segunda-feira, 28 de julho de 2008

O Tamanho de deus

Ela tinha peitos enormes e uma língua gelada que entrava e saia da minha boca. Eu era um menino recém entrado na puberdade, aquilo tudo me assustava e me excitava, me sufocava e me acendia. Quando ela largava minha boca eu tinha vontade de correr e de ficar lá.
Foi no dia que fiz quinze anos. Tá, tá certo, eu também acho que foi tardio, mas será que diminui minha culpa se eu disser que a punheta era desde os doze? Aliás, a punheta foi um outro ponto meio nebuloso na minha vida. Eu venho de uma família muito católica, minha mãe não chegava a ser uma beata, mas passava raspando. Como eu sou o último filho de uma família de cinco, que já não eram lá muitos chegados à religião, eu sofri menos a pressão de andar, e pensar, de acordo com os desígnios bíblicos. Mas o pouco que sobrou para mim era assustador. Até os quinze anos a imagem que eu tinha de deus era monstruosa, apesar de minha mãe repetir de meia em meia hora que deus era bom, eu só conseguia vê-lo com a cara fechada, sentado em seu trono de nuvens, jogando raios em cima de quem desobedecia suas leis. Mal sabia eu que, no fundo, eu era um perfeito cristão, temente. Temente a deus. Temente a tudo. Com pavor de ser castigado. Minha mãe dizia que cada palavrão que eu chamava era uma chaga que eu abria em Jesus, e como eu me sentia culpado por fazê-lo sangrar tanto.
Hoje em dia, coitado, o pobre de Jesus na cruz tá precisando mais que uma transfusão de sangue. Essa história de religião é engraçada. Eu , por exemplo, não tenho nenhum problema com Deus, mas acredito que o principal problema de deus é ser onipresente. É, esse é o maior problema. Pensa bem: é até legal tu teres um deus onipotente, até mesmo onisciente, isso dá um certo ar de super herói de quadrinhos, não é? Mas tu teres um Deus onipresente é que é foda, porque significa que não dá pra fazer nada sem os olhos vigilantes dele. Isso inclui, era o meu principal problema, bater punheta no banheiro.
Na minha pré – adolescência eu até que tinha uma vida legal. Minha casa tinha dois andares e dois banheiroS e, como meus irmão passavam o dia todo trabalhando, eu podia me utilizar de um o dia inteiro, sem Ter hora para sair ou sem Ter ninguém batendo à porta pra me perturbar. O único problema eram os olhos vigilantes de deus que não me deixavam me concentrar nas revistas, então meu pau ora entumecia ao ver os pelinhos loiros que desenhavam um caminho perfeito do umbigo à boceta da moça da revista, ora murchava a imaginar que deus estava preparando um raio todinho para mim. Não era fácil. Mas como nunca fui de desistir tão facilmente eu fechava os olhos com força, apressava o ritmo, limpava tudo rapidamente, pedia desculpas e saia correndo do banheiro, com a certeza de que estava escrito na minha testa: pu-nhe-tei-ro.
Mas voltemos a Luciene. Esse era o nome da minha feitora. Eu não sei ao certo como é que tudo isso começou, até porque, olhando pras minhas fotos de adolescente, eu até que era uma figura bem desinteressante. Meio apagada sabe? Mas me lembro que ela encasquetou que queria namorar comigo, eu sei lá porque. Pra mim era tudo muito chato, eu só pensava em jogar bola. Nem um menino da minha turma do colégio tinha namorada, e eu, logo eu, tinha que Ter uma. Isso era um problema pra mim porque na hora do recreio todos corriam para a quadra pra jogar uma partidinha de quinze minutos, o tempo do recreio, e eu tinha que ficar ali, do lado da Luciene, ouvindo um monte de papo furado das amigas dela. E o pior, antes de entrar em sala, eu tinha que dar um beijinho nela. Que merda, eu morria de vergonha. Dava um beijo rapidinho e corria pra sala, pra ouvir as encarnações da galera que dizia que eu não jogava mais porque tava namorando. Mal sabiam eles o quanto era difícil pra mim vê-los ali, jogando bola na quadra, enquanto eu ficava sentado ao lado da Luciene. Teve uma época que eu nem queria ir pro colégio pra não Ter que encarar a Luciene, minha mãe ficava uma arara e me chamava de preguiçoso e dizia que eu ia ficar burro e dizia que quem não estudava ia puxar carroça na rua.
Isso também me assustava, eu não queria ficar igual ao o Pega-burra, o carroceiro que sempre passava na rua de casa, e que a gente assustava o cavalo dele só pra ver ele em bundas em cima da carroça, à toda velocidade numa rua cheia de buracos. Quase sempre ele caia, e voltava pra atirar pedras na gente. Era uma festa, como a gente se divertia com o Pega-burra. Mas eu não queria ficar assim. Mas poderia ser o castigo que deus estava preparando para mim, então eu, muito à contra gosto, ia pro o colégio.
A Luciene era mais velha que eu uns dois ou três anos, mas tava atrasada no colégio, ela ainda tava na Sexta série, enquanto eu, que ainda repeti um ano, tava na sétima. Eu não sei da onde ela tirou essa história de namorar, mas dizia pra todo mundo que namorava comigo. Um dia, eu tava voltando pra casa com o uniforme da Educação Física, ela me atalhou na esquina, disse um monte de coisas e foi metendo a língua fria dela dentro da minha boca, eu abri a boca porque não tinha outro jeito, mas só imaginava que era uma lesma que tava entrando na minha boca, eu não suportei, mas meu pau endureceu e mais tarde, no banheiro, achei aquilo legal.
Eu morava perto da escola, ela sabia, e de noite apareceu em casa. Quase morri de vergonha quando o meu irmão veio dizer que tinha uma menina me chamando lá fora, quando eu saí não era menina que nada, era a Luciene que me esperava, a gente sentou num banquinho de madeira embaixo de uma árvore que ficava na frente da minha casa e ficamos conversando. Conversando, não. ela ficou falando e eu, contrariado, fiquei admirando meus amigos brincando de polícia e ladrão na rua, até que sentia a mão dela na minha coxa, e antes que eu pudesse dizer alguma coisa a mão pulou para o meu pau e, de novo, ela meteu a língua na minha boca, a mesma língua fria, mas dessa vez tinha uma mão quente segurando o meu pau que tava pra explodir. Eu me lembro que quando eu fui mijar, antes de dormir, meu pau tava todo melado. Fiquei com um pouco de medo que não fosse um castigo. Corri pro quarto rezei rápido e tentei dormir, mas só me lembrava da mão da Luciene no meu pau. Nessa noite eu rezei umas três vezes, até desmaiar de sono.
Mas eu não só pensava em futebol ou em deus, não. eu tinha um amor. Platônico, claro. Mara. Todos nós tínhamos lugar marcado em sala de aula, e o meu era exatamente no canto oposto ao dela, três cadeira atrás, para que eu podesse vê-la perfeitamente (nem lembro direito do rosto dela, mas das costas...) . Nas aulas chatas de matemática, com o professor Vantuir, eu ficava o tempo todo admirando os cabelos loiros dela, a pele branca, a marca da blusinha que ela usava por debaixo da bata e, claro a bunda dela dentro da saia ou da calça jeans. Nunca troquei uma palavra com ela, mas sonhava com as mãozinhas delicadas dela tocando o meu pau. Na Segunda vez que a Luciene meteu a língua na minha boca eu tentei imaginar a Mara, mas duvido muito que ela teria aquela língua gelada e melada da Luciene.
Era Abril, o dia do meu aniversário tava chegando, todo mundo do colégio encarnava em mim porque com essa idade, diziam eles, eu já poderia entrar no Ópera, pra ver aqueles filmes pornôs que tanto a gente imaginava quando passava em frente ao cinema. Eu acreditei por alguns dias, mas meus irmão logo acabaram com os meus sonhos dizendo que era só com dezoito anos que dava pra assistir a esses filmes. Bom, na verdade o pessoal do colégio tava de olho era na festinha do meu aniversário, que meu pai já havia me adiantado que não daria para Ter, porque não tinha dinheiro. Por mim, tudo bem. Meu irmão já havia me prometido uma camisa oficial do Paisandu de aniversário, e isso pra mim já era um bom motivo pra comemorar.
Mas a Luciene parecia muito mais ansiosa pelo dia do meu aniversário do que eu, isso me intrigava. Será que ela ia dizer pra minha mãe que a gente tava namorando? Isso eu não ia perdoar ela nunca.
Nessa época eu ainda pensava que no dia do aniversário da gente era um dia especial, diferente. E acordei naquele trinta de abril acreditando que tudo tava diferente. Minha mãe me acordou, me abraçou, me beijou, me desejou feliz aniversário, colocou meu café na mesa, todos me desejaram feliz aniversário. Eu já estava esperando a camisa novinha do Papão, mas meu irmão nada falou sobre o assunto, meu pai me deu uma nota de cinco cruzeiros e eu fui para o colégio.
Nessa época a gente ainda cantava o hino nacional antes de entrar em sala de aula. Eu, como sempre, me coloquei bem ao lado da Mara, mas como sempre ela nem olhou pro lado, ela cantava forte o hino, isso me impressionava. Era como se aquelas palavras todas fossem dela, como se ela estivesse criando aquilo na hora, de improviso. E eu, como sempre, me atrapalhava todinho na Segunda parte do hino, eu só mexia a boca, isso me encabulava. Mas era dia do meu aniversário, ela tinha que entender. No final do hino a Luciene passou por mim e disse: feliz aniversário, meu amor. Meu amor? Eu rezei pra que ninguém tivesse ouvido aquilo, quase me enterrei. Baixei a cabeça e olhei pra Mara, ela continuava ereta, impassível. Como se estivesse esperando os aplausos pelo seu improviso.
Na hora do recreio, eu saí de sala feito um louco, correndo e tirando a bata do colégio pra pegar lugar no time, a Luciene me barrou a passagem. “eu tenho um presente pra te dar”, ela falou. Eu disse legal, na hora da saída tu me das, mas ela não desistiu, fez eu vestir a bata de novo e foi me levando para trás das salas de aula, eu tentava argumentar, dizer pra ela que todo dia do meu aniversário eu precisava fazer um gol, como um presente pra mim mesmo, sei lá. Mas ela não deu ouvidos, foi me empurrando para perto do muro desabado do colégio e num segundo eu já estava fora da escola, sendo puxado em direção à minha casa. Ela sabia que de manhã só ficava a mamãe em casa, isso eu tinha falado pra ela.
Quando eu entrei em casa, sei lá porque, eu tentei avisar a mamãe que eu tava lá, mas a Luciene não deixou, perguntou onde era o meu quarto e eu disse, então ela falou: me leva lá pra eu te dar o presente. Eu não entendia porque ela não podia me dar aquilo no colégio mesmo, mas levei ela até o meu quarto, eu não sei se eu já disse que a minha casa era de dois andares. Mas era, e lá em cima ficava os nossos quartos. Só eram dois pra nós cinco, os homens em um e as mulheres no outro. Não tinha ninguém no quarto dos homens, só eu e a Luciene que não queria deixar eu comemorar o meu aniversário fazendo um gol. Eu tava puto. Ela fechou a porta bem devagarzinho e falou. O que eu vou te dar eu nunca dei pra ninguém, e tirou a bata do colégio. Caralho! Pulou dois peitões de dentro da farda, que eu só tinha visto em revista, eu me lembro que eu tava encostado na rede, perto da cama. Fiquei Paralisado. Ela veio, esfregou aqueles peitões na minha cara e meteu a língua na minha boca, eu me lembro que dessa vez a língua dela tava quente. Depois ela me deitou na cama e se jogou em cima de mim, eu, estático, sentia umas tremedeiras que eu nuca havia sentido e que me deixavam assustados, mas eu não queria parar, nem queria que ela parasse.
Eu nem me lembro se eu gozei. Acho que devo Ter gozado quando vi os peitões dela, sei lá. Também não me lembro como ela foi embora, nem se eu voltei pro colégio naquele dia, nem se eu fiz algum gol, muito menos se eu ganhei a camisa do Papão.
Mas deus parecia bem menor depois da Luciene.