sábado, 27 de setembro de 2008

Esse é um país que vai pra frente!

Saí do cinema enojado. Meio raivoso. As imagens de presos políticos sendo torturados estavam vivas em minha frente. Como o nosso país pode ser tão cruel ? um povo tão simpático não merecia ser tratado com tamanha brutalidade. O Brasil é uma merda! Um país de poucas oportunidades, não foi somente na ditadura militar que se sofreu desse jeito. Ainda hoje centenas de pessoas são relegadas a viver em condições desumanas por pura falta de compromisso desses porras.

Àquela época o governo não escondia sua covardia, hoje em dia é tudo maquiado. Nem sei o que é pior. O Brasil é um país de merda! A democracia é uma mentira!!

Andava pela calçada com a cara meio fechada, com raiva mesmo. Nem sei porque entrei naquele cinema, eu tava tão bem e agora... o lance é tomar uma cerveja no primeiro bar que aparecer.

Entrei naquele bar só porque estava seco por uma cervejinha. Não era a minha cara, nada naquele bar me fazia sentir à vontade. Cheio de patricinhas e playboizinhos querendo parecer populares uns para os outros. Muita gente gritando e muita gente gesticulando. Isso me deixa tonto. Chamei o garçom e pedi uma cerveja, assim de cabeça baixa, enquanto o filme voltava á minha memória.

Tomei o primeiro gole de cerveja no gargalo mesmo. Era uma daquelas garrafinhas, que os mais plays chamam de long neck, ou coisa parecida. Fico puto com esses estrangeirismo na nossa língua, mas o Brasil é um país que não se preza. Ninguém quer saber da nossa língua. Tem que ter um certo limite pra esses gringos no nosso país, não sou nacionalista, quero mais é que o país se foda. Ainda mais sabendo que a tortura ainda é um expediente muito utilizado ns nossas delegacias.

Na descida do gole, dei de cara com a única coisa que poderia me tirar daquela fossa. Horas depois a coisa ganhou um nome: Zilá.


Zilá era uma daquelas mulheres que se pode chamar de gostosa. Cabelos leves, olhos amendoados, boca carnuda, pele lisa e branca, quadris largo, bundão e batatas das pernas grossas. De família rica, estudada – falava três idiomas – viajava para onde quisesse, na hora em que quisesse, não precisava trabalhar e podia comer quem quisesse, na hora em que quisesse, e na falta do que fazer... sofria de depressão.

Quando estava de bem com a vida, era a figura mais interessante que se podia ter ao lado. Descolada, louca, dançava como ninguém e bebia até perfume se alguém desse sopa, no meio da noitada.

Mas quando estava deprimida poderia levar um para o buraco. Não o dela, mas aquele mesmo há sete palmos debaixo do chão.

Informações tão precisas foram dadas a mim pelo garçom, após a oitava dessas cervejinhas ridículas. Ficamos quase íntimos quando perguntei por Zilá.
Habitué do bar, o garçom conhecia ela talvez mais do que o seu próprio pai.

Naquele dia Zilá estava de bem com a vida. Sem fazer esforço, a loiraça era a própria dona da festa. Mais popular que ela, ninguém se atrevia, pelo menos naquela noite. Bebia vodka como quem bebia água. O bar inteiro parecia ser a extensão de sua casa tamanha era a intimidade que tinha com absolutamente todos os que estavam no bar.

Menos eu, um total estranho no ninho.

Estranho para mim, estranho para ela também. Parecia que houve uma certa indignação por parte de Zilá de eu estar em sua sala de estar, sem conhecê-la. Mais umas doses de vodka e ela sentou em minha mesa, disposta a se apresentar e pedir satisfações.

Respondi a todo o questionário, e ,parece, passei com louvores, falei do filme, falei do país, falei de um monte de coisas. Depois me lembrei de um velho ensinamento: com mulher você tem que ouvir mais do que falar. Elas adoram esses caras que são bons ouvintes, e calei. Ela falou. Falou e falou. E falou tanto que o bar foi ficando meio vazio, assim, sem o consentimento dela. Quando ela se percebeu, foi dar o troco. Me pegou pelo braço e falou: gostei de ti, vamos sair daqui.


No espelho do motel eu via minha canela magra ao lado daquele coxão roliço. Enquanto eu bombava aquela bunda lisa e branca eu pensava: como o Brasil é um país de oportunidades! Como é bom viver em um lugar em que um magricelas, preto, pobre, pode comer uma loiraça gostosa e cheia da grana. Eu adoro meu país.

Quando ela colocou a metade do meu pau naquela boca vermelha eu quase me senti culpado, eu quase chorei de emoção. Porra o Brasil é um país genial. A democracia é do caralho! Do caralho!