quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um tigre nunca perde suas listras

O artigo primeiro do estatuto dos canalhas com princípios está escrito em letras garrafais:

NEGUE. SEMPRE.! A princípio parece somente um conselho para inescrupulosos, mas como tempo se percebe o quanto de valia e de sabedoria tem essa primeira página.

O estatuto tem uma estrutura livre, ele também vem com pequenos textos comportamentais para canalhas mirins ou neófitos na bagaça. Não é um livro para decorar, é um livro para se andar com ele, um livro de consultas. Lá também está escrito: Nenhuma mulher gosta de perdedores.

“Se você esta baixo astral, contando as derrotas, é melhor nem sair à caça, o melhor é ficar em casa lambendo as feridas mesmo. É na caça que os seres humanos experimentam os seus instintos mais básicos e animalescos. Mulheres gostam de macho alfa, aquele que se destaca em “seja-lá-o-que-for”. “Quem não se destaca em nada está relegado aos restos e vive como hienas, se alimentando das sobras da caça dos machos mais ativos”, diz o texto. E no final do artigo diz assim: “se você está por baixo, minta. Invente uma história fantasiosa qualquer, diga que a falta da grana é porque o dinheiro está aplicado ou coisa parecida”. É assim, simples e rasteira as orientações, longe das metáforas e parábolas bíblicas, o livro é direto, como tem que ser. E não serve só para homens, não. Mulheres também se utilizam dele.

“Mulheres são competitivas, se você quer aumentar o seu número de parceiras sexuais, arranje uma parceira fixa. O cheiro da competição é altamente afrodisíaco”. O mesmo artigo serve para mulheres. Seres humanos são competitivos.

Agora, se você encontrar por aí uma mulher que tenha lido O Livro, cuidado. Muito cuidado.

...

Era porque naqueles dias eu estava meio para baixo, por isso deixei escapar a Kátia (é, mesmo quem conhece O Livro às vezes comete falhas capitais). Quando ela entrou no bar deu de cara com a minha cara de derrotado e desviou caminho. Kátia era uma mulher linda que eu estava há anos dando em cima e nada. Nesse meio tempo Kátia se casou com um cara apagado que sempre fiz questão de não ser amigo dele. Corria o risco da gente ficar amigos, e comer mulher de amigo é um dos pecados mortais escrito na terceira página do estatuto: crime passível de forca ou apedrejamento em praça pública.

Kátia era daquelas mulheres que a gente encasqueta e sonha mesmo até ter filhos juntos. Dona de um sorriso cativante e um humor ácido e estonteante, eu confesso que ficava bobo toda vez que a gente se encontrava.

Não queria que a Kátia me visse lambendo feridas em um bar. Bar não é lugar de lamber feridas. Artigo terceiro.

Para completar a avalanche de coisas que não davam certo, arranjei uma namorada. Linda e cruel. Ninfomaníaca e ciumenta. Os primeiros meses foram de tanto sexo que andava fraco por aí, mal sabia eu que isso era um indício de quem tinha lido O Livro. Esta lá na 25ª página. Artigo 52: para não levar contraataque, castiga em casa.

Márcia era uma mulher desejável. Estávamos juntos ha quase um ano, e as minhas escapadelas precisavam ser cada vez mais precisas. Ela era uma dessas companheiras que faz questão de estar sempre ao lado. Sempre. Mas a qualidade também escondia uma estratégia: o de cão de guarda. Além de todos os meus problemas financeiros, que me impuseram até mesmo a venda do carro e menos idas ao bar, Márcia e Kátia tinham se transformado em um fardo, pesado e maravilhoso.

Márcia adorava realizar minhas mais ousadas fantasias sexuais (ela topava me dividir com outra, desde que participasse do bolo). Ela era uma louca na cama, realmente eu não precisava de mais ninguém. Porém ela estava me transformando em uma ovelha, apagando meus instintos de caça, destreinando-me, adestrando-me. Ela tinha lido O Livro.

A partir de determinado momento, só aparecíamos juntos nos bares. Eu olhava com água na boca os velhos companheiros de caça em suas estratégias: a posição da cadeira na mesa, os gestos, os olhares aquilinos nas presas que saracoteavam ao lado, as investidas. Chegava até mesmo a me divertir com os botes errados dos amigos, e fazia minha avaliação do erro dos outros silenciosamente, contido, ao lado de Márcia e dos casais amigos sentados em nossa mesa.

Márcia não permitia nem uma ingênua ida ao banheiro sozinho. Ela se levantava e ia junto, e na porta, enquanto esperávamos me agarrava e me beijava com lascívia. Somente na ida dela ao banheiro eu conseguia pular um pouco de mesa e rir com os amigos, mas era pouco tempo, logo, logo ela estava do lado rindo também. Dava pena de ver tanta mulher bonita pedindo para ser enganada, e eu posando de casado.

Mas um tigre nunca perde suas listras. (conselho postado no 66ª página d’O Livro).

Nem Kátia nem o marido tinham lido O Livro.

E foi num dia de extremo estresse que ela pipocou no meu msn. Foi só ela dizer um simples “Oi” na tela fria do computador que a transformação começou a se dar em mim. A cada linha de diálogo sentia meu corpo se transfigurando, minhas listras iam voltando, minhas narinas iam inflando para sentir naquela conversa amena o cheiro bom e doce de carne mal passada. Minhas garras feriam o teclado.

A conversa terminou num singelo “tchau, um beijo”. Mas eu sentia que aquele silencio de anos quebrado através do meu monitor, deveria ter um motivo a mais. Kátia não era uma mulher de falar amenidades à toa. Ela sabia o que queria, sempre soube. Só errou em casar com aquele otário.

Artigo 8º: para caças ariscas, busque ficar íntimo sem ser amiguinho. Use de sinceridade visceral. Ouça mais do que fale. Ganhe confiança. Se ela não ceder, Gelo.

Tive que consultar O Livro, pois os dias se passavam e todas as noites à mesma hora eu e ela nos encontrávamos no computador. Quando Márcia estava em casa, eu tinha que usar de alguns artifícios para estar diante do monitor na hora marcada, e me punha a trazer trabalho para casa. Márcia desfilava só de calcinha à minha frente, tomando sorvete diante da televisão, passando pra lá e pra cá de camiseta velha e rebolado estonteante. Isso me desconcentrava do papo com Kátia.

Kátia, do outro lado do monitor, ria de bobagens que eu falava. Contava-me a vida que estava levando, as dificuldades do doutorado que estava enfrentando e finalmente deixou escapar um certo desentendimento com o marido. O suor escorreu pela minha fronte, um frio na barriga subiu. Mas me fiz de desentendido e me contive num simples: “por isso que eu não caso”. Ela pegou a deixa e disse que eu seria um ótimo marido, meus olhos se apertavam diante da tela, minhas presas cresciam, a saliva escorria no canto da boca. Meus instintos estavam tão voltados para o rosto de Kátia na janela do msn que nem percebi a aproximação de Márcia que engatinhava nua por debaixo da mesa. Tomei um susto quando ela abriu meu zíper. Fechei o computador num susto. Márcia também tomou um susto quando percebeu o quanto eu estava excitado e reclamou da minha cueca molhada. “É que eu to te vendo daqui, meu amor, é isso!”, ataquei, mas ela só fingiu que acreditou até se saciar e me questionar: “Não sabia que o trabalho te deixava excitado”.

Os dias foram passando, Kátia foi se entregando mais e os instintos de Márcia também foram evoluindo. Ela não sabia o que era, mas sabia que algo estava acontecendo, mesmo que eu não tivesse mudado em nada. Ou quase nada.

O meu desejo particular por Kátia trouxe de volta o instinto de caça, nem ligava mais se a grana tava curta ou se eu tava prestes a ser demitido por aquele babaca do chefe. Por todo o dia e por toda a noite eu só pensava como eu ia armar o bote para Kátia.

Artigo 32: Nunca ame a sua comida.

Artigo 33: Coma apaixonadamente. Se entregue durante o ato, seja gentil e responsável pela sua presa, primeiro sacie a ela e só depois pense em você. Ligue no outro dia. Nunca dispense uma comida (não se sabe o dia de amanhã).

Artigo 47: Mulheres em crise no casamento são uma das presas mais difíceis. A suposta facilidade esconde atrás de si a carência, um bicho que ficou acuado e que agora quer se soltar, e essa suposta liberdade sempre virá em altas intensidades.

Da frieza do computador, eu e Kátia passamos para as mensagens de textos no celular. Mas elas quase sempre chegavam na presença de Márcia, que já não se contentava quando eu dizia que era a operadora me oferecendo promoções. “Tens muita moral com essa operadora, hein. Ela não te deixa mais em paz”, desconfiava Kátia. Desliguei o aviso de mensagem e continuei me correspondendo. Até que chegou o dia de marcarmos um encontro.

Eu não andava, eu flutuava na expectativa de ter aquela mulher que há anos eu queria nos meus braços. Já sentia por antecipação os beijos daquela boca, os cheiros daquela pele. Mas antes de ir ao encontro, tinha que arranjar uma boa desculpa para Márcia que eu sabia que estaria em casa na hora que eu chegasse do trabalho. Resolvi não confrontar, de manhã, quando eu sai, já levei na mochila uma muda de roupa, ia descolar um lugar para tomar banho na rua mesmo. Nem me importei com o ônibus lotado naquele dia, o esfrega-esfrega do lotação amassava toda a minha roupa e me despenteava os cabelos, mas a esperança de reencontrar de novo aquela deusa era mais forte. Meu coração estava aos pulos.

À noite, depois que deixei o trabalho, tratei de ligar pra Márcia e inventar uma desculpa. Mas me ative em dizer somente que ia chegar tarde em casa, ela que me esperasse lá, pois aí eu também garantiria que ela não estaria na rua atrás de mim.

O banho foi na casa do Sales mesmo, ele inventou para a mulher dele que em casa tinha faltado água e me joguei no banheiro. Tomei um banho demorado, me perfumei com o que o Sales tinha e ainda passei minha roupa antes de deixar a casa do casal sob os olhares desconfiados da mulher dele.

Marquei com Kátia em um barzinho despintado, que eu nunca tinha ido, mas sabia que era limpeza. A Márcia jamais me procuraria ali.ninguém me procuraria ali, era um bar de play, de gente só estampa, dos nascido na década do nada, dos que gastam no som do carro para compensar o tamanho ínfimo do pau. Mas era um lugar com três ambientes e tinha um à meia luz para quem não quer ser descoberto. Foi pra lá que eu levei Kátia, assim que ela chegou, uma hora e meia atrasada.

Pedi um vinho, não seria a minha falta de grana que atrapalharia aquele momento, ela tomou, falou do passado, eu ouvi, falou do presente, eu ouvi, falou do futuro, eu ouvia, eu olhava, eu me admirava, eu participava, eu pensava, eu só pensava na hora do ataque, até aquele momento não tinha rolado nenhuma deixa, ela fala e falava e falava. E eu com o artigo 8º na cabeça. “Diante de mulheres carentes, seja um bom ouvinte. Mulheres adoram anunciar para as amigas que encontrou um homem delicado, educado, que escuta seus problemas e participa das soluções”

Artigo 9º. “Afie seus instintos para perceber quando uma mulher quer desesperadamente ouvir mentirinhas agradáveis”.

E ataquei. Já ia pela metade do vinho quando eu disse que eu estava esperando esse tempo toda por ela. Ela enrubesceu. Mas respondeu: não é o que eu ouço, sempre soube que você era um conquistar contumaz. Respondi, mas isso não se aplica a ti. Se eu fosse só um conquistador barato, eu já teria desencanado de ti (gosto de usar o verbo na terceira pessoa por que ele dá um clima de mais intimidade). Eu te vi casar, sofri com isso, e hoje eu te vi entrar nesse bar e fiquei gelado, não sinto isso por todas as mulheres, pode acreditar. Pra mim, tu não és só uma mulher, pra mim tu és uma paixão que me acende, que me devolve os instintos mais básicos da adolescência de um homem. Eu me sinto um menino do teu lado.

Artigo 10º. Fale olhando no olho. Amacie sua voz, torne-a agradável. Diga uma sucessão de frases curtas contendo o que uma mulher deseja ouvir.

Kátia calou. Baixou os olhos. Bebeu o resto do copo de vinho de uma única golada. Mexeu no cabelo. Pegou o lenço de papel e secou os lábios. (se ela mostrar inquietação é porque você está chegando muito perto. Está no caminho certo). Tu sabes que eu não deveria estar aqui né? (Outro indício que você está chegando perto é o movimento “espelho”, ela começa a falar com você na sua linguagem, o próximo passo será repetir os mesmos gestos). Mas é que minha vida, ela continuou, ta de cabeça pra baixo. Nem sei se fiz o certo vindo aqui, eu sabia que tu ias tentar me cantar. (sinal vermelho, mulheres casadas, confusas, podem se arrepender depois do ato e chorar no motel. É melhor recuar e deixar para ela os próximos passos.) Eu não estou dando em cima de ti, eu disse, só estou sendo sincero. Desculpa minha falta de jeito. Isso não vai mais se repetir, tentei encerrar o assunto.

Então Kátia fez o que todo ser humano faria quando precisa parecer importante para alguém e para si mesmo, puxou outros assuntos, mas caprichou no charme. Ela usava palavras que, ao dizer, tornavam a boca mais sexy, mexia no cabelo com delicadeza, usava gestuais claramente pensados para deixá-la mais atraente e fixava os olhos em mim.

O artigo 11º diz: “Se a mulher casada estiver sem muita confiança no que está prestes a fazer, seja a vítima. Deixe que ela se sinta tomando as rédeas da conquista. Encabule-se”. Acompanhei o livro. Eu desviar o olhar. A cada vez que o assunto poderia ter uma deixa para que eu entrasse com uma cantada eu me atinha em rir somente. Então ela não agüentou mais e deu sentido ao artigo 12º: “Ao ver você com um certo ar tímido, ela tomará uma atitude. Se ela não fizer isso, não vale a pena, guarde seus instintos pague a conta e saia com a certeza que evitou uma noite sofrível”. Mas Kátia não seria tão ingênua assim, ela queria ser amada, cortejada, mais que isso, ela merecia ser corteja e amada como uma mulher daquele porte exige, e quando menos eu esperava eu se aproximou de mim e disse: estou pronta pra correr atrás do tempo perdido.

O que se sucedeu a partir dessa frase? acho que eu não conseguiria traduzir em palavras. Só sei dizer que foi o máximo, eu realmente nutria uma paixão por Kátia, tê-la na cama, disposta e disponível me dava a sensação de missão cumprida, negando um dos últimos artigos d’O Livro: “Nunca pense que você já comeu todas as mulheres que desejou. Sua vida acabará. É necessário sempre haver alguém mais para tornar a fazer sentido o instinto de caça. Se acaso você pensar assim estando com uma mulher, ou você está velho demais ou você finalmente se domesticou e esse livro não lhe servirá mais para nada. Passe-o adiante”.

Ao olhar no espelho nossos corpos entrelaçados eu quase explodia de felicidade, ao testemunhar aquela mulher tendo um orgasmo meu peito pulsava em um ritmo nunca sentido. Realmente aquela mulher mexia comigo. Tanto, tanto, que nem sequer me preparei para gozar e quando percebi eu já estava ali gemendo, arfando agarrado àquele corpo, beijando aquela boca, envolto aos cabelos desgrenhados e suados de Kátia. Eu realmente tive um orgasmo. Meu corpo tremeu, eu me entreguei. Rasguei O Livro. “artigo 38º: Ao gozar, tente não perder totalmente os sentidos. É um momento bom para dizer palavras que deixe sua parceira orgulhosa de estar na cama com você. Emende palavras bonitas com palavras desconexas. Mostre a ela que você está orgulhoso e feliz de estar com ela”.

Kátia me deixou na esquina de casa às 3hs. Entrei em casa rezando para que Márcia estive ido embora, eu queria curtir aquele momento do “pós” sozinho, deitado quieto, esperando o “descanso do guerreiro”. Mas não, Márcia estava lá, e acordada.

Artigo 29º (para os casados): Em nenhuma guerra a frase “A melhor defesa é o ataque” se enquadra melhor do que na guerra conjugal. Se sua mulher reclamar de qualquer de suas ações suspeitas, magoe-se. Mostre-se ofendido. Reclame da falta de confiança da parceira. Não esmoreça. E sobretudo, lembre-se da primeira página: NEGUE. SEMPRE!

Foi o que fiz, o foi o que fez Márcia se acalmar e me deixar quieto. Armei uma rede na sala e deixei-a no quarto remoendo a falseta que acabara de fazer comigo. Adormeci pensando em Kátia.

Cheguei cedo e disposto no trabalho. Sob os olhares ansiosos do Sales sentei na minha mesa e tamborilei um sambinha. Não demorou para que Sales metesse a cara por cima do computador. “me conta”, disse ele. Contei. Contei com brilho nos olhos, sorrisos nos lábios e gestos tão largos que chamou a atenção dos outros canalhas. O que ta acontecendo aí, O Fagundes perguntou se juntando a nós, O cara tá apaixonado, o Sales respondeu fazendo troça do meu companheirismo em contar. Mas assumi, é isso. Isso mesmo, esse velho tigre está sob a sombra com um banquete ao alcance das patas. Isso vai dar merda, disse o Fagundes, sempre com um tom pessimista sobre as mulheres, se a Márcia descobrir tu estas morto. Isso era verdade.

Esperei bater as 10hs para mandar uma mensagem pelo celular para Kátia, ela não demorou a responder, em tom bem humorado. Ótimo, a noite valeu a pena para os dois. Artigo 53º: “A importância de ligar no “outro dia” não está em fazer ela achar que a noite foi importante, mas em você ter certeza de que sua performance foi boa. O tom e o nível de felicidade de sua presa é no que você tem que se ligar”.

Minhas férias iam chegando, e achei que Márcia não precisava saber disso. Mas seria ótimo uma viagem de “negócios” com Kátia. Foi o que fiz, anunciei para Márcia que precisava passar uns dias fora para resolver coisas do escritório e combinei com Kátia três dias de felicidade no Arquipélago do Marajó. “que história é essa de viagem? Desde quando tu és escalado para viajar na tua empresa”, Márcia protestou sentindo cheiro de outra fêmea na savana. “Tu não estais percebendo,mas estou crescendo naquela empresa de merda. Meu chefe é um otário, mas ele não pode deixar de perceber que eu sou competente”, encerrei o assunto, arrumei as malas e fui ter meu pedaço de paraíso nesse plano espiritual. Kátia disse em casa que precisava fazer uma pesquisa para o doutorado. Na verdade eu não perguntava nada para Kátia sobre seu relacionamento, se ela quisesse que me dissesse, mas ela era uma dama, sempre reservada e fazia questão de não expor o marido para o amante, gostava disso.

Três dias depois voltamos. Márcia não estava em casa, para ser sincero, nem senti falta, incorrendo no artigo 52º : A não ser que você esteja disposto a trocar de parceira, não deixe faltar afeto, atenção e sexo em casa. As mulheres sabem que isso só acontece por causa de outra e isso acende nelas o instinto de competição. Elas não agüentam achar que existe outra mulher melhor do que ela.

Mais dois dias liguei para Márcia, ela atendeu fria, perguntou por que não liguei antes, e disse que acabei ficando por lá mais do que gostaria. Uma mentira fraca. Aliás, quando um homem está empolgado com outra mulher começa a achar que qualquer mentira que diga a sua companheira vai colar. Esse é um erro fatal. Artigo 50º: A mentira bem elaborada é um sinal de inteligência, que tende a enfraquecer pela paixão ou empolgação para com outra mulher. Lembre-se que o sinal de bom princípio de um canalha é deixar sua parceira sempre bem, para isso servem as mentiras, ou verdades inventadas, para melhor dizer. Não deixe dissabores para sua companheira.

Márcia ligou o sinal de alerta total. Passou a escavacar meu computador, olhar meus bolsos, se ligar mais no meu cheiro e, sobretudo, no meu apetite sexual. Eu me encontrava quase todas as manhãs de minhas férias com Kátia, íamos a um motel, almoçávamos juntos e riamos de tudo como dois maconheiros idiotas. Era o céu. Eu pisava em nuvens.

Mas um dia isso acabou.

Sem muita explicação, Kátia decidiu ficar cada vez mais sem tempo para nós. Um dia sem muita graça recebi um e-mail de Kátia explicando os motivos de seu afastamento e decretando nosso fim. Ela dizia estar muito envolvida comigo, que se preocupava de onde ia chegar aquela história, que estava confusa em jogar mesmo o casamento para o espaço e que gostaria de pensar sozinha. E que seria melhor não nos vermos mais.

Fiquei de luto.

Fiquei puto.

Eu estava sendo sincero mesmo com ela, havia jogado O Livro de lado. Estava me doando, queria viver aquilo intensamente. Não estava preparado para aquilo ter um fim tão abrupto. Adoeci de desejo. Tive até febre. O feitiço havia virado contra o feiticeiro, eu realmente havia voltado a ser criança.

Márcia chegou a se preocupar com minha falta de apetite com a vida. Me levava em bares, cinemas, mas tudo era realmente cinza ante os meus olhos.

Minhas férias acabaram. Voltei para o trabalho com olheiras. Um leão ferido. O pessoal inquiriu o porquê, eu disse apenas que a praga do chefe tinha pegado e que eu passara todas as férias doente.

Mas o tempo foi passando e sem notícias de Kátia, Márcia foi importante na minha recuperação. Voltei à vida. Voltei à Márcia, voltamos à vida.

Porém, como uma boa caçadora, Márcia ainda tinha assuntos para passar à limpo. E num lance de quem tem O Livro na cabeça, Márcia armou o bote.

Numa noite, ao chegar em casa, uma surpresa: mesa posta, velas, arranjos de panos sobre as paredes, um tapete vermelho desenha os passos que eu deveria dar e desenhava um caminho da porta de entrada até a cabeceira da mesa. Um cheiro olor de perfume se misturava ao cheiro de assado do prato que estava sobre a mesa. Uma música suave. Fui entrando, seguindo o tapete, larguei minha pasta no sofá e sentei à mesa. Márcia apareceu vestida com um provocante vestido branco com um decote que deixa seus seios fartos quase à mostra e que descia até o meio das pernas morenas e bem torneadas. Ela vinha trazendo uma garrafa de vinho nas mãos e abriu bem próximo de mim. “hoje você vai ter um banquete”, anunciou. Tentei pular em cima dela, mas ela pediu calma. “A comida da mesa pode esfriar, a comida aqui não esfria nunca”, disse com uma cara sem vergonha, movendo os lábios vermelhos delicadamente.

Comi afoito pensando na sobremesa. Bebemos vinhos. Rimos. “espera que vou buscar a sobremesa”, disse ela. Foi à geladeira pegou um sorvete depositou sobre a mesa. “Mas calma, não é para comer de colher”, avisou. Foi até o som, colocou uma música provocante, e fez um strip tease que quase me da uma congestão. Sobre o vestido uma combinação com calcinha branca quase me fez gozar só de assistir, enquanto eu estava sentado no sofá assistindo aquela deus se despir, ela pegou o sorvete e começou a passar no corpo, e finalmente, sentenciou: vem!

Fizemos amor feito louco. Sim, fizemos amor. Eu gostava dela também, e ela me fazia sentir o peito tão abalado quanto Kátia. Nosso encaixe era perfeito e suas fantasias eram as mais ousadas, se eu não me concentrasse era capaz de ir primeiro que ela.

Finalmente quando nossos corpos suaram, se extasiaram, se cansaram, mas cansaram daquele jeito que o cérebro vira uma geléia, ela abriu a 110º página d’O Livro e declamou: “Sabe, eu te gosto tanto. Acho que nossa história é tão especial que nada abalaria o que a gente é.por que chega um tempo que sexo é importante, mas quando a gente pula essa fase a gente se depara com nós e com o outro, e com a percepção de que há muitas coisas nesse mundo que podem conflitar com um casal de companheiros. Tai, a gente é mais do que um casal, a gente é companheiro, no sentido mais profundo da palavra, e companheiro é isso, é sempre estar ao lado, agüentar firme as situações mais difíceis, mais dolorosas...

Enquanto ela falava eu alisava seu corpo moreno gostando de ouvir suas declarações, não pensava em absolutamente nada. Eu gostava de estar com ela e estava com ela, tinha passado por uma provação com Kátia, mas estava de novo com ela...

Enquanto isso ela discorria O Livro: pegou mais um copo de vinho e continuou: “...acho que o que a gente sente pelo outro suportaria até mesmo uma pulada de cerca. Porque sei que a gente sente desejos, não é por star com outro que a gente perde nossos instintos...”

E eu estava tão frágil e tão feliz, que caí como um patinho. O pensamento em Kátia se tornou mais presente e mais presente também um certo sentimento de culpa, não por ter traído aquela mulher, por ter sentido que fui desleal com ela. E abre o jogo.

Olha, eu tenho uma coisa pra te dizer: ...

Nunca mais vi Márcia. Nem Kátia.

Aprendi minha lição: Para se entender toda a história, é preciso saber que a primeira parte de um livro determinará o final.

sábado, 4 de setembro de 2010

tem coisas que só as imagens podem falar



SABE DE ONDE TIRARAM O PERSONAGEM DO PALHAÇO DOS SIMPSONS??


ERA SÓ UMA SEQUENCIA EM UM CIRCO. OLHA COMO A EQUIPE DE CÂMERA FOI.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010










Hoje eu tenho muita coisa pra falar, esses dois dias em que passei sem foram muitos emocionantes e tão repletos que tive que dar um tempo para poder digerir, antes de relatar.
Mas antes algumas explicações: algumas pessoas que tem freqüentado o blog andam reclamando que eu to escrevendo muito errado, que tenho salpicado vírgulas pelo texto e até mesmo que to usando muitos palavrões. Tudo bem, entendo as reclamações, mas gostaria também de contar com um pouco mais de paciência de vocês. Às vezes escrevo assim que chego do set, com mil palavras rondando minha mente, com as imagens frescas ainda nas minhas retinas e quero falar, falar e falar, e desse jeito vou inventando idiomas, desvirgulando frases, aÇassinando a gramática (agora foi uma brincadeira hein). Peço licença para errar meus caros leitores. Mas gosto das reclamações, postem seus comentário para eu sentir o feed back. Quanto ao palavrão, sei que ás vezes fica demais, mas outras vezes só um palavrão consegue conter a intensidade necessária da emoção do que quero dizer. Mas vou maneirar.
HOJE FOI MAIS UM DIA DE AULAS DO MESTRE GERO CAMILO. Que facilidade que o cara tem de representar!!! Impressionante, e ter um diretor como o Beto Brant ajuda em muito a performance do ator, uma vez que ele deixa o caminho livre, cria junto, muda a cena, compõe a muitas mãos. Não me canso de elogiar a equipe. Lula Araújo também é um grande parceiro, entende o diretor, embarca na onda, e com sua alegria contagiante vai deixando o set cada vez mais leve. Esse filme é de ator. E pra ser um filme de ator, precisa ter um diretor competente e uma equipe sensível. É o que está acontecendo.
Hoje foi o último dia do Gero Camilo no set. vai ter champanha no final. Tive que sair antes de terminar a diária hoje, não participarei da festinha. Mas já me sinto recompensado. Só de ver o Gero em cena é uma aula prática de como fazer cinema com personalidade. Esse filme ta ficando lindo.
Na seqüências de hoje, Vicktor Laurence, próximo do seu suicídio resolve sacanear com Cauby ao mostrar as fotos nuas de Lavínia roubadas da casa do fotógrafo. No roteiro, a cena aconteceria em seu escritório. Mas nas mãos do Beto...
Como a casa tem uma piscina seca, o Beto decidiu levar a cena pra lá. Pra ficar mais surreal, o Gero havia escrito um texto sobre a Lavínia, o Beto incluiu na cena, e a cena ficou escandalosa. Os dois fumam maconha dentro da piscina seca, enquanto Vicktor declama seu poema para Cauby, daí ele mostra o motivo de sua inspiração Cauby fica puto e preocupado, porque seu “segredo” está sendo descoberto e vai embora, e o Vickto/Gero termina a cena com a frase “Santa é a carne que peca”.
A cena foi exaustivamente ensaiada. Chagamos no set ás 20hs, jantamos, e fomos ao ensaio. 21:30h começaram os ensaios, a cena só começou a ser rodada á 1h. cerca de oito takes depois, a cena terminava com todo o set aplaudindo a performance. Tiramos fotos de equipe e tudo.
O Beto é o tipo de diretor que cuida de cada cena, quer sempre o melhor, não adianta o take meia boca. Cada take tem que ser sofisticado, um olho no trabalho dos atores, outro lho no movimento de câmera. 3:45m de plano seqüências, a cada take terminado o Lula Araújo saia estafado, pedia água e quando todos achavam que ele ia sentar um pouco, ele começa a dançar a dança do sapinho. (daqui a pouco eu conto o que é isso. Não, vou contar logo)
O papai Lulinha, como ele é chamado, se juntou com o maluco do Akira e compuseram algumas músicas. A melhor, na minha opinião, é a Daca do sapinho. A letra é: “Eu tava no meu lugar/ veio uma moça me procurar/ a mamãe disse que isso tudo pode dar/ sapinho/ sapinho/ sapinho/ muitaquitã/ muiraquitã/ muiraquitã/ sapinho”, o Lula dançando isso é de cair no chão de tanto rir. Hoje acordei com essa música na cabeça. Hahahahahaha.
Juntos, os compositores ainda fizeram uma música para lavinha (La vinha ela/ lá vinha ela...) Hilário!. Empolgante! É nesse clima que a gente trabalha. Que tal?.
Voltando ao Gero.
Anteontem rodamos a cena em que ele lê sua carta-testamento-crônica. Essa cena arrancou lágrimas da equipe. Vamos começar por aí. 17hs, o Beto ligou pro meu quarto e me convidou para ir ao ensaio. O set só abriria ás 20hs. Ensaiamos um pouco, mas rendeu pouco. O Beto confessou que estava com o raciocínio lento, que tinha dormido muito, e propôs jantar e depois continuarmos o ensaio. Depois do jantar ele esquentou. 21h e recomeçamos o ensaio, o Beto mandou toda a equipe voltar para o hotel, queria tempo, queria paz, queria distensionar. Ficamos a sós com o Gero e o Gustavo na cena. E era assim: o Beto provocava e o Gero ia. Na cena havia uma garrafa de absinto que deveria ser usada na cena, era absinto mesmo. O clima foi subindo. Beto e Gero estavam impossíveis. Na cena deveria ser dito alguns aforismos do Oscar Wide, mas não estavam se encaixando, então o Beto falou “Esse cara é um chato. Vamos esquecer ele. Vai falando o que vier à tua cabeça, Gero”. O que vinha á cabeça do Gero era poesia pura. Uma maluquice. 00h, o Beto mandou ligar para toda a equipe voltar ao set. uma hora de pré-light, e a cena recomeçava. Eram 8:45m de plano seqüências. Pauleira. Perdi as contas dos takes, o Lula suava em bicas, mas valente, pegava o Sted e mandava bala. Enfim, quando a cena ficou pronta, fomos revisar. Ao final, todos estavam com os olhos marejados, até o Gero. Aplausos. Euforia. Fechamos o set. fomos até a base e rolou muita cerveja, brindes. Alegria. Fomos direto ao café da manhã e depois um dia todo de sono.
No sábado rodamos a cena que é passagem para o flash back que contará a história da Lavínia. A cena mostra Caubu andando bêbado pelas ruas escuras, ao passar por uma encruzilhada, um índio de MP3 sai do escuro e cruza com ele, Cauby nem sabe se é alucinação ou não, entra no breu da rua e cortamos para uma rua do Rio de Janeiro, o baixo meretrício para encontrar Lavínia drogada e prostituída.
Cena simples de fazer, mas que o Beto transformou em mais um espetáculo.
Espetáculo de generosidade.
O índio que escolhemos para a cena é um da tribo dos Boraris, Poro. Essa tribo, e mais especificamente esse índio, estão numa luta ferrenha contra uns madeireiros e uma mineradora e mais o Governo Federal. Eles queres a redemarcação de sua terras, querem expulsar os madeireiros que estão destruindo o lugar e a mineradora que está invadindo mesmo suas terras.
A cena estava marcada para acontecer na quinta-feira. Ás 15hs fiquei sabendo que o Poro não viria filmar. Estava em Altamira, numa reunião com o exército, só voltaria a Santarém na sexta. Fiquei em pânico, corri para produzir outro índio. Tinha mais dois em meu casting e mandei por e-mail para o Beto e o Renatão aprovarem. Ás 19hs, nenhuma resposta dos dois. Não sabia o que fazer, o set abriria em uma hora. Então foi falar com o Beto. E ele me deu mais uma aula:
“Desculpa Adrianão, eu não consegui abrir mão do Poro. O cara ta lá, numa puta batalha pelas suas terras. O mínimo que eu posso fazer é colocar o cara no filme. Se ele não pode hoje, a gente derruba a seqüências. Vamos rodar quando ele puder”. Calei. Fiquei pensativo. Atordoado, sou de uma escola de cinema que foda-se o mundo, o plano é mais importante. E de repente, o plano muda por conta de um figurante. Jantei com esse choque. Compreendi. Achei perfeito. O máximo.
Sexta-feira a produção pagou hotel para o Poro se hospedar, sábados fomos rodar a cena, na madrugada, o Poro curtiu, o Beto fez quatro takes até a cena ficar como ele queria.
No início da noturna filmamos a cena de apresentação do Chico Chagas. Quando Cauby anda pelas ruas e encontra Chico Chagas com o carro no prego, e dá uma força a ele começando uma grande amizade.
Armamos a cena em uma rua que estava tendo um aniversário, os 80 anos de Seu Diquito. Como fazer naquela barulheira? Simples. Nos misturamos a eles, fomos lá, parabenizamos o Seu Diquito e fizermos rapidamente um pacto: na hora de rodar, eles desligam o som, em troca eles assistem a cena. “Adoro quando acontece isso. O set aberto. Toda a equipe na frente do vídeo-assiste. Curtindo o que a gente ta fazendo.
Esse é Beto Brant.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Alucinações

Exatamente hoje lembrei que falta um mês para voltar pra casa. tenho saudades de minha casa, da minha baixinha, dos moleques. do meu quintal. ando meio macambuzio, é verdade. talvez o cansaço, talvez a distância mesmo de casa. pode parecer um contracenso, mas eu sou muito caseiro. não no sentido de ficar trancado em casa, mas no sentido de ter pra onde voltar. eu e monalisa temos olhado mais pra nossa casa. ajeitando, colocando coisinhas em seus lugares, imprimindo nossa personalidade na casa, um lugar onde os meninos curtem um bocado.
Para se ter uma idéia da minha loucura, passei dois dias em alter do chão e quando retornei ao hotel, deitei na cama e pensei: finalmente to em casa.
Depois da batalho dos 300 de ontem, o dia de hoje pode ser considerado light. rodamos uma alucinação do Cauby entre um grupo de carimbó. a sequencia é a continuação da de ontem. depois de ver Lavínia com o marido, Cauby vai a casa de seu amigo Vicktor Laurence e toma um porre de absinto, ao andar pelas ruas desertas, ele ouve um som de carimbó vindo ao longe e quando passa por um terreiro vê um grupo de carimbó evoluindo. a cena vai ser trabalhada na finalização para que tudo se confunda entre realidade e alucinação.
Ah, sim. no início da noite, Camila Pitanga apareceu enquanto o grupo ensaiava (de verdade) para uma disputa que vai haver de manhã. advinha o que aconteceu? no inicio tava tranquilo, somente alguns curiosos, mas foi só um flash pipocar que começou o tumulto. o pessoal começou a avançar, e a Camila foi gentilmente convidada a deixar o set.
Depois disso conseguimos limpar o set e deixar somente o grupo de carimbó. rodamos tres takes com Lula Araújo serpenteando com a penélope (câmera) entre as meninas, e que balançado. as meninas são umas diabas, dançam lindamente num balanço que parece a maresia do rio. a cena ficou linda mesmo.
A sequencia e o alvoroço de ontem ainda estava na nossa memória. hoje no café da manhã, a Camila ainda comentava estupefata o que rolou ontem. no início levamos a sério, mas, claro, tudo virou sacanagem em nossos comentários, e cada um contava a sua versão do que tinha visto no tumulto de ontem. demos boas gargalhadas. a melhor veio da própria Camila. "Uma mocinha se aproximou de mim e disse, com convicção: um dia a gente ainda vai contracenar juntas. eu respondi: estou torcendo por isso, amiga. e ela começou a desfazer a cara de convicção e um choro foi transfigurando o rosto dela e ela saiu correndo no meio da praça" sensacional.
No jantar, eu e o beto comentávamos a cena. eu estava preocupado se tinha salvado o plano, e ela me disse que o segundo take foi o melhor. ele me confesou que errou na estratégia, ficou meio agoniado e quase em pânico finalizou a sequencia. só relaxou mesmo hoje a tarde quando revisou o plano e percebeu que um take todo valeu. uma base de 3min de plano. que bom, eu pensei.
foi a primeira vez que vi o beto preocupado com o resultado de uma sequencia rodada.
agora estou só no hotel. na tv um cara com cara de nerd, diz que é artista plástico que pinta baratas. uma sucessão de baratas em close na Tv. em frente a Tv um chocolate mordido pela metade está cheio de formigas. tenho tentado transformar o meu quarto de hotel. preguei papeis na parede, um rolo de negativo, uma foto dos meninos. comprei uma orquídea na feira de artesanato. acho que ela não vai durar muito tempo.
tá tudo estranho hoje
muito estranho.
vou beber.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A batalha dos 300 -part 2



Não, meu amigos. isso não é um show da Joelma, do Kalipso, é só o final da batalha dos 300 de hoje a noite. Camila Pitanga causou histeria em santarém, e foi de uma hora pra outra. como diz a Dira "Tudo vai calma, basta um pra gritar e tudo vra histeria", foi o que a conteceu hoje. o resultado dessa batalha pra mim, foi o pé inchado, claro, muitos socos nas costas, arranhões, o já famoso "sai daí, negão" e algumas pessoas da galera feridas. uma loucura. a guerra que a gente tava esperando. mas isso foi só o final da batalha.
desde as 14hs estava eu e Livea na base do elenco para receber a figuração, que pingava, pingava, pingava. cada pessoa que chegava a gente cadastrava, pegava a assinatura e mantinha-o na base. 15:35h pouco mais de 50 figurantes em nossa base. tudo começava a me preocupar.
Enquanto eu estava no palco com a D. Onete e os musicos do Chico Malta, pelo rádio eu ouvia a Livea mandando contagens novas. "Nós não iamos chegar aos 300", faltava pouco menos de uma hora pra gente começar a rodar e nossa contagem não chegava a cem. o ônibus que a gente mandou para o pessoas co carimbó trazia apenas 60 pessoas das quase 100 que a gente contabilizava. fudeu-se. pensei. mas...
enquanto isso na praça, muitos curiosos se aglomeravam. por varias vezes conversei com as pessoas sobre o que estava acontecendo ali. mas a noticia que a camila pitanga estaria naquela cena se espelhava. e se espalhava. e teve uma hora que tive que confirmar, mas pedi a compreensão de todos "Por favor sem fotos, nem autógrafos, voces todos estao convidados para a festa. vamos curtir".
porra nenhuma. todos me enganaram. disseram: tudo bem, claro, por que não. Me fuderam.
Na hora de rodar, a idéia era colocar nossa figuração proximo à Camila e o Zecarlo para "defende-la do assedio", qual o que. tudo se misturar. a gente tentou segurar o povão e trazer nossa figuração, mas virou uma cagada. todo mundo avançou, misturou tudo, e no primeiro take, todo mundo olhava pra câmera, olha pra ela, todo mundo espremia ela, a câmera não a encotrava naquele mar de cabeças. uma merda
uma grande merda. Eu tava no video-assiste, eo beto olhou pra mim e disse: porque você colocou "aquele cara alto do lado da camila. ta uma merda isso". nem tentei me justificar. peguei o esporro calado, e corri pro lado da camila tentar organizar. Não adiantaria nada eu dizer que a galera avançou. a gente tava rodando na tal "hora mágica", no pôr do sol, e não tinhamos muito tempo de justificativas. tinhamos um tempo determinado pela natureza para fazer valer a cena.
fomos por fuda-se. fui lá, organizei o pessoal, briguei com alguns, tirei as pessoas com maquinas fotograficas escondidas e dixei a Livea, minha assistente, abaixada dolado da camila para ir tirando a galera que ia chegando. a propria camila tambe´m ajudou, posicionando alguns figurantes, com toda a educação e charme.
Rodamos tres takes, o ultimo foi legal. o sol ia se pondo, a luz caindo, o Lula Araujo entao decidiu abusar da luz que tinha e saiu serpenteando no meio do povo, usando todo o negativo, toda a luz que a natureza nos dava, atras da câmera o balé doa assistencia da direção, produção e minha era ridiculo, todo mundo se jogando no chao na hora que o Lula fazia um movimento brusco com o sted e virava em nossa direçao.
enquanto isso, D. Onete arrebentava no palco, mandando ver bacanerrimo.
A Luz caiu totalmente. o ultimo plano dá pra se salvar. camila dispensada.
mas...
houve um erro estratégico.
ao inves dela sair em direção à nossa base, ela acabou ficando espremida em uma das barracas de lanche do outro lado da praça, e a multidao começou a se concentrar ali. como tirar ela de cena?
à força! foi a resposta.
lêdo engano, mas contei com a força do Aldão, o cara da elétrica, paraense também, que saiu abrindo caminho enquanto eu e alguns motoristas iamos tentando fazer um cordao ridiculo atras.
peguei muito soco, arranhos, puxoes, chutes, etc ate chegarmos na base.
ao chegarmos na base, ela entrou e eu fiquei tentando conter as pessoas, que choravam, imploravam pra vê-la, fotografá-la. porra nunca passei por isso. subi e fui ter com ela. ela tava mal, tambem nunca tinha passado por isso, não tava se sentindo bem com a situação. ela achava que estava destratando as pessoas, estava acuada, amuada. assustada. triste.
De repente, o Beto e ela tem a idéia de ir até o palco, onde Chico Malta ainda tocava para agradecer o carinho do publico. "caralho que idéia genial" que merda. la ia eu me fuder de novo.
e foi assim, ela foi para a sacada da base (uma casa altos e baixos) para ser fotografada e atrair o povo para o outro lado da van, que estava estacionada diante da casa, enquanto os policiais faziam um cordao pra ela sair.
ela saiu, em meio aos empurrões histéricos.
paramos a van ao lado do palco ela desceu. mais empurrões, socos, arranhos e ponta-pés. subiu no palco. mais histeria. todos queriam fotografa-las, eu e o pessoal do platô, mais motoristas tentamos conter a multidão, ela pegou o microfone, agradeceu, falou com o povo, em meio à explosões de flashes e tentativas de subir no palco. ela resolveu dançar carimbó ao som do chico malta e puxou algumas pessoas para dançar com ela. fudeu pra nós, todos queriam subir no palco. empurra-purra. a merda da policia só olhava, talvez extasiados com a beleza dela também, e comendo mosca. filhos-da-puta.
por fim, acabou o show particular e à muito custo conseguimos colocá-la dentro da van e mandá-la pro hotel. o pessoal protestou, reclamou, me inquiriu, mas ainda tinhamos mais uma sequencia para rodar, na casa de vicktor laurence. o pessoal foi dispersando. fui sentar em um bar e contabilizar os ematomas do dia. pedi uma cerveja, duas.

ESSE POST BEM QUE PODERIA SE CHAMAR "EU ODEIO CAMILA PITANGA"

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Eu receberia... part 4

To Bêbado, antão vou escrever pouco... sei lá.

Hoje vimos o primeiro copião do filme. caralho. ca-ra-lho! todo o astral do beto, do renas, da equipe tá lá. vimos uma cópia telecinada dos tres primeiros dias, sem nenhum tratamento. e tá lindo. sério mesmo. toda a equipe vibrou. a exibição foi no cine Polozzi, toda a equipe tava lá, vibrando a cada cena, aplaudindo. a exibição (12 min) cortado já pela Simone Elias (assistente de direção) foi comemorada. todo mundo saiu de lá excitado. e uma parte foi pro quarto do Renas.
Eu, Beto, renas, camila Pitanga, Gero camilo, ZeCarlos Machado, Bianca Vilar e Gustavo Machado, regatos a muita cerveja comentávamos o resultado do que foi telecinado e discutimos o que virá ainda. no meio da noitada, o Gero Camilo mostrou pra nós o que ele escreveu como uma espécie de carta testamento de seu personagem. caralho! o cara é foda! como o personagem dele é jornalista, e sabe do caso dos dois personagens principais, ele escreve uma crônica sobre o caso dos dois (que será responsável por incriminar de vez Cauby do assassinato do pastor) citando Gauguin, Verlaine, e toda a erudição de seu personagem (que também é dele). advinha o que aconteceu?
O Beto meteu a mão no roteiro e derrubou a cena do cemitério. no roteiro original, o vicktor Laurence se suicida e deixa toda a sua biblioteca para a cidade. em seu enterro, os munícipes falam sobre a importancia daquele dândi. Mas o texto que o Gero leu hoje pra gente é tao mais interessante, fala tão mais do personagem, que o Beto decidiu mudar o roteiro, e, ao invés, de mostrar aquela sequencia lógica do cemitério, o personagem fala sua carta-testamento-crônica para o espectador, direto para a câmera, amarra uma corda no pescoço e... corta.
bem melhor.
muito melhor.
caíram os 30 figurantes que eu estou correndo pra produzir na sequencia de sexta feira. o filme ganhou mais, ficou mais lindo, o personagem do gero ficou mais profundo. o filme pulsa, meua s amigos, pulsa.
du caralho, vão se fuder.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Eu receberia... part 3 - 9-8-2010

A batalha dos 300.

Hoje o dia foi moleza pra mim. Fui destacado para acompanhar a D. Onete a Alter do Chão, desculpa aí. rsrsrsr. D. Onete foi escalada para o filme para fazer uma sequencia de um show que acontece na praça da cidade fictícia que estamos montando (através de recortes de santarém) onde Cauby vê Lavínia junto com o seu Marido, o pastor. morrendo de ciúmes vai a casa da Victor Laurence e toma uma porre.
D. Onete foi escolhida por ser a mulher forte que é. produzi aqui em santarém uns músicos para acompanhá-la, o figuraça do Chico Malta, grande compositor de Alter do Chão. ela chegou a santarém na madrugada de ontem e hoje vim para Alter do Chão acompanhar os ensaios, que continuam amanhã pela manhã, á tarde voltaremos para Santarém e na quarta feira filmaremos a sequencia. sequencia que ficou conhecida por nós como a batalha dos 300.
Batalha porque tive que produzir 300 figurantes para esta sequencia, uma missão nada fácil pois enfrentamos algumas muitas dificuldades. primeiro, por comando do Beto Brant não podemos divulgar na imprensa nada o que faremos por aqui, para não despertar a curiosidade das pessoas. as entrevistas só serão concedidas no meio deste mês. então meu trabalho teve que começar pelo boca a boca. primeiro entre os grupos de teatro da cidade, depois pelos dançarinos de carimbó, depois com os grupos de idosos e depois ainda através dos amigos que fizemos por aqui. foram momentos de tensão. eu e minha equipe passamos desde sexta feira correndo para produzir os 300 figurantes que ainda tinha que ter uma proporção entre homens e mulheres, jovens, adultos, maduros, etc.
E mais um problema foi a pessima impressão que o Thainá 3 esta deixando na cidade. segundo alguns figurantes os caras destratam a galera da cidade. então todo mundo só vai pra figuração se for paga (que nao é o caso dessa festa, a idéia é pagar lanches, comidas tipicas etc por conta da produção). O que é uma pena, pois no filme que estamos fazendo, a proposta dos diretores e manter a digital da cidade. todos os figurantes são muito bem tratados. antes de cada cena, eu e Luciana Batista (asistente de direção) fazemos questão de ar o bom dia e explicar pormenorizadamente qual a sequencia que rolará naquele dia e o porquê deles terem sido escolhidos para fazer tal sequencia.
Mas conseguimos vencer a batalha dos 300. Nosso cadastro de figuração ate a data de hoje ja chega a 385 pessoas. mas a guerra continua, já que eu e minha equipe teremos que organizar essa galera toda. e tudo tendo camila pitanga e gero camilo entre os mortais. toda a equipe está apreensivo por esta sequencia, que é, sem duvida a mais punk de todas. além dessa ainda teremos a camila pitanga andando entre as ruas comercio, uma manifestação no meio do rio arapiuns (serão 3 dias dormindo no barco para a equipe) e uma festa de casamento em itaituba, mas nada se compara a esta sequencia. estamos na torcida que dê tudo certo.
Mas para me garantir tive que desobedecer a direção.
Corri para arranjar stand-ins da camila pitanga, do gustavo machado, do zecarlo machado e do gero camilo. (stand-ins são atores que se parecem com os atores principais e trabalham na marcação de cena, luz etc. para não desgastar os atores principais) O Beto Brant ja havia dito que não queria isso, que sentia como se a gente estivesse enganando as pessoas da cidade. que era deselegante, um lorde. mas ainda assim, para me garantir, fui atras dessas pessoas sem ele saber. Porém ele mesmo já havia sentido o drama que é ter uma atriz com a popularidade da Camila Pitanga nas cenas em que fizemos em um foto no centro da cidade. Mesmo a sequencia sendo interna, uam multidão se espremeu do outro lado da rua para ver a camila. e eles sentiam, sei la como, quando o diretor cortava a câmera e ficavam gritando do outro lado da rua. "ô Camila, cadê você, eu vim aqui só pra te ver". Para acalmar os ânimos a camila teve que ir à rua várias vezes para deixar-se ser fortografada, deixando em polvorosa a produção de set, e, sobretudo, a mim, pois sou o responsável por ela no set. uma espécie de "segurança" como o pessoal da cidade me chama. faço o papel do chato que diz quando chega de tirar foto. o mesmo papel que fiz com a dira paes no ribeirinho do asfalto em belém. chato, logo eu o chato. hahahahah.
Aliás, o Beto tem essa faculdade incrível de respeito às pessoas e mais ainda, de adequar o filme ao que a cidade apresenta. um belo exemplo disso se chama Magnólio.
Magnólio é um cara que encontramos na cidade, ele é o palhaço de um circo incrível, que está ligado a um projeto de uma ong, o Saúde Alegria, que leva assistencia médica a ribeirinhso menos afortunados num navio que tem até U.T.I. o trabalho dele é, através das palhaçadas, ensinar noções de higiene pessoal às crianças. incrível.
E o Magnólio é um cara incrível, primeiro na aparência. ele é branco queimado de sol, tem vitiligo pelo corpo todo, usa um cabelo esbranquiçado pelo tempo e que parece o bozo e tem uma voz que parece que fez traquiostomia.
Quando o Beto conheceu esse cara e conheceu a história dele (o cara fez teatro em sao paulo na década de 70, trabalhou com grandes nomes como Paulo Autran, Ítalo Rossi, e muitos etcêteras, veio parar en satarém por motivos humanitários, viaja o mundo inteiro e é meio bruxo, maconheiro pra caralho também). quando o Beto se aproximou dele, acabou modificando um personagem do roteiro para caber nesse cara.
Chico Chagas é um personagem que aparece no livro do Marçal Aquino como um matador de aluguel, que fica amigo do Cauby, e ,exatamente em nome dessa amizade, não aceita o "trabalho" que oferecem pra ele de matar o Cauby, acaba indo a casa do fotografo para avisá-lo que querem matá-lo e aconselha a ele a sair da cidade. O personagem, no filme, virou um palhaço de circo, o Cauby chega a participar de um dos números dele durante o filme (essa é mais uma sequencia que tive que produzir 200 figurantes crianças. rsrsr)
mas não é du caralho?

domingo, 8 de agosto de 2010

"Eu Receberia... part 2"

Hoje é domingo. só rodaremos à noite, uma madrugada longa pela frente nos espera. Hoje é Dia dos Pais então, pela primeira vez na vida dei importância ao dia, saudades dos meus filhos, falei com eles e caí destruído. e é meio destruídaço que escrevo agora, vão desculpando. ainda hà pouco, no café da manhã, encontrei Akira Goto (diretor de arte) e Lula Araújo (diretor de fotografia) que comentavam a mesma coisa. todos estão com saudades de casa, dos filhos. todos estavam com o coração entristecidos, o Lula falou que chorou logo cedo ao falar com os filhos, "Nem sabia que eu tinha tanta água dentro de mim", falou entre risos e choro ao lembrar da cena que tinha feito no quarto.
Mas assim como todos estão com saudades de casa, todos também estão eufóricos pelo filme q ue estamos fazendo. cada plano é comemorado com entusiasmo. porque também cada plano é estudado nos mínimos detalhes, o Beto não gosta de refletores, bandeiras, essas parafernálias que a gente vê em set, ele gosta da luz natural, opta pela poesia, faz cinema com o coração, com o corpo, entregue. Vê o Beto e Renas no comando do filme é um presente. os caras são sutis, ao falarem com os atores, com a equipe. tudo é partilhado com todos, os caras fazem questão de ir até o maquinista que esta no caminhão e reafirma que o "filma ta ficando lindo. e tem o toque de cada um nele".
Ontem, ao final de um dia rodando sequencias maravilhosas fomos a uma boate, a turma se esbaldou. Cisco Vasques, o maquiador de efeitos e também making of, pegou a guitarra e fez um showzaço de blues com os caras daqui de santarém, depois a Camila Pitanga e Luciana Batista (assistente de direção) ficaram com a direção da pista de dança e assumiram como Djs. foi maravilhoso.
No dia de ontem rodamos as sequencias em que Lavínia se entrega a Cauby. foi um puta plano sequencia. Os dois faziam amor pela primeira vez e piraram dentro da casa, a sequencia começava na cama, como os dois trepando e seguia pela casa toda até o quintal, num banho de mangueira delicioso. aí Decião (Paulo Marrat) aparecia por sobre o muro para brechar, e rolava uma discussão. 5min e 15s de plano, que tal? du caralho. ensaiamos muito para poder rodar.
Um adendo para os atores de Belém, Paulo Marrat mandou muito bem, leve na cena improvisou tranquilo com os atores (essa é a orientação do Beto: Jogo. ninguem nem pega o roteiro no set, os atores jogam o tempo todo e quando está bom fechamos a cena). Nos dia 5 e 6 Paulão estava aqui para rodar as cenas do Chang, um pedófilo dono de um foto onde Cauby encontra Lavínia. foi bacana a cena também. de Belém ainda virá Paulo Santana, para encarnar o Delegado, contraceno bastante com ele, pois juntos o meu personagem (Polozzi, investigador) vamos atras de saber quem matou o Pastor (Zecarlos Machado), marido de Lavínia.
Hoje a noit o Gero Camilo estreia no set, ele faz um jornalista bisbilhoteiro que é o primeiro a saber que Cauby está comendo a Lavínia. o personagem do Gero é maravilhoso, é um dandi que vive por essas bandas, um cara culto com muita leitura, que está escrevendo o livro da sua vida, que de acordo com Beto Brant é "viagem a Andara", do Viente Cecim. o Beto pirou no livro.
Aliás esse é o primeiro personagem que eu vejo o Gero fazer no cinema que respeita realmente quem é o Gero. o Cara é um multitalentoso, poeta, compositor, dramaturgo. o cara é uma sapiencia. acabou de gravar um disco lindo (levo cópias para belém) e conversar com o Gero é se alimentar de informações das mais várias. já era fã dele, imagina agora.
bom por hj é só
bora ver se amanha consigo postar mais
alias hoje a noite chega a santarém a D. Onete que vai fazer um show pra gente no meio da praça. numa sequencia maluca que eu tive que produzir junto com meus assistentes 300 figurantes, vai ser na quarta feira. to em pânico. hahahah.
devo levá-la para alter do chão amanhã para os ensaios com um grupo que a gente formou aqui.
vou nessa. beijos a todos.

sábado, 7 de agosto de 2010

EU RECEBERIA AS PIORES NOTICIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS PART 1.

Enfim começamos a rodar. Claro que logo nas primeiras seqüências a serem rodadas a natureza nos pregou uma peça. Morando há dois meses em Santarém experimentando um calorão do cão, embaixo de um céu azul da porra, hoje, logo hoje, amanheceu chovendo e nossa seqüências que começaria em Alter do Chão com uma fotografia linda, caiu. Corremos para garantir a diária e puxamos as seqüências da tarde para as 10hs da manhã.
e às 10hs da manhã eu entrava em cena na pele do destemido investigados civil, Claudio Polozzi. a cena corria na seccional de santarém, quando Cauby (Gustavo Machado) vai fotografar tres indio presos pela cana dura.
8 takes depois, a sequencia estava pronta. toda em um plano sequencia bacanerrimo.
aliás, Beto Brant e Renato Ciasca gostam de plano sequencia, acreditam que o filme precisa pulsar, pensam no olho do espectador a toda hora, a câmera, uma sted linda (Penelope) vem deslizando em um movimento delicioso nas mãos de Lula Araújo, diretor de fotografia.
O Filme conta a história de um fotografo que esta na região amazônia desenvolvendo um projeto de fotografar as amazônas, quando cruza com Lavínia (Camila Pitanga) e cai de quatro. (quem nao cairia?)
Os dois começam a ter um tórrido romance, mas a mulher é casada com um Pastor de uma igreja evangêlica (Zecarlo Machado), que esta organizando um levante entre os fiés contra uma mineradora que esta atuando na região e fudendo geral a vida dos munícipes.
Claro que a história desse romance vai dar em merda. o Pastor é assassinado e Cauby é acusado, pois toda a cidade ja sabe do ramance dos dois. daí em diante o cara cai em uma curva descendente da porra.
mlheres!!! mulheres!!!
o texto original é do Marçal Aquino, que também assina o roteiro junto com o Beto e o Renato.
Fazer esse filme tem sido um puta do aprendizado, os diretores conseguiram montar uma equipe sensacional, todo mundo tem um astral lá em cima e trabalhamos realmente como equipe.
nos dias 5 e 6 rodamos as cenas mais tórridas de Cauby e Lavinia fazendo amor em sua casa. Nooossaaa só plano lindo.
ja viram que nao dá pra ser realmente um diário isso, ne.
temos saidos do set destruídos.
cansados.
felizes.
os dias tem começado às 5hs.
mas amanhã começamos as noturnas, o set abrirá às 18hs e por isso, a galera organizar uma festa em uma boite da cidade. bagaceira
aliás, estao com os motores ligados
hora de diversão galera
até terça feira.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

ADORO

Encontrei uma amiga num bar outro dia, que me contou que recebeu uma cantada com frases desse humilde blog. po, perguntei logo se ela caiu, e ela disse que sim. Então meu caros leitores, o blog cumpriu sua missão que é de fazer gente comer gente. hahahaha.
mas a série O tamanho de deus acabou
e agora vou postar o diário de produção do longa metragem que estou fazendo em santarém com direção de Beto Brant e atuações de Camila Pitanga, Gero Camilo, Eu (claro), Gustavo Machado e Zecarlos machado.
o diário começará no dia 04 de agosto. até lá.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Lolita

De todas as heranças malditas deixada pelo cristianismo, a pior é a culpa. Gostaria de prefirir Darwin, queria muito acreditar na seleção natural, na evolução, na perpetuação das espécies (no caso a dos canalhas). Mas essa praga do cristianismo achata nossa inteligência, fazendo-nos acreditar em um criador. Nós, ocidentais, somos uns perdidos. Só uma criatura perversa poderia criar o bem e o mal, o pecado e o perdão e a culpa, o sufocante e doloroso sentimento de culpa.

Da primeira vez que a vi, jurei que ela não tinha nem quinze anos. Cheguei mesmo a desviar o olhar daquela boca sensual quando ela veio me fazer uma pergunta qualquer e abriu e fechou aqueles lábios carnudos movendo a língua lá dentro da boca para em seguida fechar, deixando-os entreabertos, onde se via levemente os dentes brancos. Eu ri e desconversei logo, mas ela disse “Ta rindo de quê?” fiz uma pergunta. E eu fiquei todo errado logo.

Quando saí da sala coloquei imediatamente toda a culpa no idiota do dono do meu apartamento. Onde já se viu aumentar o aluguel que estava quietinho há três anos? Com o aluguel mais caro e com meu salário de merda eu tive que procurar uma renda extra, pois nada mais injusto que perder noitadas em bares por causa de dinheiro. Então corri para o cursinho de um amigo para dar aulas de literatura brasileira à noite, em troca da manutenção dos bares de Belém.

Sala de aula de cursinho é um universo bem a parte da vida lá fora. Pega-se um cubículo, coloca-se um quadro em uma das paredes, põe-se um cara para falar de determinado assunto e enche-se o que sobrou de espaço dos mais variados tipos da fauna de uma cidade.

Em uma sala de cursinho não há classes sociais, as pessoas não são causas, são efeitos do que fizeram na vida escolar pregressa, e isso determina o comportamento de todos, da roupa que se está vestindo até o nível do interesse. De repente a imagem pode virar do paraíso de perninhas de fora em mini saias mínimas, para a quinta porta do inferno de Dante de “nerds” de cabelos arrepiados e óculos fundo de garrafa perguntando sem parar o que você acabou de explicar: "Eu disse que o Naturalismo aparece como os primeiros passos para o pensamento teórico evolucionista. E-VO-LU-CIONISTA, e não Revolucionista!! entendeu? Darwin, sacou?", para ouvir logo um "ahhhhhhh, agora entendi. O senhor precisa articular melhor as palavras".

Odeio nerds. Não gosto de gordos que vivem suados, como cara que sentava bem na direção da minha mesa. Detesto bocas pintadas de vermelho mastigando chicletes com força, ladeada por um celular róseo, com a Bety Boop pendurada, como a moça do lado. “Larga esse celular, menina. Ta esperando ligação?” Odeio o dono do meu apartamento.

Mas dar aulas também tem compensações maravilhosas, todas depositadas naqueles rostinhos lindos e olhinhos brilhantes, buscando aprender o que nunca deu bola, só para conseguir alcançar o sonho de ter um diploma de médica, de advogada, de assistente social, de jornalista, de fisioterapeuta. E o professor é o macho alfa da sala de aula, aqueles que todos acreditam encerrar em si todo o conhecimento, e claro, elas adoram dar para professores, por acreditarem, talvez, que o conhecimento acontece por osmose. Adoro cursinhos.

Eu abomino pedofilia, acho uma doença terrível. Mas aquela boquinha falando comigo me dava calafrios e vontade de ir para casa me chicotear as costas como dizem que fazia Carol Wojtyla, ao se sentir tentado. “O diabo tem várias faces”, fui atrás de minhas poucas aulas de catecismo com a professora Laura, uma morena gostosíssima, que falava em Deus com um charme, que era capaz de levar qualquer um para a cruz, e eu só pensava na santa ceia que seria aquele corpo desnudo.

“Qual a principal base do determinismo, professor?”, falou aquela boca maravilhosa, com o corpo se debruçando sobre a minha mesa. “O meio influencia o homem”, respondi seco, objetivo, duro, ereto, olhando para a classe toda. Mas foi só ela se afastar que baixei minha cabeça e a olhei como quem não quer nada. Que bunda! Meu deus, que bunda! Arrebitadinha e apertadíssima em uma calça jeans que deveria ser vestida a vácuo. Pernas roliças, e jeitinho de andar infantil. Ai, quando crescer vai dar um trabalho...

Ela tinha um charme encantador, cabelos à altura dos ombros,olhos negros agateados, boca carnuda, dentes terrivelmente brancos postos um ao lado do outro em harmonia infernal, a voz era rouca, suave, delicada, a fala era pausada, o olhar continha um delicioso charme infantil. Certamente, não devia ter nem 16 anos completos. Meu deus quantas chibatas eu merecia? Me dá uma resposta! Mas deus em sua infinita covardia se calava ante aquela tentação ambulante, falante, rebolante. Desconcertante, excitante.

Um dia me surpreendeu quando entrei na sala de aula e a encontrei em pé de costas conversando com outras meninas. Ela calçava uma sandália branca, adornando perfeitamente os pezinhos nus, morenos. Mais a cima do joelho, começava uma sainha preta de pregas, acompanhada de uma blusa branca, simples, colada, que quando ela virou de frente vi que estava sem sutiã e que apertava aqueles seios pequenos, redondos, duros deliciosos. Pedi licença e fui ao banheiro. Chutei a pia com a canela e voltei pra sala de aula mancando.

“Professor, não entendi porque o autor compara a Rita Baiana a uma cadela no cio”. “É pela sensualidade”, falei com pouco ar, ainda sentindo dores na canela. Cão no cio era eu!

E aí, para relaxar desandei a falar de como em O Cortiço o autor desenvolve o processo de zoomorfismo, a transformação do homem em animal. Senti que eu babava enquanto falava, olhando para a sala inteira e evitando aqueles peitos acochados. Olhava para os nerds e via neles hienas repugnantes, olhava para a menina do chiclete e a via como um boi ruminante, as das sainhas curtas eram puramente vacas ou galinhas, o gordo da frente era um búfalo, e a minha Lolita era a Rita Baiana. E eu, eu era um pobre Jerônimo, que dei para beber cafés e reclamar da vida. Um cabra.

Próximo ao vestibular começou os viradões. Minhas olheiras iam longe, trabalhava o dia inteiro naquele escritório infernal e a noite ia dar aulas no cursinho e depois, claro, ia purgar aquele desejo pedófilo no bar São Jorge, tendo o Veloso, o garçom, como única testemunha do meu silêncio mofino. “Que foi meu patrão, cadê a mulherada?”, perguntava o Veloso.

Naquela noite, era sexta-feira, entre alguns alunos tínhamos combinado de relaxar no São Jorge depois das aulas, que a essa altura terminavam uma da manhã. Muitos alunos foram, gazetando a aula final de matemática, a matilha era grande e estava aberta a temporada de caça, escolhi a mais fácil para não ter que suar muito a camisa. E, em pouco tempo, já tava tudo engatilhado. Ia fazer muito barulho no meu apartamento para me vingar do meu locador.

Mas jamais esperava que a Lolita aparecesse quase duas da manhã, segurando o caderno comprimido entre os seios e com aquela saia de pregas, dessa vez vinha adornada de tênis preto e meia branca até o joelho. “Minha nossa senhora das normalistas!!! É muita tentação!”

Ela entrou no bar acompanhada de outras amigas e vieram sentar exatamente na nossa mesa, que a essa altura era a mais animada, por conta das cervejas muitas depositadas na mesa. Ela sentou reclamando da aula de matemática, eu me calei, mas não conseguiu desgrudar os olhos dela. Esqueci a vaca fácil que eu pensava em levar pra casa.

Assim que ela chegou, alguns alunos começaram a dar mais atenção àquela boca entreaberta, que mostrava os dentes. Que ora sorria, ora se calava. Peguei um susto quando a vi beber uma cerveja. “Meu deus, será que o pai dela sabe que ela bebe? E eu estou na mesa, vou levar a culpa também”.

O bar continuava lotando, toda hora chegava gente, os garçons já não davam conta de tantos pedidos. As cervejas da mesa cessaram, então me levantei e fui, meio cambaleante, ao balcão pedi mais duas. Me assustei ao ouvir a voz rouca, meiga e doce falar ao meu lado. “Mudou de mesa, professor?”. Tremi. Virei o rosto devagar, ajustei o olhar mais para baixo, para encontrar os dela. “Não, imagina, eu só estou ajudando o garçom”, enrolei a língua. “Eu sou tão baixinha perto do senhor”, ela disse. “Pára de me chamar de Senhor, eu me sinto um velho”, falei com um sorriso idiota na boca. “Então, como eu devo lhe chamar?” “de qualquer coisa, apenas me chama, que eu já vou achar ótimo”. Me arrependi imediatamente da fala canalha-clichê. Que merda, que é que eu to fazendo? Peguei as cervejas e corri pra mesa, dessa vez nem cambaleei. Pensei que eu precisava colocar uns espinhos naquele cinturão em que eu me autoflagelava.

Ela percebeu que mexia comigo, tomou a iniciativa total. Puxou a cadeira e sentou ao meu lado. Gelei. Rindo e ligeiramente bêbada, ela puxou conversa com a amiga do lado e depositou a mão em minhas coxas em baixo da mesa. Esquentei. Fiquei sem jeito. Pensei no chicote com espinhos, minhas costas ensangüentadas e o vizinho do apartamento que batia na parede todas as noites “Pára de gritar, fresco!”, mal sabia ele o quanto eu me esforçava para manter minha integridade e minhas olheiras que cresciam.

Mas aquela noite esquentava por baixo da mesa. Não resisti e passei a corresponder aos seus apelos, e depositei minhas mãos em suas coxas nuas, sob a saia. Enlouqueci. Virei um copo grande de cerveja para esquecer a culpa, me entregar àquela Lolita linda, ela se virou para falar comigo e ficamos frente a frente, nossas bocas quase se tocaram. E eu tremi. Era a porra da culpa cristã batendo em meu peito, brochando meus ímpetos. Era a praga da minha professora de catecismo, era a mão pesada de deus, me julgando e condenando, antes mesmo do ato. Me levantei da mesa, puxei uns trocados. Paguei minha conta e saí correndo dali.

Não levei a vaca pra casa. Naquela noite decidi não usar o açoite, foi na mão mesmo. Queria me vingar de deus, da lolita, do meu locador. Esporrei nas paredes do banheiro, urrando alto, depois me ajoelhei e chorei a consciência do pecado *.


*nota: dias depois, olhando a ficha da lolita, descobri que ela tinha 22 anos. Nunca mais tive outra oportunidade: O Naturalismo provou sua razão, o homem é mesmo um animal. Nesse caso fui uma besta... quadrada. (...) naquele mês deixei atrasar o aluguel.