segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ana Cristina

...Adeus.
Dentro da casa ficou o eco da batida seca da porta. Nenhum outro som se ouvia, nem soluços, nem pragas, nem gemidos, nem ofegância, nem nada. Nada.
O sol se esvaindo desenhava os contornos da janela no chão de taco amarelo. O sofá, a televisão, a mesa de centro, o tapete verde, a mesa com quatro cadeiras, o quadro na parede, a mesinha do telefone, o telefone. Imóveis. Ana Cristina no canto, no chão, olhar parado no nada, cabelos desgrenhados, a vida passando-lhe diante dos olhos. Não era assim. Não era assim que imaginava. Para ela as histórias nunca teriam fim, nunca.
Levantou-se. Andou pela casa, lentamente, como que reconhecendo aquela casa mais-que-conhecida. Nunca lhe ocorrera antes que são preciso doze passos para ir da sala ao quarto, nunca lhe ocorrera que as paredes do corredor estavam marcadas com as mais variadas manchas.
No quarto, a cama. O guarda-roupa com as portas abertas. Muito espaço. Agora havia gavetas livres, o cabideiro, as gavetas de roupas íntimas, a cama por completo, espaço na sapateira, na penteadeira. Olhou o guarda-roupa com estranheza. Precisava comprar roupas novas, pensou.
Voltou a contar os passos. Do quarto ao escritório. Seis. Deteu-se á porta. Olhou com distanciamento as prateleiras de livros, agora semi vazias, quanto espaço. Na parede as marcas de um quadro arrancado às pressas, ela foi até lá. Ficou de pé diante da mancha amarelada. Só então ela percebeu o que dizia o quadro, seus olhos podiam ver com riqueza de detalhes o que havia habitado ali por muitos anos, seus lábios quase sorriram ou lembrar que Cleópatra cercada de homens, morara em sua casa tanto tempo e ela só a reconheceu quando ela se foi. Olhou em volta. Quanto espaço!
Atravessando o corredor chegou ao banheiro, jamais podera crer que ocupava tão pouco lugar por sobre o móvel da pia. Um batom, uma caixinha com lápis de olho, um creme anti-rugas, um hidratante, perfume, sua escova de dentes e a pasta, irritantemente amassada no meio, sentiu falta do desodorante, mas logo em seguida lembrou que o desodorante era partilhado e se fora com a outra metade. O chão do banheiro estava molhado. Enxugou-o, calmamente. Fechou a porta e se dirigiu ao quarto de hóspede, que seria de hóspede até a chegada de seu bebê. Que nunca veio. Ela tinha planos para um filho. Mas o tempo foi passando. Ainda havia coisas que não eram suas para serem retirados de lá. Imaginou o quarto sem aquelas tralhas todas. Quanto espaço sobraria. Sentou na cama, imaginou como seria o quarto do filho e com os lhos inventou uma rápida arrumação, naquele canto ficaria o seu guarda-roupas, o berço seria aqui onde está essa cama, colocaria também sinos de vento, e quase poderia ouvir o som sereno do sino. Ficou lá por algum tempo, sentada na cama, olhos fechados ouvindo os sinos tocarem.
Foi sentindo uma dor no peito. Coisa que nunca havia sentido, nada parecido com as dores que ultimamente sentia. Correu para a cozinha, abriu a geladeira, pegou água, foi ao armário pegou um frasco de remédio, tirou uma pílula pequena e colocou-a sob a sua língua. Tomou a água, com cuidado para não engolir a pílula. A dor não cessara. Foi à sala, abriu a janela e debruçou-se sobre ela. Alguns pingos de chuva tocaram-lhe o rosto, só então percebeu que chovia forte. Com a mudança dos ventos os pingos lhe alcançaram com maior intensidade, fechou os olhos, queria preencher aquele vazio com a água que caía do céu. Lembrou de seus banhos de chuva na infância e da gripe que sempre chegara após as delícias da chuva.
Entrou. Deixou a janela aberta. Pela primeira vez não se preocupou com a chuva molhando o tapeta da sala. Sentou no sofá. Lembrou-se de chorar, mas a vontade não vinha. achou que devia emagrecer mais um pouco, achou que deveria pintar o cabelo, achou que deveria comprar aquele vestido que há meses ensaiava sua compra, achou que a estampa do sofá não a agradava tanto, nem o tapete, tão pouco a mesa de centro.
Decidiu que amanhã voltaria a fumar.

2 comentários:

J.BOSCO disse...

O monólogo da solidão de Ana Cristina...rs!
excelente Barrosão!!!
abs

Lázaro disse...

Bem, se falas da Ana Cristina, escritora carioca, digo, igualmente poetisa de mão cheia que preferiu não ficar neste plano, digo. Não foi à toa que ela precocemente deixou esta vida. Os abismos da escuridão e a incapacidade de viver com as discrepâncias abateram suas resistências e assim se foi a mais precoce voz das narrativas poéticas densas, com muito a dizer e emocionar. Hermética para muitos e poucos... Não conhecia esse texto fantástico sobre as desilusões amorosas, partidas acachapantes. Valeu Dom Barroso!. Fiquei pensativo sobre tudo que deixamos de ver, fazer, perceber e outras coisas a fazer, quando cegamos para o resto. Por isso os gênios são imbecis!