quinta-feira, 20 de novembro de 2008

As estagiárias

Não existe um método 100% seguro para se comer uma estagiária. Bicho arisco, ao menor passo mal dado pode se entocar e nunca mais sair do buraco. Quando o assunto é estagiária, o caso requer estudo, observação diárias até conhecer os hábitos, os desejos, as aspirações, os trejeitos e, sobretudo, os pontos fracos. Só então é possível se montar uma estratégia. E mesmo assim é um tiro no escuro.
Janaína e Tamara haviam entrado no escritório há pouco mais de seis meses, e nesse tempo, ninguém havia conseguido desentocá-las. As duas pareciam ter sido escolhida para agradar a todos os machos caçadores de um escritório em que 70% dos trabalhadores eram homens. Dos 30% de mulheres que restavam, 20% eram feias, 9% eram velhas demais e os 1% que sobravam ficavam por conta da secretária do chefe, que, claro, ele deveria estar comendo.
Ainda lembro do primeiro dia em que Janaína e Tâmara chegaram no escritório. Com roupas sóbrias, uma vestia jeans e a outra uma saia preta, uma usava blusa de algodão e a outra usava um tailler. Era dois tipos distintos. Duas pedras preciosas que caíram em um limbo de machos estranhos, feios e famintos.
Não deu outra. Na primeira semana, os candidatos a ajudar as duas beldades se multiplicavam pelo escritório. Vira e mexe se via um debruçado no computador de uma delas, claro, por sobre os ombros das meninas, tentando explicar o que até hoje ninguém compreendia direito. Números, números e mais números, percentagens, sub-totais e totais. Números, somente, nada de mais importante.
Na hora sagrada do cafezinho, o exército de macharada ficava espreitando através do vidro, as duas moças, sentadas uma ao lado da outra. No máximo, Janaína levantando os olhos por cima da tela do computador para ter uma panorâmica daquele lugar triste. Seus olhos verdes movendo-se de um lado para o outro pareciam os de um jacaré na lagoa, atento aos predadores.
Janaína tinha olhos verdes, Tamara negros. Janaína tinha cabelos falsamente loiros, Tamara negros. As duas tinham a pele branca, as duas estavam no último ano da faculdade, em meio a TCC’s, as duas experimentavam o primeiro emprego. As duas experimentavam a sensação de ser caça em uma savana de predadores. Janaína vez ou outra ria, Tamara nunca levantava os olhos do computador, chegava e saia e só se ouvia um sutil "bom dia" daquela boquinha avermelhada. As duas só tinham um pequeno-grande problema: havia nascido na década de ’80 e faziam aparte da geração do nada. Com vinte e poucos anos ninguém é confiável.
A fome se expandia entre os predadores, que chegavam a travar verdadeiras lutas corporais para tentar se aproximar das presas. Janaína expandia amizade, Tâmara preferiu a distância.
Depois do Fagundes ter levado o primeiro pau na testa, o Souza chegou na segunda-feira contando vantagem. Dizia que encontrou Janaína em uma festa e ela estava tomando todas e que tinha armado o seu bote. Sinal vermelho na savana. Ninguém em sã consciência iria perder para o Souza, que era desajeitado, mal cheiroso e puxa saco do chefe. Foi uma semana de batalhas, estratégias, alegrias e decepções.
Há algumas estratégias possíveis para atrair uma caça normal –não estagiárias-. A primeira, e mais conhecida, e dar atenção total, ser gentil sempre e, em seguida, dar um gelo total, sem mais nem menos. Mas também não é com todas as estagiárias que isso dá certo; a segunda, é mostrar profissionalismo, retidão no trabalho e concentração no bem estar da empresa; e a terceira, e mais arriscada, e mirar o alvo e tentar abocanhar em um único bote. Nada disso deu certo para os pobres confrades caçadores do escritório.
Mas, os deuses da caça estavam do meu lado. Ou quase.
Naquela sexta-feira, passava das seis e meia da noite quando desliguei o meu computador. Pelos meus cálculos era o tempo de passar em casa, tomar um banho e ir ao encontro de Zilá para uma noite e tanta.
Foi o que fiz. As dez da noite estava entrando em um bar com Zilá, uma deusa bronzeada de sol. Mas, quem disse que a vida é programável? Mal entrei no bar e dei de cara com um trio inusitado. Na mesa do canto, Fagundes, Tamara e Janaína conversavam animadamente. Quase morri de susto, inveja e raiva. Sentei distante, sem que eles me vissem, e, como um chacal, esperando o leão pegar a presa, fiquei de olho. Como Zilá era irrequieta e popularíssima, em pouco tempo estávamos pulando de mesa em mesa par falar com os amigos. Era o que eu precisava.
Deixei Zilá em uma mesa com amigos e, "por pura coincidência", dei de cara com trio. A receptividade de Janaína foi total. Um sorriso largo e os olhos brilhando me destruíram na hora. Sentei à mesa e tomei uma cerveja com o trio que estava desde as seis horas no bar. Esperto, Fagundes bebia pouco, e deixava as meninas se exaltarem no álcool. Reconhecendo um lobo no ato da caça, percebi que o alvo era Tamara e que seria um favor se eu sumisse com Janaína dali. Entendi o recado, e aí se configurava ali, naquele bar apertado, a perfeita analogia de uma cadeia alimentar: eu precisava me livrar de minha predadora para pular em outra caça. Tinha que usar todo meu jogo de cintura.
"Namorada?", Janaína perguntou de sopetão. "Eu... não... amiga", respondi, sem certeza. "Dificilmente um homem como tu sai com ‘amigas’". Janaína mostrava uma faceta distante daquela capa de estagiária comportada. Mais meia hora, e senti que tinha que dar satisfações a Zilá. Disse que ia ao banheiro, passei pela mesa dela, sentei afobado, numa agonia de dar dó e levantei novamente. Fui ao banheiro, dessa vez, de verdade. Fagundes me esperava por lá. "Cara, nunca esteve tão fácil. Como é que tu me apareces com uma namorada, porra", "Porra se não fosse a coincidência tu não ias me ligar", "É verdade, tentei arrastar as duas, mas vi que não vai dar certo. Dá uma desculpa e leva a Janaína contigo", "Como, porra?", "A Zilá nem vai perceber, daqui a pouco ela toma todas e vai vomitar em casa", "Bora voltar, a gente já ficou muito tempo aqui, vou pensar no que fazer".
Voltei pra mesa de Zilá, me esquivando do beijo. Eu já suava frio. Zilá não era uma mulher que se desprezasse. Mas Janaína era carne nova, estagiária e o Fagundes, fatalmente, arrastaria Tamara. Não iria ter outra oportunidade tão boa tão cedo. Se ao menos ela não tivesse vinte e poucos anos, poderia entender que o importante é fazer pares, que nessa vida a experiência sexual conta muito em relação à postura de vida e blá blá blá. Mas não, ela era estagiária e havia nascido na década de ’80, a geração do nada. Deveria ser bobinha e nunca daria no primeiro encontro. Certamente teria que se sentir namorada minha para abrir as pernas, essas coisas dessa geração.
A noite já ia alta, pelos meus cálculos a cerveja já estaria fazendo seus efeitos na defesa das presas.
Voltei à mesa do trio, realmente a animação era maior. "És tão popular assim, que uma simples ida ao banheiro demora horas", Janaína me saldou com uma direta. Dei uma desculpa qualquer, engatei um papo e entrei na animação.
Algumas horas depois, me lembrei de Zilá, dei mais uma desculpa e foi procurá-la. Qual o quê. A moça já tinha ido embora com todos na mesa em que ela estava. O garçom me entregou um bilhete: "Vê se não me liga, viu?", um minutinho para passar o susto e depois achei que tinha sido melhor assim, ia deixar a coisa esfriar e depois retomava o lance com ela. Voltei pra mesa do trio aliviado e sabendo que a hora do bote estava perto. "Pronto, agora garanto que não me levanto mais dessa mesa, a não ser por um bom convite", preparei o bote. "espero que tu estejas esperando que o convite venha dessa mesma mesa", Janaína respondeu ao chamado. "Claro, não esperava outra coisa dessa noite", mostrei as garras, e puxei minha cadeira para mais perto de Janaína.
Apenas duas cervejas depois de um papo que já estava ao pé do ouvido, as duas informaram aos leões que iam ao banheiro. Assim que elas levantaram, eu e Fagundes passamos o plano à limpo. "Cara, vou arrastar agora. Como as duas moram em lados opostos da cidade, vou dizer que vou levar a Tamara de táxi e tu levas a Janaína. Agora é cada um por si", decretou o Fagundes. Eu concordei. Pedimos mais uma cerveja para brindar a farra que estava por vir.
Acabamos a cerveja sem sinal das duas estagiárias. Em seguida, a música ao vivo acabou, sem sinal das estagiárias, mais um tempo e só restávamos nós naquele bar que agora parecia imenso. Nós, em silêncio, percebemos o duro golpe, pedimos a conta e ainda tive que levar o Fagundes em casa.
Colocamos a culpa na idade das meninas.
Não se pode confiar em quem nasceu na década de ’80. Não se pode confiar em estagiárias.