sábado, 12 de abril de 2008

como fazer roda girar

Adriano Barroso
Ator e Dramaturgo


Sem mercado de trabalho, o profissional de teatro ainda é uma realidade distante no Pará. No mês passado, o mundo comemorou o Dia Mundial do Teatro (27 de março). No Pará, a comemoração foi tão tímida quanto é o entendimento da profissão.

Apesar do que muitos pensam, ser ator não é um hobby. Ao contrário, um ator responsável sabe que sua arte é quase um sacerdócio. O ator se alimenta do que vive, e sua matéria de trabalho é tudo. Tudo mesmo, porque sua arte é filtrar o sentimentos humanos para colocar em sua representação.

O ator é um ser político na essência. Aquele que age sobre um tablado precisa ter uma visão global sobre as pessoas que o cercam, sobre o mundo e sobre si mesmo. É isso que faz do ator um ser político. E ser político, nesse caso, é ser humano aos extremos.

Quem pensa que o ator é um semideus impassível e intocável está errado. E quem sobe em um palco com este pensamento, boa coisa não vai fazer. O mais encantador na arte de representar é exatamente se dar ao luxo de sentir na pele toda a humanidade que o personagem nos requer. Lançar mãos das referências que colecionamos ao longo de nossas vidas, filtrá-las e construir a interpretação.


Por isso o Teatro se torna uma profissão tão envolvente para aqueles que ousam subir a um palco. Por isso é tão fascinante assistir – da segurança da escuridão da platéia - a um ator ser aquilo que negamos em nós. Rir como nunca riríamos, sofrer como jamais nos permitiríamos. E não estou falando de catarse, mas de diálogo.

E é exatamente no diálogo, que estamos pecando ultimamente. Já faz um tempo que o fazer teatral no estado pouco ultrapassa o romantismo do artista. Pouco há de movimentação financeira nas produções locais. São poucos os investimentos e muito os gastos. Fazer teatro (ao menos as produções responsáveis) sai caro e, quase sempre, os grupos têm que se espremer nas poucas pautas disponíveis nos poucos teatros paraenses.

E, quase sempre, amargar um público pingado. A pouca audiência nos teatros paraenses tem um fundo de postura política, tanto do poder público quanto dos grupos teatrais. Não terei espaço suficiente para destrinchar a questão nessa coluna, mas, ao menos, poderemos suscitar a discussão, que já é grande coisa.

Apesar de termos um teatro bem conceituado fora do Estado, dentro dele, não conseguimos atingir uma das pontas fundamentais que sustentam o fazer teatral: o público. Culpa de quem? De ninguém, e de todos.


Uma das pragas da modernidade foi a invenção da tal nomenclatura "marketing cultural". Um negócio criado para confundir tanto, tanto, que ninguém sabe o que é. Aliás, juntar duas palavras tão díspares só pode ser uma jogada para confundir mesmo.

Se o tal marketing cultural já é complicado nos grandes centros, imagina no Pará, em que o poder público, de maneira geral, não quer entender a importância de investimentos culturais. E não estou falando de paternalismo, mas que as secretarias de culturas municipais e estadual, cumpra a missão para que foram criadas.

Ainda não dá para pensarmos em teatro profissional no Pará (estou falando de viver disso, não de qualidade, que isso a gente já tem). As agencias de publicidades não têm estofo para entender o trabalho do ator, o cinema ainda está engatinhando no Estado, os empresários..., bem, para falar sobre a visão empresarial no Estado seria preciso um espaço bem maior do que tenho aqui nessa revista.

Mas dá para começar a fazer a roda girar.


Antes de qualquer coisa, é necessário formação, investimentos na qualificação do futuro profissional, para que assim seja tratado. Isso deve ser um movimento dele (artista) e do poder público. Afinal, Cultura também tira crianças das ruas, da marginalidade. Criar políticas públicas para aliar o teatro à educação nas escolas de ensino fundamental e médio é uma saída boa para todos. Levar teatro aos bairros, facilitar o acesso às artes cênicas melhora a qualidade de vida das comunidades e emprega o artista. É possível fazer a roda girar!