terça-feira, 7 de outubro de 2008

A Gargalhada de deus.

Durante muito tempo eu duvidei. De quase tudo. De tudo.
Então duvidei de minha mãe, do meu pai, das namoradas, do lateral direito do botafogo, se homem havia mesmo chegado à lua e de deus. Sempre.
Fervorosamente, eu duvidei de deus. Mas chega um tempo em que é preciso ter certezas também. E assim eu hoje posso afirmar com absoluta certeza que deus existe.

O problema é o seu senso de humor. Também, se metade da bíblia for verdade, a vida de deus deve ser um saco, e – segundo a minha mãe diz- como cabeça vazia é o playgroud do diabo, Ele deve passar o seu tempo maquinando pequenas sacanagens com o seu pequeno laboratório de gentes que é o mundo.

Deus existe. E tem humores. E se diverte sacaneando os outros.

Carmem foi a mulher mais interessante que eu já encontrei na minha vida. Não era mulher para uma noite somente, era mulher pra viver junto. Para sonhar junto. Para cuidar e ser cuidado. Para dividir, partilhar, multiplicar, doar-se. A única mulher que me fez arriscar uns poeminhas. Olha só aonde eu fui parar: cometendo poemas.

Mas, exatamente no momento em que eu me preparava para experimentar “conjugar o verbo amar”, deus resolveu me dar provas de sua existência. Mais ainda, Ele resolveu me dar provas de seu senso de humor.

Aquela noite já era a sexagésima sexta noite de seca total. Não chovia na minha horta. Nada dava certo, nem as cantadas mais canalhas nem as mais elaboradas, nem as flores, nem os telefonemas sacanas. Tava uma situação séria. Tão séria que na falta do que fazer, fui ao teatro.

Não gosto de teatro. Não gosto de atores gritando no meu ouvindo e se cuspindo em cena e ainda mais querendo que eu pense! Porra, já não basta pagar o ingresso e ainda tenho que pensar? Já é demais. E como alguém pode pensar com outro alguém gritando feito louco, tufando a veia e olhando pra tua cara com cara de raiva?

Mas queria sofrer. Fui ao teatro. Mas foi exatamente lá, na fila do teatro, que o mundo se fez à minha frente.

Encabeçando a fila estava A mulher. A mais bela, a mais adorada. Impaciente, ela olhava para trás a toda revelando aquele rosto angelical emoldurado com o negror de cabelos lisos que iam até um pouco a baixo da orelha. Olhos negros ressaltados por sobrancelhas igualmente negras e equivalentes. Perfeitamente equivalentes. O nariz afilado ajudava a compor um rosto claro, sem nenhuma marca, mais perfeito que muito photoshop por aí. A boca era uma atração à parte. Lábios nem grossos, nem finos cuidadosamente pintados de vermelhos. Na medida certa. Que dava àquele rosto um matiz de pintura renascentista.

Já tinha visto aquele rosto em algum lugar.

O espetáculo se propunha a ser diferente. Dois atores somente em um palco tipo arena. Quando as portas se abriram procurei o meu lugar, e qual foi minha surpresa quando levantei a cabeça e percebi que havia sentado bem em frente àquela musa. Enquanto as luzes se apagavam eu a olhei bem no fundo dos olhos negros. Ela retribuiu com desdém.
Como minha auto-estima estava baixa mesmo resolvi assistir ao espetáculo. Mas era o que pensei. Na terceira frase o meu ouvido já estava doendo, e quando menos percebi estava de novo mergulhado naquele rosto.

Na metade do espetáculo Deus sorriu. Ela passou a retribuir o olhar, dessa com vez mais charme, com mais aceitação. Estava adorando aquele espetáculo. E foi assim até o final. Ficamos um no olho do outro. Deus se fazia presente, com toda a sua força na minha vida.

Não resisti. Assim que acabou o espetáculo, atravessei o palco, com os atores ainda recebendo os cumprimentos e disse a ela:
_ Estás me devendo um espetáculo.
_ Por quê?, ela respondeu.
_ Não consegui desgrudar o olho de ti.
_ Eu percebi.
_ Me dá o teu telefone?
Mandei assim, de cara, sem medo de errar. E, para minha surpresa, ela respondeu:
_ É melhor tu me dares o teu.

Era a melhor resposta que um homem como eu poderia arrancar de uma mulher como ela. Saí do teatro nas nuvens. Ela se perdeu no meio da pequena multidão que ia cumprimentar os atores. Eu já havia ganho o dia e fui pra casa.

Quantos dias se sucederam até o meu telefone tocar? Nem sei dizer. Os dias ora se arrastavam, ora voavam. Não fazia mais nada a não ser olhar para o celular. Fiquei dependente total. Dormia e acordava com o celular ao lado. Mas finalmente ele tocou. E era ela.

Somente por telefone falamos cerca de duas semanas até o nosso primeiro encontro. Me sentia um adolescente... um bobo... um amante. Sonhava com ela. Tinha a impressão de que ela estava vendo meus atos nas ruas, no trabalho, no meu apartamento. Decorei falas para dizer e impressionar.

Nosso primeiro encontro foi em um final de tarde. Levei-a para um bar com piano e boa bebida. Enquanto ela falava, eu só conseguia ver a boca se movendo, era um sonho. Ela mexia no cabelo, ela se virava, ela me contava de sua vida, encostava a boca no copo de vinho e me olhava enquanto sorvia o néctar dos deuses.

Foi lá que ela me disse que estava em meio a um casamento fracassado, mas que não queria ferir ninguém, por isso hesitou em telefonar. Que só aceitou sair comigo porque eu era um cara que sabia ouvir e sabia o que falar na hora certa.

Eu me sentia totalmente estranho. Ao seu lado eu não salivava como sempre, eu só sentia o coração palpitar, disparado. No nosso primeiro beijo, eu senti frio na barriga, porra, eu senti frio na barriga! Estava provando da babaquice que é o amor. “Deus, o senhor é bom para mim!”, eu pensava.

Saímos do bar e fomos andar no centro velho da cidade. Assim, de mãos dadas, rindo feito dois idiotas maconheiros. Eu estava nas nuvens. Depois que cansamos, que comemos cachorro-quente na esquina, eu fui deixá-la na esquina de sua casa. Nos despedimos só com olhares, para não dar o que falar. Eu senti vontade de descer do carro e correr pela cidade, como fazia quando era criança. E eu era de novo criança. Deus é bom! Deus é pai!.

Mas deus tem humores.

Por duas semanas nos encontramos todos os dias, todos os fins de tarde. Ia buscá-la na saída do trabalho e íamos ver o rio, trocando beijos. Não, não pensava em sexo. Queria que isso acontecesse naturalmente, no momento certo. Na hora certa.

E aconteceu.

Naquele dia, tínhamos combinado de passar a tarde juntos. Nenhum compromisso poderia nos separar. E foi assim. Às duas da tarde estávamos entrando em um motel, como ela sugeriu, após se negar em ir ao meu apartamento.

Tudo estava perfeito. Ela, o seu perfume, o seu vestido, o seu cabelo, os seus olhos, o seu arfar. Mal entramos no quarto e já nos grudamos em um beijo ardente. A sua língua percorrendo a minha boca, as minhas mãos percorrendo as suas costas. Ela arrancou minha blusa e eu o seu vestido. Me livrei da calça e do sapato, enquanto olhava aquele corpo branco deitado nas cobertas vermelhas da cama redonda.

Fui devagar. Provando cada pedaço do seu corpo com a minha língua. Quando tirei carinhosamente a calcinha, subiu um delicioso odor de mulher no cio. Subi em seu corpo para um beijo longo. Segurei o seu rosto entre minhas mãos e olhei fixamente em seus olhos, me lembrei da onde eu conhecia aquele rosto. Ela era a cara da Juliet Binoche no filme “A Liberdade é Azul”. Porra, morria de tesão pela Juliete Binoche. Vi esse filme uma centena de vezes só por causa dela. E, de repente eu estava na cama com a Juliete, sensacional.

Talvez isso também tenha sido demais para mim, e o que nunca havia acontecido, aconteceu. Brochei.

Cheguei mesmo a ouvir as gargalhadas de deus nessa hora.

Ainda tentei ficar mais algum tempo nas preliminares, enquanto ela gemia: vem! vem!, e eu pensava: como? como?

Ela tomou posse da situação e veio para cima de mim. Colocou o meu pau na boca, e ele, finalmente, deu o ar da graça. Imediatamente reassumi o comando e quando ia penetrar, ela faliu: a camisinha. Não esquece a camisinha.

Como eu ia colocar a camisinha em um pau meiote?

Parei. Peguei a camisinha no console da cama e vesti o bicho de tal maneira que parecia mais uma trouxa de roupa suja. Não deu certo. Desisti. Queria propôs ficarmos apenas nas preliminares, mas não tive coragem. Não tive coragem também de dizer o que estava acontecendo. Joguei a camisinha pro lado e tentei enrolar.

Ela, insatisfeita e achando que eu havia colocado a camisinha, voltou a pular sobre mim e, assim, meiote, a penetrei. Três cavalgadas sobre mim foram o suficiente para o coitado sair de dentro. Quando ela pegou nele para colocá-lo novamente percebeu que estava sem camisinha e aí o negócio pegou.

_ Estas sem camisinha?, ela disse furiosa.
_ Eu... Eu...

E aí, ela fez o que qualquer garota inteligente faz quando percebe que está com o homem errado: chora no motel.

Enquanto deus gargalhava, ela chorava copiosamente, repetindo: tu não! Tu não!
Tremi nas bases, será que ela estava infectada? Caralho, eu marquei uma touca dessas. Me fudi. Acabou para mim. Ao mesmo tempo em que eu a consolava e tentava me consolar também. Estava quase entrando em desespero quando ela parou de chorar e disse que estava fazendo uma loucura, que precisa voltar com o marido, rever sua vida, seus filhos, sua história. Me pediu desculpas, foi vestindo a roupa e me empurrando para fora.

Nunca mais eu vi Carmem.

Os telefonemas cessaram. Minha vida cessou. Não dormia, nem comia. Ainda tentei ligar, mas ela nunca voltou a atender ao telefone.

Meus dias de enamorado haviam acabado de maneira ridícula.

Lembro que chovia bastante naquele dia em que eu tentava me conformar. Os trovões soavam como gargalhadas, grandes gargalhadas. Enfim, deus estava se divertindo.
É justo.
A piada foi dele.

12 comentários:

J.BOSCO disse...

Meu grande amigo Barroso, Deus escreve o certo por linhas tortas,lhe deu um dom de escrever belos textos,pra falar das coisas absurdas do mundo de maneira genial, até dele também, de forma magistra,l a ponto de convencer até os mais incrédulos do planeta.Só que tudo nessa vida tem um preço.Disse o criador: você escreve e eu copidesco...rs!!
E faço a piada!!!
abs

J.BOSCO disse...

"Parei. Peguei a camisinha no console da cama e vesti o bicho de tal maneira que parecia mais uma trouxa de roupa suja."
...E Deus é impiedoso nessa hora...rs!
totalmente demais a crueldade de Deus , Barrosão!!!
abs

J.BOSCO disse...

Parabéns, Barroso,mais um de seus belos textos mitológicos, enfurecidos pelos Deuses impiedosos do Olimpo...rs!
Só você e o grande Ulysses que travaram essas batalhas com a supremacia divina, nobre amigão...rs!
Zeus gostava dessa ousadia,por isso iluminava mais os desafiantes.
abração

J.BOSCO disse...

Os Deuses se transformavam em animais, núvens,árvores,colunas,aves,para atrair e fazer amor com os mortais na terra, e acabavam judiando dos pobres coitados, e foi isso que Deus fez com você Barroso:lhe mandou a deusa Juliet Binoche...rs!!
abs

Jecyone disse...

Que sacanagem, amigo Barroso... ótimo texto, companheiro! Um brinde à Binoche!

carmem disse...

Querido, que texto fantástico e por coincidência "sou carmem" também.
Fala a verdade não é bom sentir-se vivo apaixonado!!
um super beijo

papistar_nunes disse...

O grande Bosco tem razão, quando lí esta história de que o bicho parecia uma trouxa de roupa suja, quase de mijo de rir. Ainda bem que era uma "trouxaaaaaa" e não uma "trouxinha", "trouxita" ou coisa parecida. Também, não importa qual o adjetivo,"trouxa" mole ou melhor "pau" mole é igual marshmallow velho, perde, a cor, o sabor, a "liga" entende?
Pobre Carmem!!!E ainda sem camisinha!!Aí meu Deus, que catástrofe!Melhor voltar para o marido bundão mas com a "trouxa"firme. ahahahahahaha.

papistar_nunes disse...

Mas ainda assim. com o meu pensamentob entre "trouxas e marshmallows" me pus a pensar porque isto aconteceu:talvez o espírito do Johnny Deep, parceiro de Juliette Binoche em Chocolate, outro belo filme, com ciúme(voces sabem que ele é chegado a um negão né)por vingança, do cara só ter pensado nela e não nele também onde rolaria uma bela suruba, resolveu interferir e deu uma brochada no cabra ahahahaha

papistar_nunes disse...

E para finalizar, veio o Deus onipresente e disse: "vou sacanear com este cabra porque ele não me respeita e ainda escreve o meu nome com letra minúscula"
Ele só salva eu e o Bosco que "num somo lezo" e "butamo" o nome dele com um "D" bem grande prá "num havê" BROCHARIA.ahahahahahahaaahahaha Cara obrigada por este blog, me divirto a beça!!! Beijossssss

ADRIANO BARROSO disse...

meus amigos, esses comentário são bem melhores que o texto. agora quem está se divertindo sou eu. hahaha. Papi você é demais. J Bosco sempre na mosca, Carmencita você tem um nome (e uma pessoa) inspirador. Jecyone, minha cara, essas coisas acontecem. o melhor é se divertir e tocar adiante. hahahaha
beijo a todos os frequentadores.

Ler disse...

Deus - ou deus com d pequeno, como queira - está na cabeça de cada um. Ora existe, ora parece q está cuidando só dos chineses (ou dos norte-americanos atualmente, em tempos de crises). Mas uma "cosita" é certa meu amigo Barrosão, cada um tem aquilo que merece, eheheheheheheheheheheh.
Pode ser hoje ou daqui a 30 anos, o senso de humor do cara lá de cima em alguma hora vai nos acertar. Sem exageros claro... Afinal, sempre podemos suportar
Mas brochar, puta que pariu, é o fim!!!!!!!!!!!!! Chorar? Não choraria. Acho q eu até rezaria. Mas pediria muitas coisas pro Cara, só não pediria FORÇA. Pediria paciência pra não estressar com o cara, pediria discernimento pra saber o que fazer na hora da "trouxa de roupa suja", pediria compreensão pra entender e não ficar ainda mais puta da vida. Mas se eu pedisse FORÇA e Deus resolvesse realizar esse pedido, seria um problema pq eu bateria nele até matar!
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Bjcas, adorei meeeeeeeeeeeeeesmo...
Tu és demais PD.

Lázaro disse...

É foda. Ou melhor, nada de foda. Te fudeste. É foda, mesmo sem crer ou crendo em Deus, é fácil botar no Dele, ops, a culpa é sempre do Cara. Foi gelo teu diante de uma Carmem com a cara da Binoche, os lábios da Binoche, e se o corpo era igual, qualquer mortal poderia sofrer com esse pau meiote, brochado. Por isso, estás desculpado. Continua escrevendo, para nosso deleite...não vai brochar. Licença para usar esse verbo.