terça-feira, 19 de agosto de 2008

a arte de conduzir "máquinas"

Dirigir é um exercício sexual. Para estar por trás do volante de um carro é necessário conduzir e nunca apenas dirigir. E conduzir significa nem sempre estar no comando. Eu gosto de carros com câmbio manuais. Carros com câmbio automáticos é como trepar com putas, a gente não precisa fazer esforço nenhum, não precisa se preocupar em fazer ela gozar. A gente já pagou e pronto, só quer chegar aonde a gente quer.
Carros com câmbios manuais, não. É necessário sentir o carro, ouvir o motor, sentir o momento em que ele pede a marcha certa e ganha mais força ou diminuir à medida que queremos ou que somos obrigados.
Laydiane era um desses carros populares 1.0, com motor AP, que mesmo com uma quilometragem respeitada respondia bem quando a gente assava. Nenhuma fórmula mágica, apenas fazia revisão no momento certo e trocava o óleo regularmente. Aditivada então, Laydiane era uma máquina que ganhava qualquer racha.
E eis que chegou o dia em que fui convocado para conduzir Laydiane. Convocado, sim. Pois Laydiane, como a maioria dos carros semi-novos, escolheu o seu condutor. E o teste drive não poderia ter sido em lugar melhor. Um tapete. Estrada tipo high way.
Não vou me envergonha à essa altura em me gabar de dizer que sou um motorista acima da média. Mas por um motivo, que acho que faz a diferença. Antes de ligar o motor tenho que ter na cabeça exatamente o itinerário que tomarei, isso evita muitas surpresas que geralmente os motoristas mais desatentos tem.
Desde o momento em que bebericamos alguns drinks já repassava na minha cabeça os destinos que faria no corpo maduro e cheio de curvas de Laydiane. Quando entramos em sua casa, já senti o peso e as ranhuras da chave do carro em minhas mãos. Mais algumas abastecidas para o tanque ficar cheio e finalmente o volante estava em minhas mãos. É claro que, como um bom condutor de veículos eu segurei o volume de álcool que eu ingeria e deixei para aquela máquina as maiores doses de álcool no motor.

De repente, Laydiane me agarrou a boca e liguei o motor.

Um beijo molhado, quente, doce, exalando um cheiro bom, um cheiro de sexo... o motor roncou bonito. Bastou algumas aceleradas e aquele som melodioso enchia o ar, era música aos ouvidos.
Primeira marcha: desabotoei a blusa e desci minha boca sobre aquele colo cheiroso, enquanto sentia o carro se mover devagar, numa perfeita sintonia de condutor e conduzido. Não foi difícil me livrar do sutiã e mergulhar a boca naqueles seios fartos e firmes.
O motor logo pediu que eu passasse a segunda, e lá se foram minha camisa, a saia, minha calça, a calcinha, minha cueca...
Como o motor era de responsa, quase que imediatamente passei a terceira e acelerei, ela respondeu. O corpo sinuoso exigia atenções especiais do condutor. Comecei a traçar o itinerário que havia pré-estebelecido e pisei fundo.
A quarta exigia ainda mais atenção, pois, apesar da estrada ser um tapete, é sempre bom ficar atento às possíveis surpresas, afinal estava em uma estrada e com o velocímetro que só subia.
Para um condutor é sempre bom também estar atento ao painel do carro, lá estão sinais importantes, códigos que ajudam a interpretar o carro, a maneira que ele está respondendo aos nossos comandos. Apesar do marcador de temperatura estar subindo, tudo estava sob controle, nenhuma luz de alerta. O som estava ligado e o relógio marcava duas da manhã.
Laydiane arfava, era uma loba, uma mulher experiente que sabe buscar prazer e dar prazer a um homem na medida certa. Já estava na quinta, pisando fundo, com o motor respondendo bem. Eu, completamente absorto pela paisagem, pela velocidade, pela estrada que parecia interminável, pelas curvas sinuosas, por aquela cabeleira que voava alto, resolvi diminuir.
Desencaixei nossos corpos e passei a dar um banho de língua em Laydiane, voltei à quarta marcha, tirei o pé do acelerador e deixei o carro deslizar, só ia baixando... até chegar na terceira.
O carro ia deslizando pela estrada. Com um designer projetado para ter a mínima resistência ao ar, o carro ia ganhando aquela imensidão, mergulhando na paisagem, sem atrito, como se tivesse sido fabricado para aquele lugar, para aquela hora, para aquele encontro.
Voltei a exigir do motor. Ainda acelerei bastante e voltei à quinta marcha, até o destino final, sem atropelos, sem atritos maiores, encaixado até estacionar novamente.
Desci do carro como um vencedor. Fiquei imaginando o pódio, o banho de champanha, enquanto estávamos em silêncio, quase ouvia o hino nacional.
Na despedida, após longos beijos no elevador do prédio dela, eu poderia jurar que estive em uma Ferrari, em uma disputa ferrenha. Quando ela me disse com aquela vozinha doce para a gente se encontrar outras vezes, eu sentia que tinha deixado Proust’s, Berguer’s, Shumacher’s e Piquet’s para trás.

Peguei um táxi e falei ao motorista: Apenas dirija!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Diário

Vanessa é nome de mulher gostosa. Gabriela, Carla, Isabela, Rafaela, a maioria que termina com -Ela é gostosa. Érica é nome de mulher meiga. Paula é gostosa. Maria não fede nem cheira, mas às vezes surpreende. Regina varia.

Eu gosto de olhar para cara das pessoas e adivinhar o nome delas, geralmente as pessoas tem o nome grafado no rosto. Mas as mulheres, não. Eu tenho que olhar o corpo todo pra dizer o nome. O nome das mulheres tá no corpo, não tá na cara. Mulher com bunda grande, seios fartos e boca carnuda tem que ter um nome forte, a língua tem que enrolar, dar uma volta e repousar na boca. Tem que ser um exercício sexual, só de chamá-las.

Mas nem todo mundo pensa assim.

Naquela tarde eu tinha que visitar um amigo, no hospital. Ele tinha quebrado as duas pernas quando ia atravessar a rua e caiu num bueiro aberto.
_Nossa cidade anda um caos. Eu disse.
_Um caos anda minha vida, ele disse, Bati o carro na garagem de casa, minha mulher quer me largar, meu filho tá se drogando. E, eu, fui comprar umas flores pra fazer as pazes e olha onde eu tô.
_Deve ser o inferno astral, tentei brincar.
_Inferno astral é o caralho. Todo ano perto do meu aniversário, todo mundo vem com esse papo. Eu quero saber se existe o paraíso astral, porra. Cadê ele?
Pensei em sair naquela mesma hora, mas a entrada da médica me demoveu a vontade.

_Como está hoje, meu paciente?

Uma vozinha rouca, grave, gestos leves, olhar sincero e um sorriso cheio de dentes na boca. Nem ouvi a conversa deles, fiquei olhando a pele dela, tentando dar-lhe um nome, mas o jaleco branco não me deixava ler direito aquele corpo. Assim como ela entrou ela saiu, sem dar conta da minha presença.

_Sabe que eu acho que tu estás no paraíso e não te deste conta.
_Paraíso por que seu babaca? Vem ficar aqui no meu lugar com as duas pernas quebradas e uma puta dor na bacia, tomando remédio feito um filha da puta, pra ver se é bom.
_Desculpa, eu tava tentando brincar.
_Vai brincar com o caralho.

Brincar com o caralho. Foi isso que me deu vontade de fazer. Correr pra casa e brincar com o meu caralho pensando naquela doutora. Encerrei a visita ainda com a imagem daquela deusa. Meu amigo ainda me mandou tomar no cu umas três vezes antes de eu sair, e saí.

Na porta do hospital acendi um cigarro, pra ver se aquele tesão passava. Mas tava difícil.

_Isso ainda vai te matar.
Ouvi aquela mesma voz rouca atrás de mim. Virei rápido. Não deu outra. Era ela, linda, sem o jaleco e ainda toda de branco. A pureza em pessoa.
_Eu vou parar, mas depois de uma puxada dessas, eu preciso de um cigarro.
Era a amiga falando.
_Tens um cigarro pra me dar, a amiga me pediu.
_Sim, claro. Eu respondi.
_Eu não entendo o ser humano. Sabe dos malefícios do cigarro e ainda assim fuma. Aquela voz rouca, linda, falava enquanto eu puxava do maço um cigarro para dar para a amiga.
_É que eles põem muita química. Viciam a gente. Eu disse.
_Mais um motivo pra parar. Vocês sabem que estão sendo usados.
_Mas, pelo menos, eu não fumo aquele da impotência. Falei rindo.

As duas ficaram séria me olhando. Que merda que eu falei. Como é que pude ser tão grosseiro, pensei em pedir desculpas, mas já era tarde. Tinha feito a merda.

_Bom eu vou pegar um táxi, quer uma carona? Falou a doutora pra amiga, me relegando à condição de inutilidade total, me jogando na merda, a mesma merda que eu tirei aquela porra daquela piada grosseira.

_Eu tô de carro, posso dar uma carona pra vocês. Me meti na conversa, de uma maneira muito sem graça. A doutora riu e virou de costas como que procurando um táxi, então pude ver sua bunda e ler o seu nome. E ataquei certeiro:
_Vanessa!
_Como? Ela respondeu.
_É uma brincadeira que tenho comigo, olho no rosto das pessoas e adivinho o nome. Não erro uma.
Ela me olhou por uns segundos, com os olhos meio admirados e devolveu:
_Juliana.

E pegou o táxi.

Juliana é nome de mulher gostosa!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ana Cristina

...Adeus.
Dentro da casa ficou o eco da batida seca da porta. Nenhum outro som se ouvia, nem soluços, nem pragas, nem gemidos, nem ofegância, nem nada. Nada.
O sol se esvaindo desenhava os contornos da janela no chão de taco amarelo. O sofá, a televisão, a mesa de centro, o tapete verde, a mesa com quatro cadeiras, o quadro na parede, a mesinha do telefone, o telefone. Imóveis. Ana Cristina no canto, no chão, olhar parado no nada, cabelos desgrenhados, a vida passando-lhe diante dos olhos. Não era assim. Não era assim que imaginava. Para ela as histórias nunca teriam fim, nunca.
Levantou-se. Andou pela casa, lentamente, como que reconhecendo aquela casa mais-que-conhecida. Nunca lhe ocorrera antes que são preciso doze passos para ir da sala ao quarto, nunca lhe ocorrera que as paredes do corredor estavam marcadas com as mais variadas manchas.
No quarto, a cama. O guarda-roupa com as portas abertas. Muito espaço. Agora havia gavetas livres, o cabideiro, as gavetas de roupas íntimas, a cama por completo, espaço na sapateira, na penteadeira. Olhou o guarda-roupa com estranheza. Precisava comprar roupas novas, pensou.
Voltou a contar os passos. Do quarto ao escritório. Seis. Deteu-se á porta. Olhou com distanciamento as prateleiras de livros, agora semi vazias, quanto espaço. Na parede as marcas de um quadro arrancado às pressas, ela foi até lá. Ficou de pé diante da mancha amarelada. Só então ela percebeu o que dizia o quadro, seus olhos podiam ver com riqueza de detalhes o que havia habitado ali por muitos anos, seus lábios quase sorriram ou lembrar que Cleópatra cercada de homens, morara em sua casa tanto tempo e ela só a reconheceu quando ela se foi. Olhou em volta. Quanto espaço!
Atravessando o corredor chegou ao banheiro, jamais podera crer que ocupava tão pouco lugar por sobre o móvel da pia. Um batom, uma caixinha com lápis de olho, um creme anti-rugas, um hidratante, perfume, sua escova de dentes e a pasta, irritantemente amassada no meio, sentiu falta do desodorante, mas logo em seguida lembrou que o desodorante era partilhado e se fora com a outra metade. O chão do banheiro estava molhado. Enxugou-o, calmamente. Fechou a porta e se dirigiu ao quarto de hóspede, que seria de hóspede até a chegada de seu bebê. Que nunca veio. Ela tinha planos para um filho. Mas o tempo foi passando. Ainda havia coisas que não eram suas para serem retirados de lá. Imaginou o quarto sem aquelas tralhas todas. Quanto espaço sobraria. Sentou na cama, imaginou como seria o quarto do filho e com os lhos inventou uma rápida arrumação, naquele canto ficaria o seu guarda-roupas, o berço seria aqui onde está essa cama, colocaria também sinos de vento, e quase poderia ouvir o som sereno do sino. Ficou lá por algum tempo, sentada na cama, olhos fechados ouvindo os sinos tocarem.
Foi sentindo uma dor no peito. Coisa que nunca havia sentido, nada parecido com as dores que ultimamente sentia. Correu para a cozinha, abriu a geladeira, pegou água, foi ao armário pegou um frasco de remédio, tirou uma pílula pequena e colocou-a sob a sua língua. Tomou a água, com cuidado para não engolir a pílula. A dor não cessara. Foi à sala, abriu a janela e debruçou-se sobre ela. Alguns pingos de chuva tocaram-lhe o rosto, só então percebeu que chovia forte. Com a mudança dos ventos os pingos lhe alcançaram com maior intensidade, fechou os olhos, queria preencher aquele vazio com a água que caía do céu. Lembrou de seus banhos de chuva na infância e da gripe que sempre chegara após as delícias da chuva.
Entrou. Deixou a janela aberta. Pela primeira vez não se preocupou com a chuva molhando o tapeta da sala. Sentou no sofá. Lembrou-se de chorar, mas a vontade não vinha. achou que devia emagrecer mais um pouco, achou que deveria pintar o cabelo, achou que deveria comprar aquele vestido que há meses ensaiava sua compra, achou que a estampa do sofá não a agradava tanto, nem o tapete, tão pouco a mesa de centro.
Decidiu que amanhã voltaria a fumar.