quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Bola na área

É nas primeiras incursões nas quatro linhas que se aprende que um homem de área tem que ser catimbeiro. Se quiser ter uma carreira longa e ser respeitado, um homem de área precisa sempre estar bem colocado, ter jogo de cintura e coragem para encarar os mais monstruosos zagueiros. Claro que a inteligência é um atributo que é necessário sempre, aonde quer que se esteja.

O Bar da Vala era um lugar pra caçar. Dito cult por alguns, mesmo depois de ter saneado a vala que o nomeara, continuou carregando o status duvidoso de ser um bar descontraído, para “descolados” (sabe-se lá o que isso queria dizer), mas o fato é que muita gente ia para lá para ver e ser visto, e claro, arranjar parceiros.

O futebol bem que poderia ser uma matéria ensinado em sala de aula. É lá, no futebol, que tu podes entender um pouco sobre estratégias. E também sobre companheirismo. Saber se colocar na área é tão importante quanto saber se colocar em um bar. É meio caminho andando para que a caça seja farta. É necessário sentar sempre em uma cadeira que lhe permita ter uma visão panorâmica do lugar, para que nada, nada fuja ao seu controle. Quem entra em campo achando que já ganhou, geralmente se dá mal. O importante é se manter atento para atacar sem abrir a guarda para um eventual contra-ataque, e se colocar bem na área.

O adversário também é importante. Jogar contra time ruim não dá emoção. Uma partida é tanto mais emocionante quanto melhor for a qualidade do adversário. Uma partida que termina em 10 a 0, não é mais emocionante que o gol da vitória aos 45 do segundo tempo.

Assim como no futebol atuar em equipe não é tão simples.

Naquela noite sai para encontrar um velho parceiro de farra. Atacante também. E esse é o perigo de se jogar com dois homens de área, o time fica mais ofensivo, mas às vezes falta espaço, e foi o que aconteceu. Como me atrasei, já encontrei o cara sentado na melhor mesa, e na melhor cadeira. Era um prenúncio que marcar um gol naquela partida não seria fácil. Mas também não sou de desistir.

“Para um atacante não pode existir bola perdida”, foram as palavras mais sábias que Seu Zuzu, meu técnico nas divisões de base do Paysandu, me ensinou e que levo para a vida inteira. “Um atacante não pode entrar em campo e deixar o placar em branco. Tem que lutar, ter garra, demonstrar vontade e prazer de estar em campo. Vale tudo, o importante é o gol. Gol de canela vale tanto quanto um gol de bicicleta”, ele continuava a preleção. O mesmo texto por anos. Jogo após jogo.

Sentei visivelmente contrariado para ouvir de cara as regras do jogo. “hoje tu vais cair um pouco mais pela esquerda”, o parceiro me disse. Caímos na gargalhada.

O papo ia bem quando entrou no bar Roberta e Ana Flávia. Roberta era uma moreninha tipo índia de parar o estádio. Ela também só jogava no ataque. Lábios carnudos, olhos amendoados, sobrancelhas grossas emoldurando um olhar maroto, cabelos lisos, com franjinha que ao balançar deixava transparecer escrito em sua testa: “Me coma!”. Ana Flávia era gorda.

Sentaram-se em uma mesa próxima, e pelo que pareceu, já chegaram no 2x5x3, esquema quase suicida.


Mas eu estava mal colocado na área. Roberta chegou esbanjando charme e jogando bola pro frente. Colocamos nosso time em campo e o parceiro pegou o flerte. Bola pra lá, bola pra cá, Ainda tentei tirar o cara da jogada com um escorão, mas há um acordo tácito entre os atacantes: cada um tem o seu pedaço da grande área. Joga em equipe não é fácil. O importante é não deixar o placar em branco, já dizia o Seu Zuzu. Deixei o parceiro jogando solto, enquanto procurava uma bola perdida para tentar um chute de fora da área.

Mais algumas cervejas e parecia mesmo que o gol estava amadurecendo, para ele, claro. Para mim, nada de bola espirrada. Enganando a linha de impedimento, o parceiro lançou a bola para ele mesmo e pegou na frente: foi encontrar com Roberta enquanto ela ia pedir uma música no balcão. Eu desci para o meio de campo. Fui ao banheiro.

Me espantei com a entrada do parceiro: “É seguinte, a Roberta ta afim, mas não vai deixar a amiga na mão. Rola?”

Eu olhei para o jato de minha própria urina, depois fiquei buscando um ponto qualquer na parede, voltei àquele vestiário fétido do Paysandu, enquanto calçava o meião e ouvia a preleção de Seu Zuzu.

Respirei fundo, levantei o meião, apertei o nó da chuteira e subi a escadaria do túnel: hoje rola!

Vou deixar placar em branco?

7 comentários:

Fábio Cavalcante disse...

Parabéns, Barroso! O Blog é ótimo, os textos são ótimos.
Li numa lapada e com muito prazer todos os posts. Já está nos favoritos.

J.BOSCO disse...

outra pérola do atacante Adriano Barroso,(hoje o melhor jogador da sinta liga dos campeões) desta vez atacou primorosamente de futebol,num estilo fenomenal do saudoso anjo pornográfico...rs!
abs

J.BOSCO disse...

E foi no bar da vala que começou uma grande amizade.O Cara me cativou pela simplicidade e um toque elegante de humor cantando músicas do passado como se fosse eu nunca mais iria encontrar um parceiro com esses gostos malditos...rs!
Eu me vi alí no caneludo cantando um clássico da jovem guarda,"Professor apaixonado" de Nilton César,numa performance que marcou seu estilo próprio de mesa de bar.
depois veio o convite para conhecer seu lar doce bar, e lá estava eu, presente com uma pilha de bolachões como oferenda retribuindo a visita...rs!
abs

J.BOSCO disse...

hoje, os sábados glaciais esquentam mais por causa dos convites de Adriano Barroso, que se encarrega de reunir uns amigos (poucos) para ouvir a boa música em seu sítio arqueológico.

abs

J.BOSCO disse...

"Vale tudo, o importante é o gol. Gol de canela vale tanto quanto um gol de bicicleta”,
hahahahaha...muita gente não entende isso!
excelente Barrosão!!
Assim como nas eleições: o voto de um analfa, tem o mesmo peso do voto de um intectual...rs!
abs

pmarat disse...

hahahahah muito boa!!!
Mas se tem cuspe no canto da boca,rola?

papistar_nunes disse...

A esta altura do campeonato, pelo nome do bar, ele tanto bebeu que já estava meio "valeska" (aquele que cai na vala) e pouco importou se o ataque foi na boca carnuda ou na banha da gorda, ficou até emocionado pois encontrou um adversário com qualidade e jogar contra time ruim não dá emoção.Agora se por acaso ele desbundou e dormiu com ela,quando acordou, diante do óbvio da situação não teve outra alternativa: saiu correndo e foi dar porrada no seu Zuzu ahahahahahaha.