quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A secretária do chefe

Melhor do que comer a mulher do chefe é comer a secretária do chefe. Claro, desde que seja gostosa. Comer a mulher do chefe pode colocar em risco a sua própria vida, mas comer a secretária, não, é status, respeito, é como se você tivesse se servindo na cozinha da casa dele, abrindo a geladeira e sentando só de cueca no sofá. Não há nada melhor para atingir o chefe do que comer sua secretária, é uma desmoralização para o resto da vida, tem gosto de sexo, mas também tem gosto de vingança, de humilhação, de plenitude. É a vingança dos proletariados.

Inês não fugia á regra das secretárias brasileiras, morena, cabelo liso, escorrido até os ombros, boca carnuda, nariz afilado, olhos meio agateados e um corpo esculpido com esmero, entre ela e o bagulhão da mulher do chefe havia um verdadeiro grande cânion.

O chefe também não fugia à regra dos patrões brasileiros. Era um cara que tinha a instrução básica, tinha ganho o cargo à custa de muito puxa saquismo, e tinha um humor feroz. Aliás foi colocado naquele cargo exatamente para não deixar ninguém trabalhar com prazer. Não dava bom dia, não reunia com os funcionários, não deixava sua mesa nem para desejar feliz natal.

Um funcionário só entrava no aquariozinho em que ele vivia para ser humilhado. Somente a dona Inês entrava no aquário dele incólume. Por razões óbvias. Mas para nós, reles mortais, a cena era sempre a mesma. Para entrar no aquário do chefe, todos tinham que passar pela saleta de dona Inês, a pergunta era sempre a mesma: “Como ele está hoje”, e a resposta não era diferente: “Com a macaca”, o pobre infeliz voltava da sala do chefe destroçado.

Para assumir a cadeira de chefe também é importante alguns truques. Na mesa, há sempre alguns papeis espalhados, um lap top que ele navega ao léu ao falar com os funcionários, jornais do dia e um telefone. À frente de sua mesa é preciso colocar duas cadeiras estrategicamente desconfortáveis, assim, quando o pobre infeliz for chamado para sentar na cadeira vai perceber que aquilo ali não é o seu lugar e a cada esporro, vai diminuindo.

Ah, importante também: um chefe nunca, nunca olha nos olhos do funcionário, a não ser em pé, para deixar claro a hierarquia.

Depois de muitos meses chegou a minha vez de entrar no aquário com o tubarão. Passei pela sala de dona Inês e não fiz pergunta alguma. Enquanto rolava o chá de cadeira, puxei o jornal e fiquei lendo animadamente. Tudo truque. Meu cu estava apertadíssimo. Mas, mais valia fazer o tipo na frente de dona Inês do que tentar amaciar o chefe. Enquanto passava os olhos nas figuras do jornal eu ficava tentando experimentar uma cara para sair de lá depois da mijada demonstrando para dona Inês que eu não tinha medo de perder o meu emprego.

Mulher bonita não gosta de muito respeito. Se um homem a olhar como quem olha para uma pessoa qualquer, elas se ofendem. Elas precisam ser olhadas com olhos de fome para comentar depois com as amigas num tom de reprimenda: “Aquele cara é um porco. Ele me olha como se tivesse tirando a minha roupa”. É o jeito delas gozarem também.

Usei com a dona Inês a velha estratégia do “Não me interesso”.

Quando entrei na sala do chefe, a cena era igual a de todos os esporros. Ele ali, de cabeça baixa, balançando a caneta por entre os dedos, mandou eu sentar e ficou alguns segundos calado, terminando de olhar o jornal. Na verdade também faz parte da estratégia dele, o silêncio cria um suspense e instala o terror no pobre coitado que tenta se segurar na cadeira escorregadia.

Quando abriu a boca, o chefe começou a grunir coisas incompreensíveis e monocórdias. Era uma mijada, com certeza. Eu nunca sei aonde colar meus olhos numa hora dessas, não sei se baixo a vista e deixo ele gozar com minha covardia, ou se o encaro, mostrando que não tenho medo. Ele grunindo e eu no ahan, foi o que consegui fazer, enquanto amargava o insucesso de querer parecer intocável.

Na saída, dona Inês estava em pé, me esperando. ‘e aí?’, ela perguntou. Eu tentando o meu sorriso tranqüilo, respondi “o de sempre, ele só queria provar que era chefe me mostrando o quanto sou incapaz”. Ela sorriu, e aí tudo se iluminou. Aquela boca cheia de dentes parecia ter luz própria, quase eu derrapo e tiro a roupa dela com o meu olhar, mas me controlei. “è isso”, eu disse. “Tenha um bom dia, dona Inês”, passei por ela segurando o meu olhar.

Meses depois foi a vez de dona Inês experimentar o terror do aquário. Dava para ouvir de longe o esporro, sabe-se que era por causa de uma correspondência sumida. O patrão comeu o cu do meu chefe e o chefe precisava comer o cu de alguém. É a vida.

Mas dona Inês não estava preparada para essa dura realidade, acostumada com os cortejos, não agüentou os impropérios e desatou a chorar na copa, e na minha frente, santa hora do cafezinho.

Quando um homem que quer comer uma mulher a encontra fragilizada, é preciso ter tato, senão joga tudo a perder. O melhor caminho é sempre ser somente um bom ouvido, nada de querer dar conselhos, ou usar frases feitas como “você é maior que isso”, não. O lance é se mostrar solidário, até chegar àquela hora dela se jogar nos teus braços em busca de acolhimento.

Dona Inês chorava de soluçar, e eu, absolutamente encantado com aqueles pares de seios que pululavam dentro do decote a cada soluço. O nariz dela escorrendo e eu só via aquela boquinha linda, falando indignações e xingando até a oitava geração do chefe. A bolsa dos olhos já levemente inchada e finalmente jogo o primeiro valete na mesa.

“a senhora vai me perdoar, mas até chorando a senhora é linda”. Usei uma tática arriscada, a de tentar desviar o assunto para acabar com aquela porra de chororôrô chato. Ela tomou um susto. E disse, ainda indignada: “Eu aqui sofrendo, e o senhor vem com papo furado”, isso era bom, o importante é desequilibrar, a fúria é mais fácil de controlar do que o sangue frio.

“não me entenda errado. Sou solidário a sua dor. Mas para quê prolongar o infortúnio? O importante é virar o jogo. Sentir dor é o que o chefe quer que você sinta, mas se você der a volta por cima, vai devolver o câncer para ele”.

Ela calou. Isso era bom. Ficou olhando para o vazio, tentando raciocinar as coisas sem sentidos que acabava de falar. Aí, voltei a blefar, descartei o rei de ouro para pegar a dama de copas.

Dei as costas e fui me servir de mais café. Ela foi para a água. Bebeu de um gole só um copo inteiro de água, balançou aquele cabelo lindo, limpou os olhos e descartou: “você tem razão”. “obrigado pelo esforço de me compreender”, eu disse pegando o descarte dela. “você é um cara legal, pena a gente não ter tido tempo de conversar outras vezes”. Aí bati o jogo. “quer saber. Hoje deve ser um dia de transgressões. O que tu achas de fugir e fazer um dia diferente?”, “grande idéia”.

Nunca mais o chefe me olhou com desprezo. Agora eu tenho respeito daquele filho da puta.

11 comentários:

J.BOSCO disse...

Meu Deus! estou até com medo de comentar essa pérola,cumpadi Barroso.Só de pensar nos parágrafos caio na gargalhada...rs!Depois desse texto jamais serei um chefe, nem pensar, prefiro a qualidade simplória de um vassalo.
abs

J.BOSCO disse...

O ódio e o desejo de vingança tornou o lendário BEN HUR vivo,para humilhar o todo poderoso Messala,seu melhor amigo.
Barroso,você me fez lembrar meus momentos de repulsa aos chefes, que por um degrau a mais se entorpeceram de poder sobre as pessoas e deixaram de lado uma possível duradoura amizade.
É bom lembrar que existe chefe e chefetes...rs!!
abs

J.BOSCO disse...

Barroso, cada detalhe desse texto é precioso,tem uma linguagem forte e sincera de amor e ódio nas pessoas que nasceram para perder ou vencer.Você fala de covardia como proteção, de resguardo, mas ao mesmo tempo dá uma puta força para quem tem uma chance de se fortalecer, à maneira mais gostosa do planeta:comer a secretária do chefe...rs!!!
excelente, cumpadi.
cada vez melhor!
abs

J.BOSCO disse...

Todo chefe tem uma esposa bagulhão...rs!!é verdade, cumpadi!!
Ainda bem que Deus mandou escolher: "tu queres uma chefia ou uma esposa bonita? e eu respondi,não gosto de aquário...rs!!
abs

ADRIANO BARROSO disse...

SEnsacional Bosco. é isso aí, isso é que é leitura-mundo. hahaha. há chefes e líderes, infelizmente há muitos mais chefes, mas caras como a gente só querem gozar a vida (no duplo sentido mesmo)

Juliana Camargo disse...

rindo, rindo, rindo MUITO!

só isso que posso dizer

:D

p.s: eu e a Tyara aguardamos o texto sobre estagiárias.

papistar_nunes disse...

Porra, acabei de ler estes dois lindos e prazeirosos textos que como todos os outros do Adriano mexem com a minha libído intelectual e aqui, sedenta para me "emprazeirar" e exprimir alguma coisa,tenho que ir votar.Égua, isso é pior que a brochada que a pobre Carmem sentiu quando esteve envolta com a "trouxa suja e mole" do negão, porque isso é ficha diante dos dois candidatos que juntos formam uma fossa só. Mas eu volto aqui mais tarde cumpadís prá gente se divertir. Bjsssssss

papistar_nunes disse...

Bom, "no caso", para eu me "fortalecer",pela maneira mais gostosa do planeta que é comer a secretária, como não sou chegada a uma xereca, vou comer quem? O "boy"?

papistar_nunes disse...

E bem feito para essa secretária. Cada secretária tem o chefe que merece! Que onda é essa de ficar na porta só dizendo que o "pulha" tá com a macaca e na saída, falando que nem um travesti pobre com sua bolsinha diz:" e aíííí??" e sádicamente tasca um sorriso e o pobre do humilhado que sai la de dentro dizendo que ele só queria mostrar que era o chefe e quanto ele era incapaz, é outro otário também que não percebeu que ela e o chefe eram farinha do mesmo saco, ainda foi transar com ela adquirindo suas máculas e as do "pulha" também porque gala é um passa máculas doido voces sabiam?A gente não tem que se meter com quem tem gala maculada ahahahahahha, égua, que papo doido!!!

papistar_nunes disse...

E agora eu vou dormir e em vez de ficar pensando nesses dois peitos pululantes da secretária "palha", vou fazer um mingau de farinha láctea bem grosso e bem quente e quando ele começar a pulular, tá no ponto!!! Boa noite queridos!!!

J.BOSCO disse...

Papistar Nunes,menina, faz tempo que não tomo um mingau de farinha láctea pra dormir, fazia muito isso na época do saudoso Celeste...rs!!
bjs