quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A princesinha estava morta

Metrônomo é um instrumento que serve para regular os andamentos musicais. Apesar de nem toda música se prezar, ele é utilizado em todos os estúdios de gravações, é por obra e graça da marcação do metrônomo que o músico não perde o compasso e pode levar o andamento da música até o final.

“Que horas são?”, eu perguntei. “Quase quatro”, ela disse, limpando o suor do rosto. A porra da música alta, e ela não parava de dançar. Eu já estava pregado. Pedi um tempo e fui ao balcão pedir mais uma cerveja. De lá dava pra ver, vez ou outra, a cabeça dela, pulando no meio de uma multidão, acompanhando o bate-estaca da música que parecia ser sempre a mesma, sem variações, somente sons incidentais e o mesmo ritmo e andamento. Detesto música eletrônica e seus DJ’s com roupa extravagante e sorriso besta na cara, óculos escuro em plena noite e cabelo colorido. Odeio os seus gestos de “tô doidão” e o balanço mecânico do corpo. Não sou daqui, eu pensava. Mas o que não se faz por uma buceta.

Magaly era uma típica princesinha da noite. Popularíssima aonde quer que fosse, gente boa, risonha e bom papo, sempre animada, acompanhar o seu ritmo não era fácil. Já tinha esbarrado com ela em vários bares pela cidade, mas nunca fiquei tão perto. Magaly gostava mesmo era de meninas. Essa porra dessa moda de mulher com mulher, e o pior é que a grande maioria não quer um homem por perto. Realizar as fantasias sexuais no mundo de hoje, não está fácil. Como a gente involuiu. Viva os gregos.

Mas pelo que parecia, naquela noite, Magaly queria realizar minhas fantasias. Entre as desvantagens de Magaly tinha a necessidade de ser sempre vista como a descolada, sem amarras, medos ou preconceitos, mas na intimidade, eu sabia, ela era outra coisa, insegura, instável e deprimida às vezes. Mas como meus motivos em sair com ela passava longe da nobreza de estudá-la, pouco me importava seus problemas, só pensava mesmo era nas vantagens.

“E aí, cansou?”, ela disse me agarrando por trás. Virei e ficamos frente a frente, nem pensei duas vezes, tasquei-lhe um beijo na boca. Era o nosso primeiro beijo naquela noite. Meu investimento já contava com mais de seis horas e quase duzentos reais entre táxi e uísques, já que era eu quem estava bancando tudo.

Valia a pena. Magaly era uma mulher de capa de revista. Loira falsa, um corpo escultural, roupinha transadíssima, sorriso com covinhas e gestos largos. Mas gostava de mulher e eu era o primeiro homem que eu tinha notícia que saía com ela. Ser visto ao lado dela valia os reais que estavam indo. E mais, coloca-la no topo do currículo ainda era uma batalha a superar naquela noite. Pelo compasso dos amassos, já estava chegando perto do gran finale.

Pelo beijo de Magaly dava para antever aquela mulher na cama. Era só ter calma e mais alguns reais para outras doses.

Mais meia hora de papo e lá estávamos nós na rua, esperando um táxi na frente do bar.

Nem perguntei, dei as coordenadas para o motorista e lá fomos nós a caminho do motel mais próximo, escolhido exatamente por ser o mais próximo, uma vez que o taxímetro de Magaly era sempre bandeira 2. A última parte do trajeto fizemos num longo beijo. Pedi um apartamento e entramos no quarto às gargalhadas.

Mas foi só trancar a porta atrás de mim que Magaly mudou totalmente de figura.

Deitou-se na cama de peito para cima e ficou mirando o espelho do teto. Eu animado, e ainda sem perceber o que se passava, deitei sobre ela e colamos em mais beijos. Tirei-lhe a blusa, me deliciei naqueles seios lindos e fartos, desabotoei a saia, deslizei a língua por aquela barriga lisa, desci a calcinha e mergulhei naquele mar de maravilhas, totalmente ensopada.


Enquanto sorvia aquelas delícias, eu, de joelhos ao pé da cama, dava um jeito de me livrar do tênis, da calça e da cueca, sem parar de me lambuzar naquela gruta molhada. Quando consegui, subi de novo para outro beijo, foi quando eu constatei:

A princesinha estava morta.

“com tudo que sei acendi uma vela, abri a janela e pasmei../ alguns edifícios explodiam/ pessoas corriam, eu disse bom dia/ ignorei...”

Da mesma maneira que deitou na cama, ela permanecia. Os olhos grudados no espelho do teto. Achei que fosse uma tara. Vesti a camisinha e fui entrando sem pedir licença, mas devagar. Ela então deu sinal de vida deixando o ar escapar por entre os dentes.

Com um gemido estranho e compassado, ela acompanhava as estocadas começando a marcar o tempo simétrico da trepada com um hum-hum que parecia base de uma música lenta qualquer. Me senti em um estúdio de gravação com o metrônomo se movendo à minha frente.

Dependendo de meus movimentos naquele papai-e-mamãe necrófilo ela mudava o ritmo. Começou a ficar interessante. Enquanto ela revirava os olhos na direção do teto eu trocava a melodia. “quero ouvir um bolero agora”, eu pensava, e passava a fazer movimentos circulares, seguidos de estocadas mais forte, e ela respondia com os huns-huns boleriando o seu tesão na cama.

“vamos voltar a bossa nova”, e lá ia ela. “agora um pagodinho suingado”, o hum-hum-hum vinha junto.

Ela gozou no forrozinho, e eu quase eu grito: “Luís respeita Januário, moleque!”. Ela se recuperou na MPB e seguiu para um breguinha, passamos pelo calipso, cumbia e gozamos juntos no batecum da música eletrônica.

Virei para o lado, ela se refez, levantou aquele corpinho lindo e ressureito vestiu a roupa e me abraçou bem apertado.

Eu hoje me embriagando de uísque com guaraná, dei pra lembrar de Magaly,... são dois pra lá, dois pra cá.

6 comentários:

J.BOSCO disse...

Meu grande amigo Barroso, o homem das letras,mais um belo texto,sem amarras e sem frescura.Essa Magaly não merecia seu enorme esforço e nem tão pouco seus suados reais no bolso...rs!
Essa menina cadáver tá mais pra João Gilberto chega de saudades que pra Waldick Soriano.
abs

J.BOSCO disse...

"Da mesma maneira que deitou na cama, ela permanecia. Os olhos grudados no espelho do teto. Achei que fosse uma tara."
Hahahahaha...essa cena lembrou uma fulana de tal, que até hoje me dá nos nervos,cumpadi!
Tara? isso é um iceberg esperando o Titanic...rs!!
E foi toda a grana, depois dessa tragédia resolvi casar!
abs
abs

J.BOSCO disse...

Liguei no sábado pra tomar umas, mas você estava viajando,vamos acender as gargalhadas embaladas pelos ricos bolachões de seu sítio arqueológico...rs!
abs

J.BOSCO disse...

"Quem eu quero não em quer, quem me quer mandei embora e por isso eu já não sei o que será de mim agora..." (Raul sampaio)
Barroso, vamos ouvir esse cara cumpadi,que a coisa vai pegar fogo...rs!!
abs

J.BOSCO disse...

papai e mamãe necrófilo, foi de arrasar,cumpadi...rs!!!
abs

papistar_nunes disse...

Égua meu irmão esse negócio de tara, fetiche, a gente tem que saber avaliar bem. Tive um namorado que me cobria dos pés a cabeça quando ia transar comigo e eu achava que era fetiche, então tirava um pedaço do lençol, ele me cobria de novo,tirava outro pedaço e ele me cobria de novo e assim varava-se as noites e para tanta mis-en-scène o gozo que rolava nem era lá essas coisas. Passados tempos depois, descobri que ele era gay e me cobria porque não queria ver nem peitos e nem a minha cara de mulher. ahahahahahaha Putzzzzgrila!!!ahahahahahahaaha