segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Ave Nelson

Mulher bonita gosta de papo besta. Muita elaboração vira tese, e ninguém quer ir para cama com um Phd em alguma porra que não seja o sexo.

Mayra era gostosa, mas levava uma vida marital com seu namorado chato. Mesmo com a pouca idade dos dois, eles acreditavam mesmo que deviam fidelidade absoluta um ao outro. Juntos, era um casal enojador, fazendo ceninhas de ciúmes em público e quase sempre deixando a mesa de bar antes de todos, em meio a porradas.

Mayra era gostosa e bem de vida, pele boa, cabelo tratado, unhas sempre feitas, se vestia com personalidade. Todo mundo só esperava um dia pegar ela sem o namoradinho chato. Minha particular batalha com Mayra já durava quase um ano, como ela sempre sorria das minhas palhaçadas, eu aproveitava para jogar deixas para ela pegar. Um dia, cheguei mesmo a ser sincero, “Se eu não fosse acanhado, eu te diria que estou enamorado pr ti”.
Mulher adora homens ingênuos e frases feitas. Quando eu descobri a palavra ‘enamorado” jamais usei de novo a palavra “apaixonado”, que essa dá um ar de compromisso. Enamorado é mais solto, e algumas delas, não sabem nem o que é isso.

De tanto esperar, meu dia chegou.

Estava rolando um festival de cinema na cidade, e alguns amigos programamos para ir. A turma, junta, somava umas seis pessoas, o número par só foi possível porque nesse dia, o namoradinho chato não foi, Mayra, sim. E eu estava disposto a cercar mais uma vez. “Faz um tempinho que encontro a Mayra sem o namorado por aí, será que terminaram?”, comentou com um certo veneno feminino Amanda, namorada de um amigo. Peguei a senha.

Quando Mayra chegou, sem o mala, fui logo mandando o recado: “não posso entrar nesse cinema contigo”, mandei. “Por quê?”, ela respondeu. “Cinema ter ar de romance, e como estás sozinha, não vou responder por mim”, cravei. Ela sorriu, me chamou de palhaço, mas também não decretou distância alguma.

E foi como eu tinha pensado, sentado lado a lado, eu fazia comentários sobre o filme no ouvido de Mayra, que só respondia sorrindo. O filme já pouco me importava, era de graça mesmo, e eu estava mais interessado em mapear cada parte daquele coxão exposto que sobrava na sainha de Mayra.

Quase no final do filme ela se virou e falou no meu ouvido: aquele papo de enamorado ainda está de cima?, quase amarelei, mas mantive a pose. “Não me entenda mal, você é uma pessoa adorável”, me finge de tímido. Ela também fingiu que acreditou, e logo, logo estávamos trocando longos beijos. Mas também acabou no cinema nosso romance. Fomos para o bar depois e mantivemos a distância, imposta por ela, claro.

Mas confesso que fiquei empolgado e decidi realmente fazer a coisa certa. Na mesma semana saímos por duas vezes e foi somente beijos trocados. “Não quero que nossa história seja somente cama, quero que a gente se conheça melhor e tu tenhas certeza do que estas fazendo”, menti.

Sempre no carro dela, porque o meu já estava caindo aos pedaços e não comportava uma mulher como aquela, ela me deixava na esquina de casa acreditando ser a ativa na relação.

Mas com os beijos cada vez mais quentes, chegou uma hora que não dava mais para segurar, o grande momento estava chegando.

Sempre preguei que a leitura é um instrumento maravilhoso para romper barreiras e tirar a gente de encrencar. É lá, nos livros, que estão os grandes ensinamentos da vida, sabedoria é colocá-los em prática na hora certa.

Mayra havia sucumbido aos constantes assédios do ex-namorado, e me dito de maneira muito triste no telefone que havia reatado a merda do relacionamento dela. Para não perder por completo tirei um João Antônio da cartola e mantive a malandragem: “Tudo bem, para um homem como eu, o que vivemos já foi uma experiência extasiante”, e desliguei o telefone num Putaquepariu.

Mas o que foi plantado naquele dia renderia frutos à frente. Mandei flores e um Neruda para sua casa, em uma despedida à lá Chico Buarque.

Uma semana depois São Nelson me valeria.

Estávamos todos no mesmo bar, a mesma turma, dessa vez em número ímpar, quando o casal nojo resolveu empreender mais uma briguinha, ele pegou o carro e foi embora e, eu, bom, eu elegantemente me retirei da mesa e fui beber no balcão.

Deu certo, ela se aproximou e disse, “Dessa vez é para sempre”, e mais: “Me leva daqui, para onde quiseres”. Para onde eu quisesse valia bem mais do que me prometer vida eterna, entendem?

O negócio era que eu andava meio quebrado, gastando mais do que podia, e naquela noite, fazendo as contas rápido, pagando a despesa, me sobraria uns vinte paus. Era muito pouco pra tudo aquilo de mulher. Sorri um sorriso amarelo.

“Me tira daqui, vai”, ela implorava. Tirei um Paulo Coelho da manga para ganhar tempo, e ataquei com pieguice: “A raiva nunca é a melhor conselheira”. “Raiva é o caralho, eu passei a noite inteira te olhando”, ela respondeu com a sinceridade de uma Hilda Hilst.

“Ta bom. Vamos nos dar ao desfrute”, era Ana Cristina César falando em mim. Mas... (lembrei da pouca gasolina, no meu carro fedorento, do carro dela confortável, da minha carteira magricela, mas aí me veio meu santo de cabeça. Nessas horas as mulheres gostam de homens de atitude).

Deixa o teu carro aí e vem comigo. Ela sorriu. Peguei ela pelo braço e saímos andando pela rua, “Para onde tu estas me levando?”, ela questionou. “Se vai rolar algo entre a gente, vai ter que ser diferente. Uma história que seja só nossa”, continuei andando e falando, “freqüentas os lugares mais chiques, não é? Quero te fazer experimentar uma história diferente”, ela sorriu.

Quatro quadras depois entramos no El Camiño, um hotel vagabundo no centro da cidade, que cobrava 15 paus duas horas. Ela entrou meio ressabiada, mas não desistiu. Pelos meus cálculos ainda sobraria 5 paus para colocar um litro de gasolina no meu caro até chegar em casa depois.

Na cama, sacramentei a jogada: “É que eu te acho nelsonrodriguiana, sabe, bonitinha, mas ordinária, quero contigo, mas só vai ser bom se for em um lugar brega como esse”. Ela adorou a declaração.

Ainda declarei muito Nelson Rodrigues naquele ouvidinho cheiroso. Sempre nos piores motéis da cidade.

Uma gatíssima à preço custo

Ave Nelson.

21 comentários:

papistar5 disse...

E tomou o quê se não sobrava nenhum tostão? Água da torneira?
Pera lá, duas horas transando num motel cheio de ácaros,forro da cama de plástico que nem lá na Portuguesa,com lavagem "tchaco,tchaco", sem tomar nem um birinaite, só sendo mesmo muito ordinária.Se fosse eu viraria logo "A dama do lotação", para quem sabe encontrar um nego cheiroso que tivesse uma cama confortável e me fizesse virar a jovem e sonsa Cilene dos "Sete Gatinhos", aí sim eu gritaria "Ave Nelson".Bjsssssss

ADRIANO BARROSO disse...

Papi, em vc minha vida já não é mais nada. rsrsrsrs
adorei a Dama do Lotação
Mas, nós sabemos... umas pulguinhas na cama sempre dão um tom a mais né

papistar_nunes disse...

Olha, cheguei atrasada mas escrevi alguma coisa no texto anterior. Pulgas?Bom na cama?Só falta tu dizer que para um toque a mais, gostas de uns"chatinhos"arghhhh ahahahahahahaha

pmarat disse...

Essa tu perdeu pra mim. levei foi no Bar S. jorge. a Cama de capim e meia parede, papel higienico em pedaço. Quando eu vi a casa da mulher, pensei "essa não vai querer me ver nunca mais"
que nada, foi mais de ano.

pmarat disse...

Bar S.Jorge éra na frente do palacio dos Bares. hoje só tem as palafitas. Ela éra uma Universitária Goiana, recem- chegada em Belém. eu um duro que enganava no forró.
enfim, é tudo vagabunda!!!

papistar_nunes disse...

Vagabundo, vagabunda,
verossímeis, vivem, vida vadia vagando, viajando, vociferando velhos versos visivelmente vomitados via voz, verde vagomundo.
Vocífereis vagabundos vossas verbes verdejantes!!!
Valores valem vintém!
Verbes vividas valem vitórias!

ADRIANO BARROSO disse...

Marrat, São Jorge foi minha escola também. nunca me esquecerei dos caboquinhos dançando merengue e se equilibrando nas tábuas. era preciso ser bom para não cair no rio. era uma tábua sim e outra não, cumpadi.
realmente essa goiana que tava coontigo tava muito afimmmmmmm. hahahaha.

papistar_nunes disse...

Cama de capim é que vicia boi gordo, sabia muito bem a universitária ahahahahahahaha Beijos Marrat

papistar_nunes disse...

Tão pensando o quê?Eu também marquei presença nas "gretas" do S. Jorge.Uma vez o Rui Barata muito doido, deixou o paletó dele comigo e foi embora.Quando eu abri o paletó tinha grana prá caramba.A Marta gorda me olhou e disse "Papi, vamos comer e gastar toda essa grana? Eu doidinha da minha cabeça, peguei mais o Paulo Cabral e ela e fomos parar no S. Jorge, bebemos, comemos e dançamos enlouquecidos até o dia amanhecer.Só que não fui parar na cama de capim não, nessa época eu ainda era vaca magra ahahahahahahaha

ADRIANO BARROSO disse...

Papi, se um dia quiseres escrever tuas memórias, me dá a prioridade, viu.
Não consigo nem imaginar o que NÃO fizestes, hahahahahah.
à própsito, adorei o poema simbolismo perde meu irmão.
essa é a papi de guerra, doida, maluca, gostosa, poeta, safa pra caraléo. rsrsrsrs
beijão papistar

J.BOSCO disse...

Ave Barrosão!!!!!!!!!!!!!!!
Tava faltando essa de final de ano,cumpadi,com cheiro de puteiro de quinta categoria,onde as belas sonham um dia cair...rs!
abs

J.BOSCO disse...

Barrosão essa me fez lembrar de uma grande gata,fina, intelectualizada, mergulhada nos livros,e rica.adorava recitar autores famosos. Sonhava com seu príncipe encantado montado em seu cavalo branco.Uma menina educadérrima que não suportava ouvir e nem falar baixarias.Todo mundo babava por aquela menina.Só andava com babacas ricos e branquelos com papos chatos de maracas de carros.frequentava os melhores restaurantes,até que um dia conheceu um "cavalo" que serviu de príncipe para ela e levou a pobre ingênua menina pra conhecer os piores bares de Belém.
Caiu na baixaria de uma maneira espetacular que até hoje não esquece esse lado bizarro de sua vida.Sai à noite vestida de noiva, e sabe que agora em diante, seu destino é pecar.
não se importa, e permite que toda nudez será castigada novamente por algum cavalo da vida...rs!
Ave nelson!!
Ave Barrosão!!
abs

J.BOSCO disse...

Já tive perto dela, senti seu cheiro de pecado numa mesa de bar,fui cortado várias vezes por abutres mais experientes.Fiquei conformado com as inúmeras perdas.
Quem sabe um dia as pedras se encontrem nos píores bares ou nas piores sopas da vida, meu cumpadi!!
Ainda tenho um certo imã pra chegar nesses piores e melhores lugares da noite.Que diga o saudoso "Celeste".
Eu sei que toda mulher normal gosta de apanhar,só as neuróticas reagem...rs!
por isso um dia eu encontro essa patifa!!!
Ave Nelson Barrosão!!
abs

J.BOSCO disse...

Barrosão, eu sempre fui um cara meio podre,por dentro e por fora.Andava com gente da pior espécie,não dava bola pras regras e nem pudores, queria mesmo era conhecer o mundo das trangressões.
A noite é a sua melhor amiga e parceira.É lá que você conhece seus melhores amigos de copo.
Também só de copo.Tem vários tipo de amizade, e o de copo é a mais próxima de Deus,do etero, do acaso,e da desgraceira total.Nesse mundão podre conheci uma gostosona, bem de vida que pagava tudo pra mim, me chamva de delicioso,acho que tinha o sinônimo de escabroso, mas deixa pra lá.O que importa era a nossa relação doentia pros piores bares da vida. Não ficamos juntos por muito tempo, não ia dar certo dois doidos na mesma casa.A nossa união só estava ligada por causa da podridão de Sodoma e Gomorra de São Braz
Hoje ela é uma senhora dona de casa,e eu leso comentarista de blogs...rs!!
Ave Nelson Barrosão!!
abs

papistar_nunes disse...

Ei Bosco, eu ouvi dizer também que todo homem normal gosta de "dar o fiofó" e que só os neuróticos reagem... ahahahahahahahahahaha
Num tem jeito, esses encontros só me fazem bem, morro de rir!!!
Se me perguntarem uma coisa boa acontecida comigo este ano, com certeza, entre tantas outras vou dizer"encontrei o blog do Barroso!!
Feliz Natal patifões queridos!!! smackssssss

ADRIANO BARROSO disse...

porra, porra que massa. vcs são demais, fico todo besta. J. Bosco e PApistar vcs vão me viciar, caralho. esses papos nesse blog têm sabor de mesa de bar, de papo de baixaria, de perfumes baratos passando por nossos narizes, de trepadas furtivas no banheiro sujo; de vagaba e canalhões se esfregando no salão. caralho é muito bom isso.
obrigadus. hahahaha

J.BOSCO disse...

Feliz natal e um próspero ano novo para você,Adriano Barroso e toda sua família.Como disse a nossa querida Papi,foi uma das melhores coisa do ano,esse seu blog.
Desejo de coração à todos que acompanham este blog um feliz 2009,cheio de criações,saúde e claro, um pouquinho de trangressões pra quebrar o gelo...rs!
tim tim!!
bjs

Waldez disse...

mais saude em 2009, parente...

Waldez disse...

o jbosco essa hora deve estar em bragança na pinga...

Tyara de La-Rocque disse...

Sensacional,Drico.

Patricia Lio disse...

Fiquei péssima! Não sou boasuda e nem gosto de papos bestas. Teria tudo pra não me identificar, mas o motel escroto me fez efeito.
Entrei no teu blog com mínima pretensão e já me sinto no direito de escrever as visões das tuas musas. O pensamento da gostosona do Ave Nelson e de todas as outras descritas no blog, me inquietou.
Acabo de me vestir, sou elas.

Bjs