quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Bola na área

É nas primeiras incursões nas quatro linhas que se aprende que um homem de área tem que ser catimbeiro. Se quiser ter uma carreira longa e ser respeitado, um homem de área precisa sempre estar bem colocado, ter jogo de cintura e coragem para encarar os mais monstruosos zagueiros. Claro que a inteligência é um atributo que é necessário sempre, aonde quer que se esteja.

O Bar da Vala era um lugar pra caçar. Dito cult por alguns, mesmo depois de ter saneado a vala que o nomeara, continuou carregando o status duvidoso de ser um bar descontraído, para “descolados” (sabe-se lá o que isso queria dizer), mas o fato é que muita gente ia para lá para ver e ser visto, e claro, arranjar parceiros.

O futebol bem que poderia ser uma matéria ensinado em sala de aula. É lá, no futebol, que tu podes entender um pouco sobre estratégias. E também sobre companheirismo. Saber se colocar na área é tão importante quanto saber se colocar em um bar. É meio caminho andando para que a caça seja farta. É necessário sentar sempre em uma cadeira que lhe permita ter uma visão panorâmica do lugar, para que nada, nada fuja ao seu controle. Quem entra em campo achando que já ganhou, geralmente se dá mal. O importante é se manter atento para atacar sem abrir a guarda para um eventual contra-ataque, e se colocar bem na área.

O adversário também é importante. Jogar contra time ruim não dá emoção. Uma partida é tanto mais emocionante quanto melhor for a qualidade do adversário. Uma partida que termina em 10 a 0, não é mais emocionante que o gol da vitória aos 45 do segundo tempo.

Assim como no futebol atuar em equipe não é tão simples.

Naquela noite sai para encontrar um velho parceiro de farra. Atacante também. E esse é o perigo de se jogar com dois homens de área, o time fica mais ofensivo, mas às vezes falta espaço, e foi o que aconteceu. Como me atrasei, já encontrei o cara sentado na melhor mesa, e na melhor cadeira. Era um prenúncio que marcar um gol naquela partida não seria fácil. Mas também não sou de desistir.

“Para um atacante não pode existir bola perdida”, foram as palavras mais sábias que Seu Zuzu, meu técnico nas divisões de base do Paysandu, me ensinou e que levo para a vida inteira. “Um atacante não pode entrar em campo e deixar o placar em branco. Tem que lutar, ter garra, demonstrar vontade e prazer de estar em campo. Vale tudo, o importante é o gol. Gol de canela vale tanto quanto um gol de bicicleta”, ele continuava a preleção. O mesmo texto por anos. Jogo após jogo.

Sentei visivelmente contrariado para ouvir de cara as regras do jogo. “hoje tu vais cair um pouco mais pela esquerda”, o parceiro me disse. Caímos na gargalhada.

O papo ia bem quando entrou no bar Roberta e Ana Flávia. Roberta era uma moreninha tipo índia de parar o estádio. Ela também só jogava no ataque. Lábios carnudos, olhos amendoados, sobrancelhas grossas emoldurando um olhar maroto, cabelos lisos, com franjinha que ao balançar deixava transparecer escrito em sua testa: “Me coma!”. Ana Flávia era gorda.

Sentaram-se em uma mesa próxima, e pelo que pareceu, já chegaram no 2x5x3, esquema quase suicida.


Mas eu estava mal colocado na área. Roberta chegou esbanjando charme e jogando bola pro frente. Colocamos nosso time em campo e o parceiro pegou o flerte. Bola pra lá, bola pra cá, Ainda tentei tirar o cara da jogada com um escorão, mas há um acordo tácito entre os atacantes: cada um tem o seu pedaço da grande área. Joga em equipe não é fácil. O importante é não deixar o placar em branco, já dizia o Seu Zuzu. Deixei o parceiro jogando solto, enquanto procurava uma bola perdida para tentar um chute de fora da área.

Mais algumas cervejas e parecia mesmo que o gol estava amadurecendo, para ele, claro. Para mim, nada de bola espirrada. Enganando a linha de impedimento, o parceiro lançou a bola para ele mesmo e pegou na frente: foi encontrar com Roberta enquanto ela ia pedir uma música no balcão. Eu desci para o meio de campo. Fui ao banheiro.

Me espantei com a entrada do parceiro: “É seguinte, a Roberta ta afim, mas não vai deixar a amiga na mão. Rola?”

Eu olhei para o jato de minha própria urina, depois fiquei buscando um ponto qualquer na parede, voltei àquele vestiário fétido do Paysandu, enquanto calçava o meião e ouvia a preleção de Seu Zuzu.

Respirei fundo, levantei o meião, apertei o nó da chuteira e subi a escadaria do túnel: hoje rola!

Vou deixar placar em branco?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A secretária do chefe

Melhor do que comer a mulher do chefe é comer a secretária do chefe. Claro, desde que seja gostosa. Comer a mulher do chefe pode colocar em risco a sua própria vida, mas comer a secretária, não, é status, respeito, é como se você tivesse se servindo na cozinha da casa dele, abrindo a geladeira e sentando só de cueca no sofá. Não há nada melhor para atingir o chefe do que comer sua secretária, é uma desmoralização para o resto da vida, tem gosto de sexo, mas também tem gosto de vingança, de humilhação, de plenitude. É a vingança dos proletariados.

Inês não fugia á regra das secretárias brasileiras, morena, cabelo liso, escorrido até os ombros, boca carnuda, nariz afilado, olhos meio agateados e um corpo esculpido com esmero, entre ela e o bagulhão da mulher do chefe havia um verdadeiro grande cânion.

O chefe também não fugia à regra dos patrões brasileiros. Era um cara que tinha a instrução básica, tinha ganho o cargo à custa de muito puxa saquismo, e tinha um humor feroz. Aliás foi colocado naquele cargo exatamente para não deixar ninguém trabalhar com prazer. Não dava bom dia, não reunia com os funcionários, não deixava sua mesa nem para desejar feliz natal.

Um funcionário só entrava no aquariozinho em que ele vivia para ser humilhado. Somente a dona Inês entrava no aquário dele incólume. Por razões óbvias. Mas para nós, reles mortais, a cena era sempre a mesma. Para entrar no aquário do chefe, todos tinham que passar pela saleta de dona Inês, a pergunta era sempre a mesma: “Como ele está hoje”, e a resposta não era diferente: “Com a macaca”, o pobre infeliz voltava da sala do chefe destroçado.

Para assumir a cadeira de chefe também é importante alguns truques. Na mesa, há sempre alguns papeis espalhados, um lap top que ele navega ao léu ao falar com os funcionários, jornais do dia e um telefone. À frente de sua mesa é preciso colocar duas cadeiras estrategicamente desconfortáveis, assim, quando o pobre infeliz for chamado para sentar na cadeira vai perceber que aquilo ali não é o seu lugar e a cada esporro, vai diminuindo.

Ah, importante também: um chefe nunca, nunca olha nos olhos do funcionário, a não ser em pé, para deixar claro a hierarquia.

Depois de muitos meses chegou a minha vez de entrar no aquário com o tubarão. Passei pela sala de dona Inês e não fiz pergunta alguma. Enquanto rolava o chá de cadeira, puxei o jornal e fiquei lendo animadamente. Tudo truque. Meu cu estava apertadíssimo. Mas, mais valia fazer o tipo na frente de dona Inês do que tentar amaciar o chefe. Enquanto passava os olhos nas figuras do jornal eu ficava tentando experimentar uma cara para sair de lá depois da mijada demonstrando para dona Inês que eu não tinha medo de perder o meu emprego.

Mulher bonita não gosta de muito respeito. Se um homem a olhar como quem olha para uma pessoa qualquer, elas se ofendem. Elas precisam ser olhadas com olhos de fome para comentar depois com as amigas num tom de reprimenda: “Aquele cara é um porco. Ele me olha como se tivesse tirando a minha roupa”. É o jeito delas gozarem também.

Usei com a dona Inês a velha estratégia do “Não me interesso”.

Quando entrei na sala do chefe, a cena era igual a de todos os esporros. Ele ali, de cabeça baixa, balançando a caneta por entre os dedos, mandou eu sentar e ficou alguns segundos calado, terminando de olhar o jornal. Na verdade também faz parte da estratégia dele, o silêncio cria um suspense e instala o terror no pobre coitado que tenta se segurar na cadeira escorregadia.

Quando abriu a boca, o chefe começou a grunir coisas incompreensíveis e monocórdias. Era uma mijada, com certeza. Eu nunca sei aonde colar meus olhos numa hora dessas, não sei se baixo a vista e deixo ele gozar com minha covardia, ou se o encaro, mostrando que não tenho medo. Ele grunindo e eu no ahan, foi o que consegui fazer, enquanto amargava o insucesso de querer parecer intocável.

Na saída, dona Inês estava em pé, me esperando. ‘e aí?’, ela perguntou. Eu tentando o meu sorriso tranqüilo, respondi “o de sempre, ele só queria provar que era chefe me mostrando o quanto sou incapaz”. Ela sorriu, e aí tudo se iluminou. Aquela boca cheia de dentes parecia ter luz própria, quase eu derrapo e tiro a roupa dela com o meu olhar, mas me controlei. “è isso”, eu disse. “Tenha um bom dia, dona Inês”, passei por ela segurando o meu olhar.

Meses depois foi a vez de dona Inês experimentar o terror do aquário. Dava para ouvir de longe o esporro, sabe-se que era por causa de uma correspondência sumida. O patrão comeu o cu do meu chefe e o chefe precisava comer o cu de alguém. É a vida.

Mas dona Inês não estava preparada para essa dura realidade, acostumada com os cortejos, não agüentou os impropérios e desatou a chorar na copa, e na minha frente, santa hora do cafezinho.

Quando um homem que quer comer uma mulher a encontra fragilizada, é preciso ter tato, senão joga tudo a perder. O melhor caminho é sempre ser somente um bom ouvido, nada de querer dar conselhos, ou usar frases feitas como “você é maior que isso”, não. O lance é se mostrar solidário, até chegar àquela hora dela se jogar nos teus braços em busca de acolhimento.

Dona Inês chorava de soluçar, e eu, absolutamente encantado com aqueles pares de seios que pululavam dentro do decote a cada soluço. O nariz dela escorrendo e eu só via aquela boquinha linda, falando indignações e xingando até a oitava geração do chefe. A bolsa dos olhos já levemente inchada e finalmente jogo o primeiro valete na mesa.

“a senhora vai me perdoar, mas até chorando a senhora é linda”. Usei uma tática arriscada, a de tentar desviar o assunto para acabar com aquela porra de chororôrô chato. Ela tomou um susto. E disse, ainda indignada: “Eu aqui sofrendo, e o senhor vem com papo furado”, isso era bom, o importante é desequilibrar, a fúria é mais fácil de controlar do que o sangue frio.

“não me entenda errado. Sou solidário a sua dor. Mas para quê prolongar o infortúnio? O importante é virar o jogo. Sentir dor é o que o chefe quer que você sinta, mas se você der a volta por cima, vai devolver o câncer para ele”.

Ela calou. Isso era bom. Ficou olhando para o vazio, tentando raciocinar as coisas sem sentidos que acabava de falar. Aí, voltei a blefar, descartei o rei de ouro para pegar a dama de copas.

Dei as costas e fui me servir de mais café. Ela foi para a água. Bebeu de um gole só um copo inteiro de água, balançou aquele cabelo lindo, limpou os olhos e descartou: “você tem razão”. “obrigado pelo esforço de me compreender”, eu disse pegando o descarte dela. “você é um cara legal, pena a gente não ter tido tempo de conversar outras vezes”. Aí bati o jogo. “quer saber. Hoje deve ser um dia de transgressões. O que tu achas de fugir e fazer um dia diferente?”, “grande idéia”.

Nunca mais o chefe me olhou com desprezo. Agora eu tenho respeito daquele filho da puta.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A princesinha estava morta

Metrônomo é um instrumento que serve para regular os andamentos musicais. Apesar de nem toda música se prezar, ele é utilizado em todos os estúdios de gravações, é por obra e graça da marcação do metrônomo que o músico não perde o compasso e pode levar o andamento da música até o final.

“Que horas são?”, eu perguntei. “Quase quatro”, ela disse, limpando o suor do rosto. A porra da música alta, e ela não parava de dançar. Eu já estava pregado. Pedi um tempo e fui ao balcão pedir mais uma cerveja. De lá dava pra ver, vez ou outra, a cabeça dela, pulando no meio de uma multidão, acompanhando o bate-estaca da música que parecia ser sempre a mesma, sem variações, somente sons incidentais e o mesmo ritmo e andamento. Detesto música eletrônica e seus DJ’s com roupa extravagante e sorriso besta na cara, óculos escuro em plena noite e cabelo colorido. Odeio os seus gestos de “tô doidão” e o balanço mecânico do corpo. Não sou daqui, eu pensava. Mas o que não se faz por uma buceta.

Magaly era uma típica princesinha da noite. Popularíssima aonde quer que fosse, gente boa, risonha e bom papo, sempre animada, acompanhar o seu ritmo não era fácil. Já tinha esbarrado com ela em vários bares pela cidade, mas nunca fiquei tão perto. Magaly gostava mesmo era de meninas. Essa porra dessa moda de mulher com mulher, e o pior é que a grande maioria não quer um homem por perto. Realizar as fantasias sexuais no mundo de hoje, não está fácil. Como a gente involuiu. Viva os gregos.

Mas pelo que parecia, naquela noite, Magaly queria realizar minhas fantasias. Entre as desvantagens de Magaly tinha a necessidade de ser sempre vista como a descolada, sem amarras, medos ou preconceitos, mas na intimidade, eu sabia, ela era outra coisa, insegura, instável e deprimida às vezes. Mas como meus motivos em sair com ela passava longe da nobreza de estudá-la, pouco me importava seus problemas, só pensava mesmo era nas vantagens.

“E aí, cansou?”, ela disse me agarrando por trás. Virei e ficamos frente a frente, nem pensei duas vezes, tasquei-lhe um beijo na boca. Era o nosso primeiro beijo naquela noite. Meu investimento já contava com mais de seis horas e quase duzentos reais entre táxi e uísques, já que era eu quem estava bancando tudo.

Valia a pena. Magaly era uma mulher de capa de revista. Loira falsa, um corpo escultural, roupinha transadíssima, sorriso com covinhas e gestos largos. Mas gostava de mulher e eu era o primeiro homem que eu tinha notícia que saía com ela. Ser visto ao lado dela valia os reais que estavam indo. E mais, coloca-la no topo do currículo ainda era uma batalha a superar naquela noite. Pelo compasso dos amassos, já estava chegando perto do gran finale.

Pelo beijo de Magaly dava para antever aquela mulher na cama. Era só ter calma e mais alguns reais para outras doses.

Mais meia hora de papo e lá estávamos nós na rua, esperando um táxi na frente do bar.

Nem perguntei, dei as coordenadas para o motorista e lá fomos nós a caminho do motel mais próximo, escolhido exatamente por ser o mais próximo, uma vez que o taxímetro de Magaly era sempre bandeira 2. A última parte do trajeto fizemos num longo beijo. Pedi um apartamento e entramos no quarto às gargalhadas.

Mas foi só trancar a porta atrás de mim que Magaly mudou totalmente de figura.

Deitou-se na cama de peito para cima e ficou mirando o espelho do teto. Eu animado, e ainda sem perceber o que se passava, deitei sobre ela e colamos em mais beijos. Tirei-lhe a blusa, me deliciei naqueles seios lindos e fartos, desabotoei a saia, deslizei a língua por aquela barriga lisa, desci a calcinha e mergulhei naquele mar de maravilhas, totalmente ensopada.


Enquanto sorvia aquelas delícias, eu, de joelhos ao pé da cama, dava um jeito de me livrar do tênis, da calça e da cueca, sem parar de me lambuzar naquela gruta molhada. Quando consegui, subi de novo para outro beijo, foi quando eu constatei:

A princesinha estava morta.

“com tudo que sei acendi uma vela, abri a janela e pasmei../ alguns edifícios explodiam/ pessoas corriam, eu disse bom dia/ ignorei...”

Da mesma maneira que deitou na cama, ela permanecia. Os olhos grudados no espelho do teto. Achei que fosse uma tara. Vesti a camisinha e fui entrando sem pedir licença, mas devagar. Ela então deu sinal de vida deixando o ar escapar por entre os dentes.

Com um gemido estranho e compassado, ela acompanhava as estocadas começando a marcar o tempo simétrico da trepada com um hum-hum que parecia base de uma música lenta qualquer. Me senti em um estúdio de gravação com o metrônomo se movendo à minha frente.

Dependendo de meus movimentos naquele papai-e-mamãe necrófilo ela mudava o ritmo. Começou a ficar interessante. Enquanto ela revirava os olhos na direção do teto eu trocava a melodia. “quero ouvir um bolero agora”, eu pensava, e passava a fazer movimentos circulares, seguidos de estocadas mais forte, e ela respondia com os huns-huns boleriando o seu tesão na cama.

“vamos voltar a bossa nova”, e lá ia ela. “agora um pagodinho suingado”, o hum-hum-hum vinha junto.

Ela gozou no forrozinho, e eu quase eu grito: “Luís respeita Januário, moleque!”. Ela se recuperou na MPB e seguiu para um breguinha, passamos pelo calipso, cumbia e gozamos juntos no batecum da música eletrônica.

Virei para o lado, ela se refez, levantou aquele corpinho lindo e ressureito vestiu a roupa e me abraçou bem apertado.

Eu hoje me embriagando de uísque com guaraná, dei pra lembrar de Magaly,... são dois pra lá, dois pra cá.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A Gargalhada de deus.

Durante muito tempo eu duvidei. De quase tudo. De tudo.
Então duvidei de minha mãe, do meu pai, das namoradas, do lateral direito do botafogo, se homem havia mesmo chegado à lua e de deus. Sempre.
Fervorosamente, eu duvidei de deus. Mas chega um tempo em que é preciso ter certezas também. E assim eu hoje posso afirmar com absoluta certeza que deus existe.

O problema é o seu senso de humor. Também, se metade da bíblia for verdade, a vida de deus deve ser um saco, e – segundo a minha mãe diz- como cabeça vazia é o playgroud do diabo, Ele deve passar o seu tempo maquinando pequenas sacanagens com o seu pequeno laboratório de gentes que é o mundo.

Deus existe. E tem humores. E se diverte sacaneando os outros.

Carmem foi a mulher mais interessante que eu já encontrei na minha vida. Não era mulher para uma noite somente, era mulher pra viver junto. Para sonhar junto. Para cuidar e ser cuidado. Para dividir, partilhar, multiplicar, doar-se. A única mulher que me fez arriscar uns poeminhas. Olha só aonde eu fui parar: cometendo poemas.

Mas, exatamente no momento em que eu me preparava para experimentar “conjugar o verbo amar”, deus resolveu me dar provas de sua existência. Mais ainda, Ele resolveu me dar provas de seu senso de humor.

Aquela noite já era a sexagésima sexta noite de seca total. Não chovia na minha horta. Nada dava certo, nem as cantadas mais canalhas nem as mais elaboradas, nem as flores, nem os telefonemas sacanas. Tava uma situação séria. Tão séria que na falta do que fazer, fui ao teatro.

Não gosto de teatro. Não gosto de atores gritando no meu ouvindo e se cuspindo em cena e ainda mais querendo que eu pense! Porra, já não basta pagar o ingresso e ainda tenho que pensar? Já é demais. E como alguém pode pensar com outro alguém gritando feito louco, tufando a veia e olhando pra tua cara com cara de raiva?

Mas queria sofrer. Fui ao teatro. Mas foi exatamente lá, na fila do teatro, que o mundo se fez à minha frente.

Encabeçando a fila estava A mulher. A mais bela, a mais adorada. Impaciente, ela olhava para trás a toda revelando aquele rosto angelical emoldurado com o negror de cabelos lisos que iam até um pouco a baixo da orelha. Olhos negros ressaltados por sobrancelhas igualmente negras e equivalentes. Perfeitamente equivalentes. O nariz afilado ajudava a compor um rosto claro, sem nenhuma marca, mais perfeito que muito photoshop por aí. A boca era uma atração à parte. Lábios nem grossos, nem finos cuidadosamente pintados de vermelhos. Na medida certa. Que dava àquele rosto um matiz de pintura renascentista.

Já tinha visto aquele rosto em algum lugar.

O espetáculo se propunha a ser diferente. Dois atores somente em um palco tipo arena. Quando as portas se abriram procurei o meu lugar, e qual foi minha surpresa quando levantei a cabeça e percebi que havia sentado bem em frente àquela musa. Enquanto as luzes se apagavam eu a olhei bem no fundo dos olhos negros. Ela retribuiu com desdém.
Como minha auto-estima estava baixa mesmo resolvi assistir ao espetáculo. Mas era o que pensei. Na terceira frase o meu ouvido já estava doendo, e quando menos percebi estava de novo mergulhado naquele rosto.

Na metade do espetáculo Deus sorriu. Ela passou a retribuir o olhar, dessa com vez mais charme, com mais aceitação. Estava adorando aquele espetáculo. E foi assim até o final. Ficamos um no olho do outro. Deus se fazia presente, com toda a sua força na minha vida.

Não resisti. Assim que acabou o espetáculo, atravessei o palco, com os atores ainda recebendo os cumprimentos e disse a ela:
_ Estás me devendo um espetáculo.
_ Por quê?, ela respondeu.
_ Não consegui desgrudar o olho de ti.
_ Eu percebi.
_ Me dá o teu telefone?
Mandei assim, de cara, sem medo de errar. E, para minha surpresa, ela respondeu:
_ É melhor tu me dares o teu.

Era a melhor resposta que um homem como eu poderia arrancar de uma mulher como ela. Saí do teatro nas nuvens. Ela se perdeu no meio da pequena multidão que ia cumprimentar os atores. Eu já havia ganho o dia e fui pra casa.

Quantos dias se sucederam até o meu telefone tocar? Nem sei dizer. Os dias ora se arrastavam, ora voavam. Não fazia mais nada a não ser olhar para o celular. Fiquei dependente total. Dormia e acordava com o celular ao lado. Mas finalmente ele tocou. E era ela.

Somente por telefone falamos cerca de duas semanas até o nosso primeiro encontro. Me sentia um adolescente... um bobo... um amante. Sonhava com ela. Tinha a impressão de que ela estava vendo meus atos nas ruas, no trabalho, no meu apartamento. Decorei falas para dizer e impressionar.

Nosso primeiro encontro foi em um final de tarde. Levei-a para um bar com piano e boa bebida. Enquanto ela falava, eu só conseguia ver a boca se movendo, era um sonho. Ela mexia no cabelo, ela se virava, ela me contava de sua vida, encostava a boca no copo de vinho e me olhava enquanto sorvia o néctar dos deuses.

Foi lá que ela me disse que estava em meio a um casamento fracassado, mas que não queria ferir ninguém, por isso hesitou em telefonar. Que só aceitou sair comigo porque eu era um cara que sabia ouvir e sabia o que falar na hora certa.

Eu me sentia totalmente estranho. Ao seu lado eu não salivava como sempre, eu só sentia o coração palpitar, disparado. No nosso primeiro beijo, eu senti frio na barriga, porra, eu senti frio na barriga! Estava provando da babaquice que é o amor. “Deus, o senhor é bom para mim!”, eu pensava.

Saímos do bar e fomos andar no centro velho da cidade. Assim, de mãos dadas, rindo feito dois idiotas maconheiros. Eu estava nas nuvens. Depois que cansamos, que comemos cachorro-quente na esquina, eu fui deixá-la na esquina de sua casa. Nos despedimos só com olhares, para não dar o que falar. Eu senti vontade de descer do carro e correr pela cidade, como fazia quando era criança. E eu era de novo criança. Deus é bom! Deus é pai!.

Mas deus tem humores.

Por duas semanas nos encontramos todos os dias, todos os fins de tarde. Ia buscá-la na saída do trabalho e íamos ver o rio, trocando beijos. Não, não pensava em sexo. Queria que isso acontecesse naturalmente, no momento certo. Na hora certa.

E aconteceu.

Naquele dia, tínhamos combinado de passar a tarde juntos. Nenhum compromisso poderia nos separar. E foi assim. Às duas da tarde estávamos entrando em um motel, como ela sugeriu, após se negar em ir ao meu apartamento.

Tudo estava perfeito. Ela, o seu perfume, o seu vestido, o seu cabelo, os seus olhos, o seu arfar. Mal entramos no quarto e já nos grudamos em um beijo ardente. A sua língua percorrendo a minha boca, as minhas mãos percorrendo as suas costas. Ela arrancou minha blusa e eu o seu vestido. Me livrei da calça e do sapato, enquanto olhava aquele corpo branco deitado nas cobertas vermelhas da cama redonda.

Fui devagar. Provando cada pedaço do seu corpo com a minha língua. Quando tirei carinhosamente a calcinha, subiu um delicioso odor de mulher no cio. Subi em seu corpo para um beijo longo. Segurei o seu rosto entre minhas mãos e olhei fixamente em seus olhos, me lembrei da onde eu conhecia aquele rosto. Ela era a cara da Juliet Binoche no filme “A Liberdade é Azul”. Porra, morria de tesão pela Juliete Binoche. Vi esse filme uma centena de vezes só por causa dela. E, de repente eu estava na cama com a Juliete, sensacional.

Talvez isso também tenha sido demais para mim, e o que nunca havia acontecido, aconteceu. Brochei.

Cheguei mesmo a ouvir as gargalhadas de deus nessa hora.

Ainda tentei ficar mais algum tempo nas preliminares, enquanto ela gemia: vem! vem!, e eu pensava: como? como?

Ela tomou posse da situação e veio para cima de mim. Colocou o meu pau na boca, e ele, finalmente, deu o ar da graça. Imediatamente reassumi o comando e quando ia penetrar, ela faliu: a camisinha. Não esquece a camisinha.

Como eu ia colocar a camisinha em um pau meiote?

Parei. Peguei a camisinha no console da cama e vesti o bicho de tal maneira que parecia mais uma trouxa de roupa suja. Não deu certo. Desisti. Queria propôs ficarmos apenas nas preliminares, mas não tive coragem. Não tive coragem também de dizer o que estava acontecendo. Joguei a camisinha pro lado e tentei enrolar.

Ela, insatisfeita e achando que eu havia colocado a camisinha, voltou a pular sobre mim e, assim, meiote, a penetrei. Três cavalgadas sobre mim foram o suficiente para o coitado sair de dentro. Quando ela pegou nele para colocá-lo novamente percebeu que estava sem camisinha e aí o negócio pegou.

_ Estas sem camisinha?, ela disse furiosa.
_ Eu... Eu...

E aí, ela fez o que qualquer garota inteligente faz quando percebe que está com o homem errado: chora no motel.

Enquanto deus gargalhava, ela chorava copiosamente, repetindo: tu não! Tu não!
Tremi nas bases, será que ela estava infectada? Caralho, eu marquei uma touca dessas. Me fudi. Acabou para mim. Ao mesmo tempo em que eu a consolava e tentava me consolar também. Estava quase entrando em desespero quando ela parou de chorar e disse que estava fazendo uma loucura, que precisa voltar com o marido, rever sua vida, seus filhos, sua história. Me pediu desculpas, foi vestindo a roupa e me empurrando para fora.

Nunca mais eu vi Carmem.

Os telefonemas cessaram. Minha vida cessou. Não dormia, nem comia. Ainda tentei ligar, mas ela nunca voltou a atender ao telefone.

Meus dias de enamorado haviam acabado de maneira ridícula.

Lembro que chovia bastante naquele dia em que eu tentava me conformar. Os trovões soavam como gargalhadas, grandes gargalhadas. Enfim, deus estava se divertindo.
É justo.
A piada foi dele.