e me dito de maneira muito triste no telefone que havia reatado a merda do relacionamento dela. Para não perder por completo tirei um João Antônio da cartola e mantive a malandragem: “Tudo bem, para um homem como eu, o que vivemos já foi uma experiência extasiante”, e desliguei o telefone num Putaquepariu.

Mas o que foi plantado naquele dia renderia frutos à frente. Mandei flores e um Neruda para sua casa, em uma despedida à lá Chico Buarque.

Uma semana depois São Nelson me valeria.

Estávamos todos no mesmo bar, a mesma turma, dessa vez em número ímpar, quando o casal nojo resolveu empreender mais uma briguinha, ele pegou o carro e foi embora e, eu, bom, eu elegantemente me retirei da mesa e fui beber no balcão.

Deu certo, ela se aproximou e disse, “Dessa vez é para sempre”, e mais: “Me leva daqui, para onde quiseres”. Para onde eu quisesse valia bem mais do que me prometer vida eterna, entendem?

O negócio era que eu andava meio quebrado, gastando mais do que podia, e naquela noite, fazendo as contas rápido, pagando a despesa, me sobraria uns vinte paus. Era muito pouco pra tudo aquilo de mulher. Sorri um sorriso amarelo.

“Me tira daqui, vai”, ela implorava. Tirei um Paulo Coelho da manga para ganhar tempo, e ataquei com pieguice: “A raiva nunca é a melhor conselheira”. “Raiva é o caralho, eu passei a noite inteira te olhando”, ela respondeu com a sinceridade de uma Hilda Hilst.

“Ta bom. Vamos nos dar ao desfrute”, era Ana Cristina César falando em mim. Mas... (lembrei da pouca gasolina, no meu carro fedorento, do carro dela confortável, da minha carteira magricela, mas aí me veio meu santo de cabeça. Nessas horas as mulheres gostam de homens de atitude).

Deixa o teu carro aí e vem comigo. Ela sorriu. Peguei ela pelo braço e saímos andando pela rua, “Para onde tu estas me levando?”, ela questionou. “Se vai rolar algo entre a gente, vai ter que ser diferente. Uma história que seja só nossa”, continuei andando e falando, “freqüentas os lugares mais chiques, não é? Quero te fazer experimentar uma história diferente”, ela sorriu.

Quatro quadras depois entramos no El Camiño, um hotel vagabundo no centro da cidade, que cobrava 15 paus duas horas. Ela entrou meio ressabiada, mas não desistiu. Pelos meus cálculos ainda sobraria 5 paus para colocar um litro de gasolina no meu caro até chegar em casa depois.

Na cama, sacramentei a jogada: “É que eu te acho nelsonrodriguiana, sabe, bonitinha, mas ordinária, quero contigo, mas só vai ser bom se for em um lugar brega como esse”. Ela adorou a declaração.

Ainda declarei muito Nelson Rodrigues naquele ouvidinho cheiroso. Sempre nos piores motéis da cidade.

Uma gatíssima à preço custo

Ave Nelson.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Blasfêmia

Blasfemar, trepar ou torcer por futebol só tem valia se for por transgressão. Quem blasfêma por ódio corre o risco de ser tão extremista quanto o fanático. Quem torce pelo seu time quieto, certamente não pode-se considerar um torcedor. Assim com quem trepa em, no máximo, três posições e goza baixinho jamais será uma pessoa plenamente realizada.

Rita de Cássia era o que poderia se chamar de uma coroa enxuta. De idade desconhecida, mas de corpo esbelto e todo durinho, casara ainda cedo e se empenhara na criação de seus filhos. Hoje, todos encaminhados, como ela gostava de dizer, resolveu “curtir a vida”. Arrumou malas, fez viagens, experimentou maconha, dançou em boates e se dedicou, com o espírito muitos quilos mais leve, à sua clínica de dermatologia.

Mas suas transgressões deveriam ir mais além.

Médica experiente matou de cara quando entrei em seu consultório: “Isso é catapora!”. Porra, eu exclamei, pensei que fosse macumba, ela riu um sorriso lindo. “cuidado para não ir para o saco”, embarcou na brincadeira. “Tudo, menos o saco”, respondi com um sorriso em meu rosto monstruoso. “Catapora depois de velho é perigosa, hein”, disse. Daí até eu ficar sarado e nós nos encontrarmos e irmos para cama, foi uma sucessão de acontecimentos que nem eu saberia dizer.

Só sei dizer que no início Rita de Cássia só tirava a roupa no escuro, e tempos depois se transformaria na mais nova ninfomaníaca do meu caderninho. - Não entendam “caderninho” como uma forma cafajeste de me referir às mulheres. É que para um homem que já passou fome na vida como eu não, se pode dar ao luxo de dispensar ninguém – sabe lá se amanhã a dispensa esta vazia.

Bom, explicações dadas, Rita de Cássia entrou na minha vida com toda a fúria que só anos de repressão em um casamento falido pode explicar. Mesmo ela ainda mantendo o relacionamento com o marido, nós mantínhamos uma regularidade semanal na cama. Só havia um único mês em que ela recolhia sua fúria sexual e se dedicava a outros afazeres, digamos assim, mais puros. Assim era o mês de outubro, mês das festas de Nossa Senhora de Nazaré, a padroeira dos paraenses. Católica convicta Rita de Cássia canalizava suas energias nessa época em organizar os promesseiros da padroeira. No entanto, o mês de novembro entrava exigindo cautela, porque não era fácil domar aquela mulher na cama, nem dentro do carro, a sua mais recente descoberta de aventura sexual.

Posso dizer também que me tornei devoto de Rita de Cássia, a doutora. Desde os sacramentos iniciais, a missa com ela era longa. Acostumada com o velho testamento de seu marido, que não permitia certas audácias na cama, o novo testamento era todo escrito por ela, e em cada parábola, em cada versículo, a mulher se tornava menos santa, mais carnal e, talvez por isso, me fazia chegar cada vez mais próximo do céu a cada ritual realizado.

Foi por Rita de Cássia que deixei de levar mulheres ao meu apartamento. Não porque tivesse me tornado um beato, apesar dos encontros religiosos, mas por que a mulher gritava como uma cabrita. Das vezes que estivemos lá, ela narrava gritando cada posição, cada sensação, cada orgasmos, feito um Galvão Bueno em um bacanal. Cheguei mesmo a ter vergonha do porteiro. “Tô aprendendo muito como senhor”, gracejou Seu Antônio, certo dia, quando eu descia para o trabalho.

Depois de mais de um ano de nossa profissão de fé, eu e Rita de Cássia resolvemos fazer um programa completamente diferente do que ela jamais imaginava. Fomos a um estádio de futebol.

Jogavam Clube do Remo e Ceará, um jogo pela segundona do brasileirão, o Remo precisava ganhar, mas era o Ceará que tomava conta do gramado. Desde que chegamos, ela parecia encantando com aquele bando de homens de shorts e tão focado no jogo, que poucos perceberam a bermuda branca de Rita de Cássia que chegava mesmo a aumentar sua bunda e deixava à mostra pernas roliças e bem torneadas. Com uma camisa azul, colocada exatamente para homenagear o Leão de Antônio Baena, Rita de Cássia desfilava sua graça e provava das delícias de um estádio de futebol, assando o seu próprio churrasquinho de gato e mandando ver na farofa com a colher comunitária.

Mas de futebol mesmo, ela entendia pouco. Foi quando aquela santa descobriu o que somente discípulos do futebol mais abençoados entendem: a função da torcida. “A defesa dos caras estão cuns caralho!”, gritou um torcedor do nosso lado. “Porra, a bola não chega na área. Como é que os atacantes podem fazer gol, pô”, respondeu outro.

Mas o primeiro quarto de jogo passou e o Leão começou a atacar mais, fazendo uma verdadeira pressão no time Alencarino. Em apenas cinco minutos de pressão total, o goleiro já tinha evitado três gols certos, com defesas sensacionais.

Rita de Cássia vibrava. “Porra, não é para vibrar com a defesa, o lance é vibrar com o gol, porra”, eu gritei no ouvido dela. Mal calei a boca e, num contra-ataque rápido o time alvi-negro cearense abriu o placar. Rita de Cássia ainda tentou comemorar, mas dei um beliscão nela, e mantive sua bunda sentada na arquibancada.

O primeiro tempo acabou, com o Remo atrás no placar, mas jogando bem. Enquanto decorriam os quinze minutos de descanso dos jogadores, corremos para o churrasquinho e algumas cervejas.

O estádio do clube do Remo é um desses estádios modestos, com capacidade para no máximo 15 mil pessoas, o alambrado fica tão próximo dos jogadores que é possível cuspir nos adversários, quando iam bater lateral. E quando jogo era ruim, era essa a nossa diversão.

“Eu não sabia que era tão animado um jogo de futebol”, falou Rita de Cássia. ‘Geralmente fica melhor quando o time de casa está ganhando. As vezes uma derrota dá merda para todo mundo”, disse, desconversando.

“Os jogadores paraenses são meio lentos, os outros caras correm pra caramba”, continuou Rita de Cássia. “O problema são os sobrenomes”, disse eu. “O quê?”

-E acho mesmo que o problema do futebol brasileiro é esse tal de sobrenome. Jogador tem que ter apelido, porra. Tirando Ademir da Guia , que esse é Deus ( e não se brinca com Deus), o futebol antigamente tinha mais encanto porque os jogadores só tinham apelidos. O Brasil só é que é no futebol por causa dos apelidos. Zizinho, Garrincha, Pelé, Zico, Careca, isso sim são jogadores de futebol. Jamais escalaria no meu time de pelada um cara que se chamasse Carlos Queiroz, porra esse centroavante do Remo tem nome de advogado, porra, não podemos exigir que ele jogue bola. Se o nome dele fosse Carlinhos, Cacá ou até mesmo Querozene, esse jogo já tava 5 a 1. Desde que inventaram de colocar nome de gente em jogador, o futebol acabou. E depois veio essa merda de fair play, Futebol é jogo de malandro. Quem quiser ter sobrenome, que vá estudar, porra-.

O segundo tempo começou sonolento. Mas logo o Leão tomou as rédeas e passou a pressionar, era tanto “uhhhhhh” da torcida que mais parecia uma homenagem ao modo como Rita de Cássia trepava.

Mas o primeiro gol do Leão não tardou a sair, na batida de uma falta da intermediária, a bola bateu na zaga e sobrou para o Carlos Queiroz empurrar para o gol. A galera veio a baixo, era tanta comemoração, tantos abraços em quem agente nem conhecia, que parecia hora da comunhão na missa das seis. Muitos neguinhos correram para abraçar Rita de Cássia. Claro.

Foi o que bastou para que Rita de Cássia se encantasse totalmente pelo futebol. Apenas um gol separava o Leão de Antônio Baena da próxima fase da competição, e ainda faltavam 25 minutos.

Porém, o Ceará se fechou ainda mais depois do gol paraense, e o jogo ficou truncado. Faltava cinco minutos apenas para acabar o jogo, a torcida em polvorosa, os nervos à flor da pele suscitavam discussões entre os próprios torcedores, quando Rita de Cássia resolveu interceder à Deus.

Acreditando ter chegado o apocalipse, Rita de Cássia, abriu caminho naquele mar de torcedores e foi atrás de sua terra prometida: o alambrado, logo atrás de João Luís, o pobre goleiro cearense.

O Leão ia bater escanteio e esperava que o zagueiro do time alencarinho se recuperasse de uma suposta contusão, quando a voz de Rita de Cássia, talvez clamando aos céus por linhas tortas, se sobressaiu na multidão.

“Ê goleiro filho da puta, enquanto tu ta jogando aqui, a tua mulher ta fudendo com outro cearense, filho da puta, corno, safado”, e as palavras que saiam daquela boca santa, pareciam ser tão verdadeiras que, pela primeira vez, o goleiro olhou de canto de olho para a direção que vinha aquela voz.

Ney Dias correu para bater o escanteio, a bola veio aberta e ainda estava pipocando na área, quando Rita de Cássia levantou de novo sua voz. “aquelavacasafadatáatéotalocomapicanabucetaetuaquisegurandobola,otário,filho da puta,cearensecorno”, parecia uma mãe dando um conselho ao filho, de tão sincera que pareciam aquelas palavras.

Enquanto o goleiro tentou buscar com o canto de olho a responsável pelo que parecia a abertura do terceiro segredo de Fátima, a bola aproveitou para beijar o fundo do barbante. Festa total dos paraenses. Olhos de incredulidade do pobre goleiro alvi-negro. Rita de Cássia foi levada às alturas pela torcida.

O jogo acabou com o Leão ascendendo no campeonato, assim como Rita de Cássia no gosto da torcida.

Para quem não acredita em milagres, perdi Rita de Cássia para a torcida “Fé Azul”, que ela mesma fundou e preside até hoje.

Mas ficaram seus ensinamentos: a verdadeira salvação divina está na transgressão.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

As estagiárias

Não existe um método 100% seguro para se comer uma estagiária. Bicho arisco, ao menor passo mal dado pode se entocar e nunca mais sair do buraco. Quando o assunto é estagiária, o caso requer estudo, observação diárias até conhecer os hábitos, os desejos, as aspirações, os trejeitos e, sobretudo, os pontos fracos. Só então é possível se montar uma estratégia. E mesmo assim é um tiro no escuro.
Janaína e Tamara haviam entrado no escritório há pouco mais de seis meses, e nesse tempo, ninguém havia conseguido desentocá-las. As duas pareciam ter sido escolhida para agradar a todos os machos caçadores de um escritório em que 70% dos trabalhadores eram homens. Dos 30% de mulheres que restavam, 20% eram feias, 9% eram velhas demais e os 1% que sobravam ficavam por conta da secretária do chefe, que, claro, ele deveria estar comendo.
Ainda lembro do primeiro dia em que Janaína e Tâmara chegaram no escritório. Com roupas sóbrias, uma vestia jeans e a outra uma saia preta, uma usava blusa de algodão e a outra usava um tailler. Era dois tipos distintos. Duas pedras preciosas que caíram em um limbo de machos estranhos, feios e famintos.
Não deu outra. Na primeira semana, os candidatos a ajudar as duas beldades se multiplicavam pelo escritório. Vira e mexe se via um debruçado no computador de uma delas, claro, por sobre os ombros das meninas, tentando explicar o que até hoje ninguém compreendia direito. Números, números e mais números, percentagens, sub-totais e totais. Números, somente, nada de mais importante.
Na hora sagrada do cafezinho, o exército de macharada ficava espreitando através do vidro, as duas moças, sentadas uma ao lado da outra. No máximo, Janaína levantando os olhos por cima da tela do computador para ter uma panorâmica daquele lugar triste. Seus olhos verdes movendo-se de um lado para o outro pareciam os de um jacaré na lagoa, atento aos predadores.
Janaína tinha olhos verdes, Tamara negros. Janaína tinha cabelos falsamente loiros, Tamara negros. As duas tinham a pele branca, as duas estavam no último ano da faculdade, em meio a TCC’s, as duas experimentavam o primeiro emprego. As duas experimentavam a sensação de ser caça em uma savana de predadores. Janaína vez ou outra ria, Tamara nunca levantava os olhos do computador, chegava e saia e só se ouvia um sutil "bom dia" daquela boquinha avermelhada. As duas só tinham um pequeno-grande problema: havia nascido na década de ’80 e faziam aparte da geração do nada. Com vinte e poucos anos ninguém é confiável.
A fome se expandia entre os predadores, que chegavam a travar verdadeiras lutas corporais para tentar se aproximar das presas. Janaína expandia amizade, Tâmara preferiu a distância.
Depois do Fagundes ter levado o primeiro pau na testa, o Souza chegou na segunda-feira contando vantagem. Dizia que encontrou Janaína em uma festa e ela estava tomando todas e que tinha armado o seu bote. Sinal vermelho na savana. Ninguém em sã consciência iria perder para o Souza, que era desajeitado, mal cheiroso e puxa saco do chefe. Foi uma semana de batalhas, estratégias, alegrias e decepções.
Há algumas estratégias possíveis para atrair uma caça normal –não estagiárias-. A primeira, e mais conhecida, e dar atenção total, ser gentil sempre e, em seguida, dar um gelo total, sem mais nem menos. Mas também não é com todas as estagiárias que isso dá certo; a segunda, é mostrar profissionalismo, retidão no trabalho e concentração no bem estar da empresa; e a terceira, e mais arriscada, e mirar o alvo e tentar abocanhar em um único bote. Nada disso deu certo para os pobres confrades caçadores do escritório.
Mas, os deuses da caça estavam do meu lado. Ou quase.
Naquela sexta-feira, passava das seis e meia da noite quando desliguei o meu computador. Pelos meus cálculos era o tempo de passar em casa, tomar um banho e ir ao encontro de Zilá para uma noite e tanta.
Foi o que fiz. As dez da noite estava entrando em um bar com Zilá, uma deusa bronzeada de sol. Mas, quem disse que a vida é programável? Mal entrei no bar e dei de cara com um trio inusitado. Na mesa do canto, Fagundes, Tamara e Janaína conversavam animadamente. Quase morri de susto, inveja e raiva. Sentei distante, sem que eles me vissem, e, como um chacal, esperando o leão pegar a presa, fiquei de olho. Como Zilá era irrequieta e popularíssima, em pouco tempo estávamos pulando de mesa em mesa par falar com os amigos. Era o que eu precisava.
Deixei Zilá em uma mesa com amigos e, "por pura coincidência", dei de cara com trio. A receptividade de Janaína foi total. Um sorriso largo e os olhos brilhando me destruíram na hora. Sentei à mesa e tomei uma cerveja com o trio que estava desde as seis horas no bar. Esperto, Fagundes bebia pouco, e deixava as meninas se exaltarem no álcool. Reconhecendo um lobo no ato da caça, percebi que o alvo era Tamara e que seria um favor se eu sumisse com Janaína dali. Entendi o recado, e aí se configurava ali, naquele bar apertado, a perfeita analogia de uma cadeia alimentar: eu precisava me livrar de minha predadora para pular em outra caça. Tinha que usar todo meu jogo de cintura.
"Namorada?", Janaína perguntou de sopetão. "Eu... não... amiga", respondi, sem certeza. "Dificilmente um homem como tu sai com ‘amigas’". Janaína mostrava uma faceta distante daquela capa de estagiária comportada. Mais meia hora, e senti que tinha que dar satisfações a Zilá. Disse que ia ao banheiro, passei pela mesa dela, sentei afobado, numa agonia de dar dó e levantei novamente. Fui ao banheiro, dessa vez, de verdade. Fagundes me esperava por lá. "Cara, nunca esteve tão fácil. Como é que tu me apareces com uma namorada, porra", "Porra se não fosse a coincidência tu não ias me ligar", "É verdade, tentei arrastar as duas, mas vi que não vai dar certo. Dá uma desculpa e leva a Janaína contigo", "Como, porra?", "A Zilá nem vai perceber, daqui a pouco ela toma todas e vai vomitar em casa", "Bora voltar, a gente já ficou muito tempo aqui, vou pensar no que fazer".
Voltei pra mesa de Zilá, me esquivando do beijo. Eu já suava frio. Zilá não era uma mulher que se desprezasse. Mas Janaína era carne nova, estagiária e o Fagundes, fatalmente, arrastaria Tamara. Não iria ter outra oportunidade tão boa tão cedo. Se ao menos ela não tivesse vinte e poucos anos, poderia entender que o importante é fazer pares, que nessa vida a experiência sexual conta muito em relação à postura de vida e blá blá blá. Mas não, ela era estagiária e havia nascido na década de ’80, a geração do nada. Deveria ser bobinha e nunca daria no primeiro encontro. Certamente teria que se sentir namorada minha para abrir as pernas, essas coisas dessa geração.
A noite já ia alta, pelos meus cálculos a cerveja já estaria fazendo seus efeitos na defesa das presas.
Voltei à mesa do trio, realmente a animação era maior. "És tão popular assim, que uma simples ida ao banheiro demora horas", Janaína me saldou com uma direta. Dei uma desculpa qualquer, engatei um papo e entrei na animação.
Algumas horas depois, me lembrei de Zilá, dei mais uma desculpa e foi procurá-la. Qual o quê. A moça já tinha ido embora com todos na mesa em que ela estava. O garçom me entregou um bilhete: "Vê se não me liga, viu?", um minutinho para passar o susto e depois achei que tinha sido melhor assim, ia deixar a coisa esfriar e depois retomava o lance com ela. Voltei pra mesa do trio aliviado e sabendo que a hora do bote estava perto. "Pronto, agora garanto que não me levanto mais dessa mesa, a não ser por um bom convite", preparei o bote. "espero que tu estejas esperando que o convite venha dessa mesma mesa", Janaína respondeu ao chamado. "Claro, não esperava outra coisa dessa noite", mostrei as garras, e puxei minha cadeira para mais perto de Janaína.
Apenas duas cervejas depois de um papo que já estava ao pé do ouvido, as duas informaram aos leões que iam ao banheiro. Assim que elas levantaram, eu e Fagundes passamos o plano à limpo. "Cara, vou arrastar agora. Como as duas moram em lados opostos da cidade, vou dizer que vou levar a Tamara de táxi e tu levas a Janaína. Agora é cada um por si", decretou o Fagundes. Eu concordei. Pedimos mais uma cerveja para brindar a farra que estava por vir.
Acabamos a cerveja sem sinal das duas estagiárias. Em seguida, a música ao vivo acabou, sem sinal das estagiárias, mais um tempo e só restávamos nós naquele bar que agora parecia imenso. Nós, em silêncio, percebemos o duro golpe, pedimos a conta e ainda tive que levar o Fagundes em casa.
Colocamos a culpa na idade das meninas.
Não se pode confiar em quem nasceu na década de ’80. Não se pode confiar em estagiárias.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Bola na área

É nas primeiras incursões nas quatro linhas que se aprende que um homem de área tem que ser catimbeiro. Se quiser ter uma carreira longa e ser respeitado, um homem de área precisa sempre estar bem colocado, ter jogo de cintura e coragem para encarar os mais monstruosos zagueiros. Claro que a inteligência é um atributo que é necessário sempre, aonde quer que se esteja.

O Bar da Vala era um lugar pra caçar. Dito cult por alguns, mesmo depois de ter saneado a vala que o nomeara, continuou carregando o status duvidoso de ser um bar descontraído, para “descolados” (sabe-se lá o que isso queria dizer), mas o fato é que muita gente ia para lá para ver e ser visto, e claro, arranjar parceiros.

O futebol bem que poderia ser uma matéria ensinado em sala de aula. É lá, no futebol, que tu podes entender um pouco sobre estratégias. E também sobre companheirismo. Saber se colocar na área é tão importante quanto saber se colocar em um bar. É meio caminho andando para que a caça seja farta. É necessário sentar sempre em uma cadeira que lhe permita ter uma visão panorâmica do lugar, para que nada, nada fuja ao seu controle. Quem entra em campo achando que já ganhou, geralmente se dá mal. O importante é se manter atento para atacar sem abrir a guarda para um eventual contra-ataque, e se colocar bem na área.

O adversário também é importante. Jogar contra time ruim não dá emoção. Uma partida é tanto mais emocionante quanto melhor for a qualidade do adversário. Uma partida que termina em 10 a 0, não é mais emocionante que o gol da vitória aos 45 do segundo tempo.

Assim como no futebol atuar em equipe não é tão simples.

Naquela noite sai para encontrar um velho parceiro de farra. Atacante também. E esse é o perigo de se jogar com dois homens de área, o time fica mais ofensivo, mas às vezes falta espaço, e foi o que aconteceu. Como me atrasei, já encontrei o cara sentado na melhor mesa, e na melhor cadeira. Era um prenúncio que marcar um gol naquela partida não seria fácil. Mas também não sou de desistir.

“Para um atacante não pode existir bola perdida”, foram as palavras mais sábias que Seu Zuzu, meu técnico nas divisões de base do Paysandu, me ensinou e que levo para a vida inteira. “Um atacante não pode entrar em campo e deixar o placar em branco. Tem que lutar, ter garra, demonstrar vontade e prazer de estar em campo. Vale tudo, o importante é o gol. Gol de canela vale tanto quanto um gol de bicicleta”, ele continuava a preleção. O mesmo texto por anos. Jogo após jogo.

Sentei visivelmente contrariado para ouvir de cara as regras do jogo. “hoje tu vais cair um pouco mais pela esquerda”, o parceiro me disse. Caímos na gargalhada.

O papo ia bem quando entrou no bar Roberta e Ana Flávia. Roberta era uma moreninha tipo índia de parar o estádio. Ela também só jogava no ataque. Lábios carnudos, olhos amendoados, sobrancelhas grossas emoldurando um olhar maroto, cabelos lisos, com franjinha que ao balançar deixava transparecer escrito em sua testa: “Me coma!”. Ana Flávia era gorda.

Sentaram-se em uma mesa próxima, e pelo que pareceu, já chegaram no 2x5x3, esquema quase suicida.


Mas eu estava mal colocado na área. Roberta chegou esbanjando charme e jogando bola pro frente. Colocamos nosso time em campo e o parceiro pegou o flerte. Bola pra lá, bola pra cá, Ainda tentei tirar o cara da jogada com um escorão, mas há um acordo tácito entre os atacantes: cada um tem o seu pedaço da grande área. Joga em equipe não é fácil. O importante é não deixar o placar em branco, já dizia o Seu Zuzu. Deixei o parceiro jogando solto, enquanto procurava uma bola perdida para tentar um chute de fora da área.

Mais algumas cervejas e parecia mesmo que o gol estava amadurecendo, para ele, claro. Para mim, nada de bola espirrada. Enganando a linha de impedimento, o parceiro lançou a bola para ele mesmo e pegou na frente: foi encontrar com Roberta enquanto ela ia pedir uma música no balcão. Eu desci para o meio de campo. Fui ao banheiro.

Me espantei com a entrada do parceiro: “É seguinte, a Roberta ta afim, mas não vai deixar a amiga na mão. Rola?”

Eu olhei para o jato de minha própria urina, depois fiquei buscando um ponto qualquer na parede, voltei àquele vestiário fétido do Paysandu, enquanto calçava o meião e ouvia a preleção de Seu Zuzu.

Respirei fundo, levantei o meião, apertei o nó da chuteira e subi a escadaria do túnel: hoje rola!

Vou deixar placar em branco?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A secretária do chefe

Melhor do que comer a mulher do chefe é comer a secretária do chefe. Claro, desde que seja gostosa. Comer a mulher do chefe pode colocar em risco a sua própria vida, mas comer a secretária, não, é status, respeito, é como se você tivesse se servindo na cozinha da casa dele, abrindo a geladeira e sentando só de cueca no sofá. Não há nada melhor para atingir o chefe do que comer sua secretária, é uma desmoralização para o resto da vida, tem gosto de sexo, mas também tem gosto de vingança, de humilhação, de plenitude. É a vingança dos proletariados.

Inês não fugia á regra das secretárias brasileiras, morena, cabelo liso, escorrido até os ombros, boca carnuda, nariz afilado, olhos meio agateados e um corpo esculpido com esmero, entre ela e o bagulhão da mulher do chefe havia um verdadeiro grande cânion.

O chefe também não fugia à regra dos patrões brasileiros. Era um cara que tinha a instrução básica, tinha ganho o cargo à custa de muito puxa saquismo, e tinha um humor feroz. Aliás foi colocado naquele cargo exatamente para não deixar ninguém trabalhar com prazer. Não dava bom dia, não reunia com os funcionários, não deixava sua mesa nem para desejar feliz natal.

Um funcionário só entrava no aquariozinho em que ele vivia para ser humilhado. Somente a dona Inês entrava no aquário dele incólume. Por razões óbvias. Mas para nós, reles mortais, a cena era sempre a mesma. Para entrar no aquário do chefe, todos tinham que passar pela saleta de dona Inês, a pergunta era sempre a mesma: “Como ele está hoje”, e a resposta não era diferente: “Com a macaca”, o pobre infeliz voltava da sala do chefe destroçado.

Para assumir a cadeira de chefe também é importante alguns truques. Na mesa, há sempre alguns papeis espalhados, um lap top que ele navega ao léu ao falar com os funcionários, jornais do dia e um telefone. À frente de sua mesa é preciso colocar duas cadeiras estrategicamente desconfortáveis, assim, quando o pobre infeliz for chamado para sentar na cadeira vai perceber que aquilo ali não é o seu lugar e a cada esporro, vai diminuindo.

Ah, importante também: um chefe nunca, nunca olha nos olhos do funcionário, a não ser em pé, para deixar claro a hierarquia.

Depois de muitos meses chegou a minha vez de entrar no aquário com o tubarão. Passei pela sala de dona Inês e não fiz pergunta alguma. Enquanto rolava o chá de cadeira, puxei o jornal e fiquei lendo animadamente. Tudo truque. Meu cu estava apertadíssimo. Mas, mais valia fazer o tipo na frente de dona Inês do que tentar amaciar o chefe. Enquanto passava os olhos nas figuras do jornal eu ficava tentando experimentar uma cara para sair de lá depois da mijada demonstrando para dona Inês que eu não tinha medo de perder o meu emprego.

Mulher bonita não gosta de muito respeito. Se um homem a olhar como quem olha para uma pessoa qualquer, elas se ofendem. Elas precisam ser olhadas com olhos de fome para comentar depois com as amigas num tom de reprimenda: “Aquele cara é um porco. Ele me olha como se tivesse tirando a minha roupa”. É o jeito delas gozarem também.

Usei com a dona Inês a velha estratégia do “Não me interesso”.

Quando entrei na sala do chefe, a cena era igual a de todos os esporros. Ele ali, de cabeça baixa, balançando a caneta por entre os dedos, mandou eu sentar e ficou alguns segundos calado, terminando de olhar o jornal. Na verdade também faz parte da estratégia dele, o silêncio cria um suspense e instala o terror no pobre coitado que tenta se segurar na cadeira escorregadia.

Quando abriu a boca, o chefe começou a grunir coisas incompreensíveis e monocórdias. Era uma mijada, com certeza. Eu nunca sei aonde colar meus olhos numa hora dessas, não sei se baixo a vista e deixo ele gozar com minha covardia, ou se o encaro, mostrando que não tenho medo. Ele grunindo e eu no ahan, foi o que consegui fazer, enquanto amargava o insucesso de querer parecer intocável.

Na saída, dona Inês estava em pé, me esperando. ‘e aí?’, ela perguntou. Eu tentando o meu sorriso tranqüilo, respondi “o de sempre, ele só queria provar que era chefe me mostrando o quanto sou incapaz”. Ela sorriu, e aí tudo se iluminou. Aquela boca cheia de dentes parecia ter luz própria, quase eu derrapo e tiro a roupa dela com o meu olhar, mas me controlei. “è isso”, eu disse. “Tenha um bom dia, dona Inês”, passei por ela segurando o meu olhar.

Meses depois foi a vez de dona Inês experimentar o terror do aquário. Dava para ouvir de longe o esporro, sabe-se que era por causa de uma correspondência sumida. O patrão comeu o cu do meu chefe e o chefe precisava comer o cu de alguém. É a vida.

Mas dona Inês não estava preparada para essa dura realidade, acostumada com os cortejos, não agüentou os impropérios e desatou a chorar na copa, e na minha frente, santa hora do cafezinho.

Quando um homem que quer comer uma mulher a encontra fragilizada, é preciso ter tato, senão joga tudo a perder. O melhor caminho é sempre ser somente um bom ouvido, nada de querer dar conselhos, ou usar frases feitas como “você é maior que isso”, não. O lance é se mostrar solidário, até chegar àquela hora dela se jogar nos teus braços em busca de acolhimento.

Dona Inês chorava de soluçar, e eu, absolutamente encantado com aqueles pares de seios que pululavam dentro do decote a cada soluço. O nariz dela escorrendo e eu só via aquela boquinha linda, falando indignações e xingando até a oitava geração do chefe. A bolsa dos olhos já levemente inchada e finalmente jogo o primeiro valete na mesa.

“a senhora vai me perdoar, mas até chorando a senhora é linda”. Usei uma tática arriscada, a de tentar desviar o assunto para acabar com aquela porra de chororôrô chato. Ela tomou um susto. E disse, ainda indignada: “Eu aqui sofrendo, e o senhor vem com papo furado”, isso era bom, o importante é desequilibrar, a fúria é mais fácil de controlar do que o sangue frio.

“não me entenda errado. Sou solidário a sua dor. Mas para quê prolongar o infortúnio? O importante é virar o jogo. Sentir dor é o que o chefe quer que você sinta, mas se você der a volta por cima, vai devolver o câncer para ele”.

Ela calou. Isso era bom. Ficou olhando para o vazio, tentando raciocinar as coisas sem sentidos que acabava de falar. Aí, voltei a blefar, descartei o rei de ouro para pegar a dama de copas.

Dei as costas e fui me servir de mais café. Ela foi para a água. Bebeu de um gole só um copo inteiro de água, balançou aquele cabelo lindo, limpou os olhos e descartou: “você tem razão”. “obrigado pelo esforço de me compreender”, eu disse pegando o descarte dela. “você é um cara legal, pena a gente não ter tido tempo de conversar outras vezes”. Aí bati o jogo. “quer saber. Hoje deve ser um dia de transgressões. O que tu achas de fugir e fazer um dia diferente?”, “grande idéia”.

Nunca mais o chefe me olhou com desprezo. Agora eu tenho respeito daquele filho da puta.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A princesinha estava morta

Metrônomo é um instrumento que serve para regular os andamentos musicais. Apesar de nem toda música se prezar, ele é utilizado em todos os estúdios de gravações, é por obra e graça da marcação do metrônomo que o músico não perde o compasso e pode levar o andamento da música até o final.

“Que horas são?”, eu perguntei. “Quase quatro”, ela disse, limpando o suor do rosto. A porra da música alta, e ela não parava de dançar. Eu já estava pregado. Pedi um tempo e fui ao balcão pedir mais uma cerveja. De lá dava pra ver, vez ou outra, a cabeça dela, pulando no meio de uma multidão, acompanhando o bate-estaca da música que parecia ser sempre a mesma, sem variações, somente sons incidentais e o mesmo ritmo e andamento. Detesto música eletrônica e seus DJ’s com roupa extravagante e sorriso besta na cara, óculos escuro em plena noite e cabelo colorido. Odeio os seus gestos de “tô doidão” e o balanço mecânico do corpo. Não sou daqui, eu pensava. Mas o que não se faz por uma buceta.

Magaly era uma típica princesinha da noite. Popularíssima aonde quer que fosse, gente boa, risonha e bom papo, sempre animada, acompanhar o seu ritmo não era fácil. Já tinha esbarrado com ela em vários bares pela cidade, mas nunca fiquei tão perto. Magaly gostava mesmo era de meninas. Essa porra dessa moda de mulher com mulher, e o pior é que a grande maioria não quer um homem por perto. Realizar as fantasias sexuais no mundo de hoje, não está fácil. Como a gente involuiu. Viva os gregos.

Mas pelo que parecia, naquela noite, Magaly queria realizar minhas fantasias. Entre as desvantagens de Magaly tinha a necessidade de ser sempre vista como a descolada, sem amarras, medos ou preconceitos, mas na intimidade, eu sabia, ela era outra coisa, insegura, instável e deprimida às vezes. Mas como meus motivos em sair com ela passava longe da nobreza de estudá-la, pouco me importava seus problemas, só pensava mesmo era nas vantagens.

“E aí, cansou?”, ela disse me agarrando por trás. Virei e ficamos frente a frente, nem pensei duas vezes, tasquei-lhe um beijo na boca. Era o nosso primeiro beijo naquela noite. Meu investimento já contava com mais de seis horas e quase duzentos reais entre táxi e uísques, já que era eu quem estava bancando tudo.

Valia a pena. Magaly era uma mulher de capa de revista. Loira falsa, um corpo escultural, roupinha transadíssima, sorriso com covinhas e gestos largos. Mas gostava de mulher e eu era o primeiro homem que eu tinha notícia que saía com ela. Ser visto ao lado dela valia os reais que estavam indo. E mais, coloca-la no topo do currículo ainda era uma batalha a superar naquela noite. Pelo compasso dos amassos, já estava chegando perto do gran finale.

Pelo beijo de Magaly dava para antever aquela mulher na cama. Era só ter calma e mais alguns reais para outras doses.

Mais meia hora de papo e lá estávamos nós na rua, esperando um táxi na frente do bar.

Nem perguntei, dei as coordenadas para o motorista e lá fomos nós a caminho do motel mais próximo, escolhido exatamente por ser o mais próximo, uma vez que o taxímetro de Magaly era sempre bandeira 2. A última parte do trajeto fizemos num longo beijo. Pedi um apartamento e entramos no quarto às gargalhadas.

Mas foi só trancar a porta atrás de mim que Magaly mudou totalmente de figura.

Deitou-se na cama de peito para cima e ficou mirando o espelho do teto. Eu animado, e ainda sem perceber o que se passava, deitei sobre ela e colamos em mais beijos. Tirei-lhe a blusa, me deliciei naqueles seios lindos e fartos, desabotoei a saia, deslizei a língua por aquela barriga lisa, desci a calcinha e mergulhei naquele mar de maravilhas, totalmente ensopada.


Enquanto sorvia aquelas delícias, eu, de joelhos ao pé da cama, dava um jeito de me livrar do tênis, da calça e da cueca, sem parar de me lambuzar naquela gruta molhada. Quando consegui, subi de novo para outro beijo, foi quando eu constatei:

A princesinha estava morta.

“com tudo que sei acendi uma vela, abri a janela e pasmei../ alguns edifícios explodiam/ pessoas corriam, eu disse bom dia/ ignorei...”

Da mesma maneira que deitou na cama, ela permanecia. Os olhos grudados no espelho do teto. Achei que fosse uma tara. Vesti a camisinha e fui entrando sem pedir licença, mas devagar. Ela então deu sinal de vida deixando o ar escapar por entre os dentes.

Com um gemido estranho e compassado, ela acompanhava as estocadas começando a marcar o tempo simétrico da trepada com um hum-hum que parecia base de uma música lenta qualquer. Me senti em um estúdio de gravação com o metrônomo se movendo à minha frente.

Dependendo de meus movimentos naquele papai-e-mamãe necrófilo ela mudava o ritmo. Começou a ficar interessante. Enquanto ela revirava os olhos na direção do teto eu trocava a melodia. “quero ouvir um bolero agora”, eu pensava, e passava a fazer movimentos circulares, seguidos de estocadas mais forte, e ela respondia com os huns-huns boleriando o seu tesão na cama.

“vamos voltar a bossa nova”, e lá ia ela. “agora um pagodinho suingado”, o hum-hum-hum vinha junto.

Ela gozou no forrozinho, e eu quase eu grito: “Luís respeita Januário, moleque!”. Ela se recuperou na MPB e seguiu para um breguinha, passamos pelo calipso, cumbia e gozamos juntos no batecum da música eletrônica.

Virei para o lado, ela se refez, levantou aquele corpinho lindo e ressureito vestiu a roupa e me abraçou bem apertado.

Eu hoje me embriagando de uísque com guaraná, dei pra lembrar de Magaly,... são dois pra lá, dois pra cá.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A Gargalhada de deus.

Durante muito tempo eu duvidei. De quase tudo. De tudo.
Então duvidei de minha mãe, do meu pai, das namoradas, do lateral direito do botafogo, se homem havia mesmo chegado à lua e de deus. Sempre.
Fervorosamente, eu duvidei de deus. Mas chega um tempo em que é preciso ter certezas também. E assim eu hoje posso afirmar com absoluta certeza que deus existe.

O problema é o seu senso de humor. Também, se metade da bíblia for verdade, a vida de deus deve ser um saco, e – segundo a minha mãe diz- como cabeça vazia é o playgroud do diabo, Ele deve passar o seu tempo maquinando pequenas sacanagens com o seu pequeno laboratório de gentes que é o mundo.

Deus existe. E tem humores. E se diverte sacaneando os outros.

Carmem foi a mulher mais interessante que eu já encontrei na minha vida. Não era mulher para uma noite somente, era mulher pra viver junto. Para sonhar junto. Para cuidar e ser cuidado. Para dividir, partilhar, multiplicar, doar-se. A única mulher que me fez arriscar uns poeminhas. Olha só aonde eu fui parar: cometendo poemas.

Mas, exatamente no momento em que eu me preparava para experimentar “conjugar o verbo amar”, deus resolveu me dar provas de sua existência. Mais ainda, Ele resolveu me dar provas de seu senso de humor.

Aquela noite já era a sexagésima sexta noite de seca total. Não chovia na minha horta. Nada dava certo, nem as cantadas mais canalhas nem as mais elaboradas, nem as flores, nem os telefonemas sacanas. Tava uma situação séria. Tão séria que na falta do que fazer, fui ao teatro.

Não gosto de teatro. Não gosto de atores gritando no meu ouvindo e se cuspindo em cena e ainda mais querendo que eu pense! Porra, já não basta pagar o ingresso e ainda tenho que pensar? Já é demais. E como alguém pode pensar com outro alguém gritando feito louco, tufando a veia e olhando pra tua cara com cara de raiva?

Mas queria sofrer. Fui ao teatro. Mas foi exatamente lá, na fila do teatro, que o mundo se fez à minha frente.

Encabeçando a fila estava A mulher. A mais bela, a mais adorada. Impaciente, ela olhava para trás a toda revelando aquele rosto angelical emoldurado com o negror de cabelos lisos que iam até um pouco a baixo da orelha. Olhos negros ressaltados por sobrancelhas igualmente negras e equivalentes. Perfeitamente equivalentes. O nariz afilado ajudava a compor um rosto claro, sem nenhuma marca, mais perfeito que muito photoshop por aí. A boca era uma atração à parte. Lábios nem grossos, nem finos cuidadosamente pintados de vermelhos. Na medida certa. Que dava àquele rosto um matiz de pintura renascentista.

Já tinha visto aquele rosto em algum lugar.

O espetáculo se propunha a ser diferente. Dois atores somente em um palco tipo arena. Quando as portas se abriram procurei o meu lugar, e qual foi minha surpresa quando levantei a cabeça e percebi que havia sentado bem em frente àquela musa. Enquanto as luzes se apagavam eu a olhei bem no fundo dos olhos negros. Ela retribuiu com desdém.
Como minha auto-estima estava baixa mesmo resolvi assistir ao espetáculo. Mas era o que pensei. Na terceira frase o meu ouvido já estava doendo, e quando menos percebi estava de novo mergulhado naquele rosto.

Na metade do espetáculo Deus sorriu. Ela passou a retribuir o olhar, dessa com vez mais charme, com mais aceitação. Estava adorando aquele espetáculo. E foi assim até o final. Ficamos um no olho do outro. Deus se fazia presente, com toda a sua força na minha vida.

Não resisti. Assim que acabou o espetáculo, atravessei o palco, com os atores ainda recebendo os cumprimentos e disse a ela:
_ Estás me devendo um espetáculo.
_ Por quê?, ela respondeu.
_ Não consegui desgrudar o olho de ti.
_ Eu percebi.
_ Me dá o teu telefone?
Mandei assim, de cara, sem medo de errar. E, para minha surpresa, ela respondeu:
_ É melhor tu me dares o teu.

Era a melhor resposta que um homem como eu poderia arrancar de uma mulher como ela. Saí do teatro nas nuvens. Ela se perdeu no meio da pequena multidão que ia cumprimentar os atores. Eu já havia ganho o dia e fui pra casa.

Quantos dias se sucederam até o meu telefone tocar? Nem sei dizer. Os dias ora se arrastavam, ora voavam. Não fazia mais nada a não ser olhar para o celular. Fiquei dependente total. Dormia e acordava com o celular ao lado. Mas finalmente ele tocou. E era ela.

Somente por telefone falamos cerca de duas semanas até o nosso primeiro encontro. Me sentia um adolescente... um bobo... um amante. Sonhava com ela. Tinha a impressão de que ela estava vendo meus atos nas ruas, no trabalho, no meu apartamento. Decorei falas para dizer e impressionar.

Nosso primeiro encontro foi em um final de tarde. Levei-a para um bar com piano e boa bebida. Enquanto ela falava, eu só conseguia ver a boca se movendo, era um sonho. Ela mexia no cabelo, ela se virava, ela me contava de sua vida, encostava a boca no copo de vinho e me olhava enquanto sorvia o néctar dos deuses.

Foi lá que ela me disse que estava em meio a um casamento fracassado, mas que não queria ferir ninguém, por isso hesitou em telefonar. Que só aceitou sair comigo porque eu era um cara que sabia ouvir e sabia o que falar na hora certa.

Eu me sentia totalmente estranho. Ao seu lado eu não salivava como sempre, eu só sentia o coração palpitar, disparado. No nosso primeiro beijo, eu senti frio na barriga, porra, eu senti frio na barriga! Estava provando da babaquice que é o amor. “Deus, o senhor é bom para mim!”, eu pensava.

Saímos do bar e fomos andar no centro velho da cidade. Assim, de mãos dadas, rindo feito dois idiotas maconheiros. Eu estava nas nuvens. Depois que cansamos, que comemos cachorro-quente na esquina, eu fui deixá-la na esquina de sua casa. Nos despedimos só com olhares, para não dar o que falar. Eu senti vontade de descer do carro e correr pela cidade, como fazia quando era criança. E eu era de novo criança. Deus é bom! Deus é pai!.

Mas deus tem humores.

Por duas semanas nos encontramos todos os dias, todos os fins de tarde. Ia buscá-la na saída do trabalho e íamos ver o rio, trocando beijos. Não, não pensava em sexo. Queria que isso acontecesse naturalmente, no momento certo. Na hora certa.

E aconteceu.

Naquele dia, tínhamos combinado de passar a tarde juntos. Nenhum compromisso poderia nos separar. E foi assim. Às duas da tarde estávamos entrando em um motel, como ela sugeriu, após se negar em ir ao meu apartamento.

Tudo estava perfeito. Ela, o seu perfume, o seu vestido, o seu cabelo, os seus olhos, o seu arfar. Mal entramos no quarto e já nos grudamos em um beijo ardente. A sua língua percorrendo a minha boca, as minhas mãos percorrendo as suas costas. Ela arrancou minha blusa e eu o seu vestido. Me livrei da calça e do sapato, enquanto olhava aquele corpo branco deitado nas cobertas vermelhas da cama redonda.

Fui devagar. Provando cada pedaço do seu corpo com a minha língua. Quando tirei carinhosamente a calcinha, subiu um delicioso odor de mulher no cio. Subi em seu corpo para um beijo longo. Segurei o seu rosto entre minhas mãos e olhei fixamente em seus olhos, me lembrei da onde eu conhecia aquele rosto. Ela era a cara da Juliet Binoche no filme “A Liberdade é Azul”. Porra, morria de tesão pela Juliete Binoche. Vi esse filme uma centena de vezes só por causa dela. E, de repente eu estava na cama com a Juliete, sensacional.

Talvez isso também tenha sido demais para mim, e o que nunca havia acontecido, aconteceu. Brochei.

Cheguei mesmo a ouvir as gargalhadas de deus nessa hora.

Ainda tentei ficar mais algum tempo nas preliminares, enquanto ela gemia: vem! vem!, e eu pensava: como? como?

Ela tomou posse da situação e veio para cima de mim. Colocou o meu pau na boca, e ele, finalmente, deu o ar da graça. Imediatamente reassumi o comando e quando ia penetrar, ela faliu: a camisinha. Não esquece a camisinha.

Como eu ia colocar a camisinha em um pau meiote?

Parei. Peguei a camisinha no console da cama e vesti o bicho de tal maneira que parecia mais uma trouxa de roupa suja. Não deu certo. Desisti. Queria propôs ficarmos apenas nas preliminares, mas não tive coragem. Não tive coragem também de dizer o que estava acontecendo. Joguei a camisinha pro lado e tentei enrolar.

Ela, insatisfeita e achando que eu havia colocado a camisinha, voltou a pular sobre mim e, assim, meiote, a penetrei. Três cavalgadas sobre mim foram o suficiente para o coitado sair de dentro. Quando ela pegou nele para colocá-lo novamente percebeu que estava sem camisinha e aí o negócio pegou.

_ Estas sem camisinha?, ela disse furiosa.
_ Eu... Eu...

E aí, ela fez o que qualquer garota inteligente faz quando percebe que está com o homem errado: chora no motel.

Enquanto deus gargalhava, ela chorava copiosamente, repetindo: tu não! Tu não!
Tremi nas bases, será que ela estava infectada? Caralho, eu marquei uma touca dessas. Me fudi. Acabou para mim. Ao mesmo tempo em que eu a consolava e tentava me consolar também. Estava quase entrando em desespero quando ela parou de chorar e disse que estava fazendo uma loucura, que precisa voltar com o marido, rever sua vida, seus filhos, sua história. Me pediu desculpas, foi vestindo a roupa e me empurrando para fora.

Nunca mais eu vi Carmem.

Os telefonemas cessaram. Minha vida cessou. Não dormia, nem comia. Ainda tentei ligar, mas ela nunca voltou a atender ao telefone.

Meus dias de enamorado haviam acabado de maneira ridícula.

Lembro que chovia bastante naquele dia em que eu tentava me conformar. Os trovões soavam como gargalhadas, grandes gargalhadas. Enfim, deus estava se divertindo.
É justo.
A piada foi dele.

sábado, 27 de setembro de 2008

Esse é um país que vai pra frente!

Saí do cinema enojado. Meio raivoso. As imagens de presos políticos sendo torturados estavam vivas em minha frente. Como o nosso país pode ser tão cruel ? um povo tão simpático não merecia ser tratado com tamanha brutalidade. O Brasil é uma merda! Um país de poucas oportunidades, não foi somente na ditadura militar que se sofreu desse jeito. Ainda hoje centenas de pessoas são relegadas a viver em condições desumanas por pura falta de compromisso desses porras.

Àquela época o governo não escondia sua covardia, hoje em dia é tudo maquiado. Nem sei o que é pior. O Brasil é um país de merda! A democracia é uma mentira!!

Andava pela calçada com a cara meio fechada, com raiva mesmo. Nem sei porque entrei naquele cinema, eu tava tão bem e agora... o lance é tomar uma cerveja no primeiro bar que aparecer.

Entrei naquele bar só porque estava seco por uma cervejinha. Não era a minha cara, nada naquele bar me fazia sentir à vontade. Cheio de patricinhas e playboizinhos querendo parecer populares uns para os outros. Muita gente gritando e muita gente gesticulando. Isso me deixa tonto. Chamei o garçom e pedi uma cerveja, assim de cabeça baixa, enquanto o filme voltava á minha memória.

Tomei o primeiro gole de cerveja no gargalo mesmo. Era uma daquelas garrafinhas, que os mais plays chamam de long neck, ou coisa parecida. Fico puto com esses estrangeirismo na nossa língua, mas o Brasil é um país que não se preza. Ninguém quer saber da nossa língua. Tem que ter um certo limite pra esses gringos no nosso país, não sou nacionalista, quero mais é que o país se foda. Ainda mais sabendo que a tortura ainda é um expediente muito utilizado ns nossas delegacias.

Na descida do gole, dei de cara com a única coisa que poderia me tirar daquela fossa. Horas depois a coisa ganhou um nome: Zilá.


Zilá era uma daquelas mulheres que se pode chamar de gostosa. Cabelos leves, olhos amendoados, boca carnuda, pele lisa e branca, quadris largo, bundão e batatas das pernas grossas. De família rica, estudada – falava três idiomas – viajava para onde quisesse, na hora em que quisesse, não precisava trabalhar e podia comer quem quisesse, na hora em que quisesse, e na falta do que fazer... sofria de depressão.

Quando estava de bem com a vida, era a figura mais interessante que se podia ter ao lado. Descolada, louca, dançava como ninguém e bebia até perfume se alguém desse sopa, no meio da noitada.

Mas quando estava deprimida poderia levar um para o buraco. Não o dela, mas aquele mesmo há sete palmos debaixo do chão.

Informações tão precisas foram dadas a mim pelo garçom, após a oitava dessas cervejinhas ridículas. Ficamos quase íntimos quando perguntei por Zilá.
Habitué do bar, o garçom conhecia ela talvez mais do que o seu próprio pai.

Naquele dia Zilá estava de bem com a vida. Sem fazer esforço, a loiraça era a própria dona da festa. Mais popular que ela, ninguém se atrevia, pelo menos naquela noite. Bebia vodka como quem bebia água. O bar inteiro parecia ser a extensão de sua casa tamanha era a intimidade que tinha com absolutamente todos os que estavam no bar.

Menos eu, um total estranho no ninho.

Estranho para mim, estranho para ela também. Parecia que houve uma certa indignação por parte de Zilá de eu estar em sua sala de estar, sem conhecê-la. Mais umas doses de vodka e ela sentou em minha mesa, disposta a se apresentar e pedir satisfações.

Respondi a todo o questionário, e ,parece, passei com louvores, falei do filme, falei do país, falei de um monte de coisas. Depois me lembrei de um velho ensinamento: com mulher você tem que ouvir mais do que falar. Elas adoram esses caras que são bons ouvintes, e calei. Ela falou. Falou e falou. E falou tanto que o bar foi ficando meio vazio, assim, sem o consentimento dela. Quando ela se percebeu, foi dar o troco. Me pegou pelo braço e falou: gostei de ti, vamos sair daqui.


No espelho do motel eu via minha canela magra ao lado daquele coxão roliço. Enquanto eu bombava aquela bunda lisa e branca eu pensava: como o Brasil é um país de oportunidades! Como é bom viver em um lugar em que um magricelas, preto, pobre, pode comer uma loiraça gostosa e cheia da grana. Eu adoro meu país.

Quando ela colocou a metade do meu pau naquela boca vermelha eu quase me senti culpado, eu quase chorei de emoção. Porra o Brasil é um país genial. A democracia é do caralho! Do caralho!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

a arte de conduzir "máquinas"

Dirigir é um exercício sexual. Para estar por trás do volante de um carro é necessário conduzir e nunca apenas dirigir. E conduzir significa nem sempre estar no comando. Eu gosto de carros com câmbio manuais. Carros com câmbio automáticos é como trepar com putas, a gente não precisa fazer esforço nenhum, não precisa se preocupar em fazer ela gozar. A gente já pagou e pronto, só quer chegar aonde a gente quer.
Carros com câmbios manuais, não. É necessário sentir o carro, ouvir o motor, sentir o momento em que ele pede a marcha certa e ganha mais força ou diminuir à medida que queremos ou que somos obrigados.
Laydiane era um desses carros populares 1.0, com motor AP, que mesmo com uma quilometragem respeitada respondia bem quando a gente assava. Nenhuma fórmula mágica, apenas fazia revisão no momento certo e trocava o óleo regularmente. Aditivada então, Laydiane era uma máquina que ganhava qualquer racha.
E eis que chegou o dia em que fui convocado para conduzir Laydiane. Convocado, sim. Pois Laydiane, como a maioria dos carros semi-novos, escolheu o seu condutor. E o teste drive não poderia ter sido em lugar melhor. Um tapete. Estrada tipo high way.
Não vou me envergonha à essa altura em me gabar de dizer que sou um motorista acima da média. Mas por um motivo, que acho que faz a diferença. Antes de ligar o motor tenho que ter na cabeça exatamente o itinerário que tomarei, isso evita muitas surpresas que geralmente os motoristas mais desatentos tem.
Desde o momento em que bebericamos alguns drinks já repassava na minha cabeça os destinos que faria no corpo maduro e cheio de curvas de Laydiane. Quando entramos em sua casa, já senti o peso e as ranhuras da chave do carro em minhas mãos. Mais algumas abastecidas para o tanque ficar cheio e finalmente o volante estava em minhas mãos. É claro que, como um bom condutor de veículos eu segurei o volume de álcool que eu ingeria e deixei para aquela máquina as maiores doses de álcool no motor.

De repente, Laydiane me agarrou a boca e liguei o motor.

Um beijo molhado, quente, doce, exalando um cheiro bom, um cheiro de sexo... o motor roncou bonito. Bastou algumas aceleradas e aquele som melodioso enchia o ar, era música aos ouvidos.
Primeira marcha: desabotoei a blusa e desci minha boca sobre aquele colo cheiroso, enquanto sentia o carro se mover devagar, numa perfeita sintonia de condutor e conduzido. Não foi difícil me livrar do sutiã e mergulhar a boca naqueles seios fartos e firmes.
O motor logo pediu que eu passasse a segunda, e lá se foram minha camisa, a saia, minha calça, a calcinha, minha cueca...
Como o motor era de responsa, quase que imediatamente passei a terceira e acelerei, ela respondeu. O corpo sinuoso exigia atenções especiais do condutor. Comecei a traçar o itinerário que havia pré-estebelecido e pisei fundo.
A quarta exigia ainda mais atenção, pois, apesar da estrada ser um tapete, é sempre bom ficar atento às possíveis surpresas, afinal estava em uma estrada e com o velocímetro que só subia.
Para um condutor é sempre bom também estar atento ao painel do carro, lá estão sinais importantes, códigos que ajudam a interpretar o carro, a maneira que ele está respondendo aos nossos comandos. Apesar do marcador de temperatura estar subindo, tudo estava sob controle, nenhuma luz de alerta. O som estava ligado e o relógio marcava duas da manhã.
Laydiane arfava, era uma loba, uma mulher experiente que sabe buscar prazer e dar prazer a um homem na medida certa. Já estava na quinta, pisando fundo, com o motor respondendo bem. Eu, completamente absorto pela paisagem, pela velocidade, pela estrada que parecia interminável, pelas curvas sinuosas, por aquela cabeleira que voava alto, resolvi diminuir.
Desencaixei nossos corpos e passei a dar um banho de língua em Laydiane, voltei à quarta marcha, tirei o pé do acelerador e deixei o carro deslizar, só ia baixando... até chegar na terceira.
O carro ia deslizando pela estrada. Com um designer projetado para ter a mínima resistência ao ar, o carro ia ganhando aquela imensidão, mergulhando na paisagem, sem atrito, como se tivesse sido fabricado para aquele lugar, para aquela hora, para aquele encontro.
Voltei a exigir do motor. Ainda acelerei bastante e voltei à quinta marcha, até o destino final, sem atropelos, sem atritos maiores, encaixado até estacionar novamente.
Desci do carro como um vencedor. Fiquei imaginando o pódio, o banho de champanha, enquanto estávamos em silêncio, quase ouvia o hino nacional.
Na despedida, após longos beijos no elevador do prédio dela, eu poderia jurar que estive em uma Ferrari, em uma disputa ferrenha. Quando ela me disse com aquela vozinha doce para a gente se encontrar outras vezes, eu sentia que tinha deixado Proust’s, Berguer’s, Shumacher’s e Piquet’s para trás.

Peguei um táxi e falei ao motorista: Apenas dirija!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Diário

Vanessa é nome de mulher gostosa. Gabriela, Carla, Isabela, Rafaela, a maioria que termina com -Ela é gostosa. Érica é nome de mulher meiga. Paula é gostosa. Maria não fede nem cheira, mas às vezes surpreende. Regina varia.

Eu gosto de olhar para cara das pessoas e adivinhar o nome delas, geralmente as pessoas tem o nome grafado no rosto. Mas as mulheres, não. Eu tenho que olhar o corpo todo pra dizer o nome. O nome das mulheres tá no corpo, não tá na cara. Mulher com bunda grande, seios fartos e boca carnuda tem que ter um nome forte, a língua tem que enrolar, dar uma volta e repousar na boca. Tem que ser um exercício sexual, só de chamá-las.

Mas nem todo mundo pensa assim.

Naquela tarde eu tinha que visitar um amigo, no hospital. Ele tinha quebrado as duas pernas quando ia atravessar a rua e caiu num bueiro aberto.
_Nossa cidade anda um caos. Eu disse.
_Um caos anda minha vida, ele disse, Bati o carro na garagem de casa, minha mulher quer me largar, meu filho tá se drogando. E, eu, fui comprar umas flores pra fazer as pazes e olha onde eu tô.
_Deve ser o inferno astral, tentei brincar.
_Inferno astral é o caralho. Todo ano perto do meu aniversário, todo mundo vem com esse papo. Eu quero saber se existe o paraíso astral, porra. Cadê ele?
Pensei em sair naquela mesma hora, mas a entrada da médica me demoveu a vontade.

_Como está hoje, meu paciente?

Uma vozinha rouca, grave, gestos leves, olhar sincero e um sorriso cheio de dentes na boca. Nem ouvi a conversa deles, fiquei olhando a pele dela, tentando dar-lhe um nome, mas o jaleco branco não me deixava ler direito aquele corpo. Assim como ela entrou ela saiu, sem dar conta da minha presença.

_Sabe que eu acho que tu estás no paraíso e não te deste conta.
_Paraíso por que seu babaca? Vem ficar aqui no meu lugar com as duas pernas quebradas e uma puta dor na bacia, tomando remédio feito um filha da puta, pra ver se é bom.
_Desculpa, eu tava tentando brincar.
_Vai brincar com o caralho.

Brincar com o caralho. Foi isso que me deu vontade de fazer. Correr pra casa e brincar com o meu caralho pensando naquela doutora. Encerrei a visita ainda com a imagem daquela deusa. Meu amigo ainda me mandou tomar no cu umas três vezes antes de eu sair, e saí.

Na porta do hospital acendi um cigarro, pra ver se aquele tesão passava. Mas tava difícil.

_Isso ainda vai te matar.
Ouvi aquela mesma voz rouca atrás de mim. Virei rápido. Não deu outra. Era ela, linda, sem o jaleco e ainda toda de branco. A pureza em pessoa.
_Eu vou parar, mas depois de uma puxada dessas, eu preciso de um cigarro.
Era a amiga falando.
_Tens um cigarro pra me dar, a amiga me pediu.
_Sim, claro. Eu respondi.
_Eu não entendo o ser humano. Sabe dos malefícios do cigarro e ainda assim fuma. Aquela voz rouca, linda, falava enquanto eu puxava do maço um cigarro para dar para a amiga.
_É que eles põem muita química. Viciam a gente. Eu disse.
_Mais um motivo pra parar. Vocês sabem que estão sendo usados.
_Mas, pelo menos, eu não fumo aquele da impotência. Falei rindo.

As duas ficaram séria me olhando. Que merda que eu falei. Como é que pude ser tão grosseiro, pensei em pedir desculpas, mas já era tarde. Tinha feito a merda.

_Bom eu vou pegar um táxi, quer uma carona? Falou a doutora pra amiga, me relegando à condição de inutilidade total, me jogando na merda, a mesma merda que eu tirei aquela porra daquela piada grosseira.

_Eu tô de carro, posso dar uma carona pra vocês. Me meti na conversa, de uma maneira muito sem graça. A doutora riu e virou de costas como que procurando um táxi, então pude ver sua bunda e ler o seu nome. E ataquei certeiro:
_Vanessa!
_Como? Ela respondeu.
_É uma brincadeira que tenho comigo, olho no rosto das pessoas e adivinho o nome. Não erro uma.
Ela me olhou por uns segundos, com os olhos meio admirados e devolveu:
_Juliana.

E pegou o táxi.

Juliana é nome de mulher gostosa!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ana Cristina

...Adeus.
Dentro da casa ficou o eco da batida seca da porta. Nenhum outro som se ouvia, nem soluços, nem pragas, nem gemidos, nem ofegância, nem nada. Nada.
O sol se esvaindo desenhava os contornos da janela no chão de taco amarelo. O sofá, a televisão, a mesa de centro, o tapete verde, a mesa com quatro cadeiras, o quadro na parede, a mesinha do telefone, o telefone. Imóveis. Ana Cristina no canto, no chão, olhar parado no nada, cabelos desgrenhados, a vida passando-lhe diante dos olhos. Não era assim. Não era assim que imaginava. Para ela as histórias nunca teriam fim, nunca.
Levantou-se. Andou pela casa, lentamente, como que reconhecendo aquela casa mais-que-conhecida. Nunca lhe ocorrera antes que são preciso doze passos para ir da sala ao quarto, nunca lhe ocorrera que as paredes do corredor estavam marcadas com as mais variadas manchas.
No quarto, a cama. O guarda-roupa com as portas abertas. Muito espaço. Agora havia gavetas livres, o cabideiro, as gavetas de roupas íntimas, a cama por completo, espaço na sapateira, na penteadeira. Olhou o guarda-roupa com estranheza. Precisava comprar roupas novas, pensou.
Voltou a contar os passos. Do quarto ao escritório. Seis. Deteu-se á porta. Olhou com distanciamento as prateleiras de livros, agora semi vazias, quanto espaço. Na parede as marcas de um quadro arrancado às pressas, ela foi até lá. Ficou de pé diante da mancha amarelada. Só então ela percebeu o que dizia o quadro, seus olhos podiam ver com riqueza de detalhes o que havia habitado ali por muitos anos, seus lábios quase sorriram ou lembrar que Cleópatra cercada de homens, morara em sua casa tanto tempo e ela só a reconheceu quando ela se foi. Olhou em volta. Quanto espaço!
Atravessando o corredor chegou ao banheiro, jamais podera crer que ocupava tão pouco lugar por sobre o móvel da pia. Um batom, uma caixinha com lápis de olho, um creme anti-rugas, um hidratante, perfume, sua escova de dentes e a pasta, irritantemente amassada no meio, sentiu falta do desodorante, mas logo em seguida lembrou que o desodorante era partilhado e se fora com a outra metade. O chão do banheiro estava molhado. Enxugou-o, calmamente. Fechou a porta e se dirigiu ao quarto de hóspede, que seria de hóspede até a chegada de seu bebê. Que nunca veio. Ela tinha planos para um filho. Mas o tempo foi passando. Ainda havia coisas que não eram suas para serem retirados de lá. Imaginou o quarto sem aquelas tralhas todas. Quanto espaço sobraria. Sentou na cama, imaginou como seria o quarto do filho e com os lhos inventou uma rápida arrumação, naquele canto ficaria o seu guarda-roupas, o berço seria aqui onde está essa cama, colocaria também sinos de vento, e quase poderia ouvir o som sereno do sino. Ficou lá por algum tempo, sentada na cama, olhos fechados ouvindo os sinos tocarem.
Foi sentindo uma dor no peito. Coisa que nunca havia sentido, nada parecido com as dores que ultimamente sentia. Correu para a cozinha, abriu a geladeira, pegou água, foi ao armário pegou um frasco de remédio, tirou uma pílula pequena e colocou-a sob a sua língua. Tomou a água, com cuidado para não engolir a pílula. A dor não cessara. Foi à sala, abriu a janela e debruçou-se sobre ela. Alguns pingos de chuva tocaram-lhe o rosto, só então percebeu que chovia forte. Com a mudança dos ventos os pingos lhe alcançaram com maior intensidade, fechou os olhos, queria preencher aquele vazio com a água que caía do céu. Lembrou de seus banhos de chuva na infância e da gripe que sempre chegara após as delícias da chuva.
Entrou. Deixou a janela aberta. Pela primeira vez não se preocupou com a chuva molhando o tapeta da sala. Sentou no sofá. Lembrou-se de chorar, mas a vontade não vinha. achou que devia emagrecer mais um pouco, achou que deveria pintar o cabelo, achou que deveria comprar aquele vestido que há meses ensaiava sua compra, achou que a estampa do sofá não a agradava tanto, nem o tapete, tão pouco a mesa de centro.
Decidiu que amanhã voltaria a fumar.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O Tamanho de deus

Ela tinha peitos enormes e uma língua gelada que entrava e saia da minha boca. Eu era um menino recém entrado na puberdade, aquilo tudo me assustava e me excitava, me sufocava e me acendia. Quando ela largava minha boca eu tinha vontade de correr e de ficar lá.
Foi no dia que fiz quinze anos. Tá, tá certo, eu também acho que foi tardio, mas será que diminui minha culpa se eu disser que a punheta era desde os doze? Aliás, a punheta foi um outro ponto meio nebuloso na minha vida. Eu venho de uma família muito católica, minha mãe não chegava a ser uma beata, mas passava raspando. Como eu sou o último filho de uma família de cinco, que já não eram lá muitos chegados à religião, eu sofri menos a pressão de andar, e pensar, de acordo com os desígnios bíblicos. Mas o pouco que sobrou para mim era assustador. Até os quinze anos a imagem que eu tinha de deus era monstruosa, apesar de minha mãe repetir de meia em meia hora que deus era bom, eu só conseguia vê-lo com a cara fechada, sentado em seu trono de nuvens, jogando raios em cima de quem desobedecia suas leis. Mal sabia eu que, no fundo, eu era um perfeito cristão, temente. Temente a deus. Temente a tudo. Com pavor de ser castigado. Minha mãe dizia que cada palavrão que eu chamava era uma chaga que eu abria em Jesus, e como eu me sentia culpado por fazê-lo sangrar tanto.
Hoje em dia, coitado, o pobre de Jesus na cruz tá precisando mais que uma transfusão de sangue. Essa história de religião é engraçada. Eu , por exemplo, não tenho nenhum problema com Deus, mas acredito que o principal problema de deus é ser onipresente. É, esse é o maior problema. Pensa bem: é até legal tu teres um deus onipotente, até mesmo onisciente, isso dá um certo ar de super herói de quadrinhos, não é? Mas tu teres um Deus onipresente é que é foda, porque significa que não dá pra fazer nada sem os olhos vigilantes dele. Isso inclui, era o meu principal problema, bater punheta no banheiro.
Na minha pré – adolescência eu até que tinha uma vida legal. Minha casa tinha dois andares e dois banheiroS e, como meus irmão passavam o dia todo trabalhando, eu podia me utilizar de um o dia inteiro, sem Ter hora para sair ou sem Ter ninguém batendo à porta pra me perturbar. O único problema eram os olhos vigilantes de deus que não me deixavam me concentrar nas revistas, então meu pau ora entumecia ao ver os pelinhos loiros que desenhavam um caminho perfeito do umbigo à boceta da moça da revista, ora murchava a imaginar que deus estava preparando um raio todinho para mim. Não era fácil. Mas como nunca fui de desistir tão facilmente eu fechava os olhos com força, apressava o ritmo, limpava tudo rapidamente, pedia desculpas e saia correndo do banheiro, com a certeza de que estava escrito na minha testa: pu-nhe-tei-ro.
Mas voltemos a Luciene. Esse era o nome da minha feitora. Eu não sei ao certo como é que tudo isso começou, até porque, olhando pras minhas fotos de adolescente, eu até que era uma figura bem desinteressante. Meio apagada sabe? Mas me lembro que ela encasquetou que queria namorar comigo, eu sei lá porque. Pra mim era tudo muito chato, eu só pensava em jogar bola. Nem um menino da minha turma do colégio tinha namorada, e eu, logo eu, tinha que Ter uma. Isso era um problema pra mim porque na hora do recreio todos corriam para a quadra pra jogar uma partidinha de quinze minutos, o tempo do recreio, e eu tinha que ficar ali, do lado da Luciene, ouvindo um monte de papo furado das amigas dela. E o pior, antes de entrar em sala, eu tinha que dar um beijinho nela. Que merda, eu morria de vergonha. Dava um beijo rapidinho e corria pra sala, pra ouvir as encarnações da galera que dizia que eu não jogava mais porque tava namorando. Mal sabiam eles o quanto era difícil pra mim vê-los ali, jogando bola na quadra, enquanto eu ficava sentado ao lado da Luciene. Teve uma época que eu nem queria ir pro colégio pra não Ter que encarar a Luciene, minha mãe ficava uma arara e me chamava de preguiçoso e dizia que eu ia ficar burro e dizia que quem não estudava ia puxar carroça na rua.
Isso também me assustava, eu não queria ficar igual ao o Pega-burra, o carroceiro que sempre passava na rua de casa, e que a gente assustava o cavalo dele só pra ver ele em bundas em cima da carroça, à toda velocidade numa rua cheia de buracos. Quase sempre ele caia, e voltava pra atirar pedras na gente. Era uma festa, como a gente se divertia com o Pega-burra. Mas eu não queria ficar assim. Mas poderia ser o castigo que deus estava preparando para mim, então eu, muito à contra gosto, ia pro o colégio.
A Luciene era mais velha que eu uns dois ou três anos, mas tava atrasada no colégio, ela ainda tava na Sexta série, enquanto eu, que ainda repeti um ano, tava na sétima. Eu não sei da onde ela tirou essa história de namorar, mas dizia pra todo mundo que namorava comigo. Um dia, eu tava voltando pra casa com o uniforme da Educação Física, ela me atalhou na esquina, disse um monte de coisas e foi metendo a língua fria dela dentro da minha boca, eu abri a boca porque não tinha outro jeito, mas só imaginava que era uma lesma que tava entrando na minha boca, eu não suportei, mas meu pau endureceu e mais tarde, no banheiro, achei aquilo legal.
Eu morava perto da escola, ela sabia, e de noite apareceu em casa. Quase morri de vergonha quando o meu irmão veio dizer que tinha uma menina me chamando lá fora, quando eu saí não era menina que nada, era a Luciene que me esperava, a gente sentou num banquinho de madeira embaixo de uma árvore que ficava na frente da minha casa e ficamos conversando. Conversando, não. ela ficou falando e eu, contrariado, fiquei admirando meus amigos brincando de polícia e ladrão na rua, até que sentia a mão dela na minha coxa, e antes que eu pudesse dizer alguma coisa a mão pulou para o meu pau e, de novo, ela meteu a língua na minha boca, a mesma língua fria, mas dessa vez tinha uma mão quente segurando o meu pau que tava pra explodir. Eu me lembro que quando eu fui mijar, antes de dormir, meu pau tava todo melado. Fiquei com um pouco de medo que não fosse um castigo. Corri pro quarto rezei rápido e tentei dormir, mas só me lembrava da mão da Luciene no meu pau. Nessa noite eu rezei umas três vezes, até desmaiar de sono.
Mas eu não só pensava em futebol ou em deus, não. eu tinha um amor. Platônico, claro. Mara. Todos nós tínhamos lugar marcado em sala de aula, e o meu era exatamente no canto oposto ao dela, três cadeira atrás, para que eu podesse vê-la perfeitamente (nem lembro direito do rosto dela, mas das costas...) . Nas aulas chatas de matemática, com o professor Vantuir, eu ficava o tempo todo admirando os cabelos loiros dela, a pele branca, a marca da blusinha que ela usava por debaixo da bata e, claro a bunda dela dentro da saia ou da calça jeans. Nunca troquei uma palavra com ela, mas sonhava com as mãozinhas delicadas dela tocando o meu pau. Na Segunda vez que a Luciene meteu a língua na minha boca eu tentei imaginar a Mara, mas duvido muito que ela teria aquela língua gelada e melada da Luciene.
Era Abril, o dia do meu aniversário tava chegando, todo mundo do colégio encarnava em mim porque com essa idade, diziam eles, eu já poderia entrar no Ópera, pra ver aqueles filmes pornôs que tanto a gente imaginava quando passava em frente ao cinema. Eu acreditei por alguns dias, mas meus irmão logo acabaram com os meus sonhos dizendo que era só com dezoito anos que dava pra assistir a esses filmes. Bom, na verdade o pessoal do colégio tava de olho era na festinha do meu aniversário, que meu pai já havia me adiantado que não daria para Ter, porque não tinha dinheiro. Por mim, tudo bem. Meu irmão já havia me prometido uma camisa oficial do Paisandu de aniversário, e isso pra mim já era um bom motivo pra comemorar.
Mas a Luciene parecia muito mais ansiosa pelo dia do meu aniversário do que eu, isso me intrigava. Será que ela ia dizer pra minha mãe que a gente tava namorando? Isso eu não ia perdoar ela nunca.
Nessa época eu ainda pensava que no dia do aniversário da gente era um dia especial, diferente. E acordei naquele trinta de abril acreditando que tudo tava diferente. Minha mãe me acordou, me abraçou, me beijou, me desejou feliz aniversário, colocou meu café na mesa, todos me desejaram feliz aniversário. Eu já estava esperando a camisa novinha do Papão, mas meu irmão nada falou sobre o assunto, meu pai me deu uma nota de cinco cruzeiros e eu fui para o colégio.
Nessa época a gente ainda cantava o hino nacional antes de entrar em sala de aula. Eu, como sempre, me coloquei bem ao lado da Mara, mas como sempre ela nem olhou pro lado, ela cantava forte o hino, isso me impressionava. Era como se aquelas palavras todas fossem dela, como se ela estivesse criando aquilo na hora, de improviso. E eu, como sempre, me atrapalhava todinho na Segunda parte do hino, eu só mexia a boca, isso me encabulava. Mas era dia do meu aniversário, ela tinha que entender. No final do hino a Luciene passou por mim e disse: feliz aniversário, meu amor. Meu amor? Eu rezei pra que ninguém tivesse ouvido aquilo, quase me enterrei. Baixei a cabeça e olhei pra Mara, ela continuava ereta, impassível. Como se estivesse esperando os aplausos pelo seu improviso.
Na hora do recreio, eu saí de sala feito um louco, correndo e tirando a bata do colégio pra pegar lugar no time, a Luciene me barrou a passagem. “eu tenho um presente pra te dar”, ela falou. Eu disse legal, na hora da saída tu me das, mas ela não desistiu, fez eu vestir a bata de novo e foi me levando para trás das salas de aula, eu tentava argumentar, dizer pra ela que todo dia do meu aniversário eu precisava fazer um gol, como um presente pra mim mesmo, sei lá. Mas ela não deu ouvidos, foi me empurrando para perto do muro desabado do colégio e num segundo eu já estava fora da escola, sendo puxado em direção à minha casa. Ela sabia que de manhã só ficava a mamãe em casa, isso eu tinha falado pra ela.
Quando eu entrei em casa, sei lá porque, eu tentei avisar a mamãe que eu tava lá, mas a Luciene não deixou, perguntou onde era o meu quarto e eu disse, então ela falou: me leva lá pra eu te dar o presente. Eu não entendia porque ela não podia me dar aquilo no colégio mesmo, mas levei ela até o meu quarto, eu não sei se eu já disse que a minha casa era de dois andares. Mas era, e lá em cima ficava os nossos quartos. Só eram dois pra nós cinco, os homens em um e as mulheres no outro. Não tinha ninguém no quarto dos homens, só eu e a Luciene que não queria deixar eu comemorar o meu aniversário fazendo um gol. Eu tava puto. Ela fechou a porta bem devagarzinho e falou. O que eu vou te dar eu nunca dei pra ninguém, e tirou a bata do colégio. Caralho! Pulou dois peitões de dentro da farda, que eu só tinha visto em revista, eu me lembro que eu tava encostado na rede, perto da cama. Fiquei Paralisado. Ela veio, esfregou aqueles peitões na minha cara e meteu a língua na minha boca, eu me lembro que dessa vez a língua dela tava quente. Depois ela me deitou na cama e se jogou em cima de mim, eu, estático, sentia umas tremedeiras que eu nuca havia sentido e que me deixavam assustados, mas eu não queria parar, nem queria que ela parasse.
Eu nem me lembro se eu gozei. Acho que devo Ter gozado quando vi os peitões dela, sei lá. Também não me lembro como ela foi embora, nem se eu voltei pro colégio naquele dia, nem se eu fiz algum gol, muito menos se eu ganhei a camisa do Papão.
Mas deus parecia bem menor depois da Luciene.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

diário de montagem

nobre amigos, sobretudo o nobilíssimo amigo J. Bosco.
é verdade que passei um tempo sem atualizar o blog, por pura falta de tempo.
mas não ha de ser nada.
vamos lá.
para os que acompanham o blog estarei nesse mês de junho em SAntarém para a finalização da montagem de Macbeth, de Shakespeare.
o diário de toda a montagem está postado aqui. paralelamente, a feitura dos novos episódios do filme A Onda Festa na POroroca, que virará uma série de TV também.
começaremos os trabalhos em julho, mas o roteiro está saindo e vou postar aqui para ouvir criticas e sugestões.
e mais: o quintal/boteco do barrosao está saindo.
em breve.
hahahaha.
beijos a todos.
nos vemos em SAntarém.

domingo, 18 de maio de 2008

Comédia dos ERros

A Comédia dos erros, dirigida por mim com a Companhia Nós Outros continua em cartaz, todo o final de semana de maio (até 01 de junho) sempre (e sempre mesmo) às 20hs.

na segunda semana de apresentação, no sábado foi um daqueles dias iluminados. até pareceu que o teatro de belém tinha voltado aos bons tempos. o volume de espectadores que aguardavam para ver o espetáculo, me dava a sensação que teatro é um programa aguardado pelo habitantes de Belém. e se o espetáculo é bom, cria-se se o hábito.
acho que conseguimos isso, ontem.

depois de uma bruta e chata chuva, que durou até dez minutos antes do espetáculos, abrimos as portas ccom a casa completamente lotada. (tivemos que colocar 30 cadeiras extras) e, tenho certeza, que quem estava lá, saiu satisfeito com a escolha de enfrentar um possível chuva durante o espetáculo. graças a Nazica isso não aconteceu.

sem confetes. mas o grupo está respondendo muito bem ao que a montagem pede.
A resposta, o resultado disso, é um público que se diverte do início ao fim.

e aí, é o bacana do fazer teatral.

ver o público com os olhinhos brilhando, como que pedindo, me emocione! me emocione! e isso acontecer, é uma sensação deliciosa.

por isso acredito no teatro.

quando as coisas estão bem. quando temos artistas responsáveis com o seu ofício no palco, a relação se dá de maneira deliciosa e duradoura.

sábado, 12 de abril de 2008

como fazer roda girar

Adriano Barroso
Ator e Dramaturgo


Sem mercado de trabalho, o profissional de teatro ainda é uma realidade distante no Pará. No mês passado, o mundo comemorou o Dia Mundial do Teatro (27 de março). No Pará, a comemoração foi tão tímida quanto é o entendimento da profissão.

Apesar do que muitos pensam, ser ator não é um hobby. Ao contrário, um ator responsável sabe que sua arte é quase um sacerdócio. O ator se alimenta do que vive, e sua matéria de trabalho é tudo. Tudo mesmo, porque sua arte é filtrar o sentimentos humanos para colocar em sua representação.

O ator é um ser político na essência. Aquele que age sobre um tablado precisa ter uma visão global sobre as pessoas que o cercam, sobre o mundo e sobre si mesmo. É isso que faz do ator um ser político. E ser político, nesse caso, é ser humano aos extremos.

Quem pensa que o ator é um semideus impassível e intocável está errado. E quem sobe em um palco com este pensamento, boa coisa não vai fazer. O mais encantador na arte de representar é exatamente se dar ao luxo de sentir na pele toda a humanidade que o personagem nos requer. Lançar mãos das referências que colecionamos ao longo de nossas vidas, filtrá-las e construir a interpretação.


Por isso o Teatro se torna uma profissão tão envolvente para aqueles que ousam subir a um palco. Por isso é tão fascinante assistir – da segurança da escuridão da platéia - a um ator ser aquilo que negamos em nós. Rir como nunca riríamos, sofrer como jamais nos permitiríamos. E não estou falando de catarse, mas de diálogo.

E é exatamente no diálogo, que estamos pecando ultimamente. Já faz um tempo que o fazer teatral no estado pouco ultrapassa o romantismo do artista. Pouco há de movimentação financeira nas produções locais. São poucos os investimentos e muito os gastos. Fazer teatro (ao menos as produções responsáveis) sai caro e, quase sempre, os grupos têm que se espremer nas poucas pautas disponíveis nos poucos teatros paraenses.

E, quase sempre, amargar um público pingado. A pouca audiência nos teatros paraenses tem um fundo de postura política, tanto do poder público quanto dos grupos teatrais. Não terei espaço suficiente para destrinchar a questão nessa coluna, mas, ao menos, poderemos suscitar a discussão, que já é grande coisa.

Apesar de termos um teatro bem conceituado fora do Estado, dentro dele, não conseguimos atingir uma das pontas fundamentais que sustentam o fazer teatral: o público. Culpa de quem? De ninguém, e de todos.


Uma das pragas da modernidade foi a invenção da tal nomenclatura "marketing cultural". Um negócio criado para confundir tanto, tanto, que ninguém sabe o que é. Aliás, juntar duas palavras tão díspares só pode ser uma jogada para confundir mesmo.

Se o tal marketing cultural já é complicado nos grandes centros, imagina no Pará, em que o poder público, de maneira geral, não quer entender a importância de investimentos culturais. E não estou falando de paternalismo, mas que as secretarias de culturas municipais e estadual, cumpra a missão para que foram criadas.

Ainda não dá para pensarmos em teatro profissional no Pará (estou falando de viver disso, não de qualidade, que isso a gente já tem). As agencias de publicidades não têm estofo para entender o trabalho do ator, o cinema ainda está engatinhando no Estado, os empresários..., bem, para falar sobre a visão empresarial no Estado seria preciso um espaço bem maior do que tenho aqui nessa revista.

Mas dá para começar a fazer a roda girar.


Antes de qualquer coisa, é necessário formação, investimentos na qualificação do futuro profissional, para que assim seja tratado. Isso deve ser um movimento dele (artista) e do poder público. Afinal, Cultura também tira crianças das ruas, da marginalidade. Criar políticas públicas para aliar o teatro à educação nas escolas de ensino fundamental e médio é uma saída boa para todos. Levar teatro aos bairros, facilitar o acesso às artes cênicas melhora a qualidade de vida das comunidades e emprega o artista. É possível fazer a roda girar!