quinta-feira, 15 de abril de 2010

Lolita

De todas as heranças malditas deixada pelo cristianismo, a pior é a culpa. Gostaria de prefirir Darwin, queria muito acreditar na seleção natural, na evolução, na perpetuação das espécies (no caso a dos canalhas). Mas essa praga do cristianismo achata nossa inteligência, fazendo-nos acreditar em um criador. Nós, ocidentais, somos uns perdidos. Só uma criatura perversa poderia criar o bem e o mal, o pecado e o perdão e a culpa, o sufocante e doloroso sentimento de culpa.

Da primeira vez que a vi, jurei que ela não tinha nem quinze anos. Cheguei mesmo a desviar o olhar daquela boca sensual quando ela veio me fazer uma pergunta qualquer e abriu e fechou aqueles lábios carnudos movendo a língua lá dentro da boca para em seguida fechar, deixando-os entreabertos, onde se via levemente os dentes brancos. Eu ri e desconversei logo, mas ela disse “Ta rindo de quê?” fiz uma pergunta. E eu fiquei todo errado logo.

Quando saí da sala coloquei imediatamente toda a culpa no idiota do dono do meu apartamento. Onde já se viu aumentar o aluguel que estava quietinho há três anos? Com o aluguel mais caro e com meu salário de merda eu tive que procurar uma renda extra, pois nada mais injusto que perder noitadas em bares por causa de dinheiro. Então corri para o cursinho de um amigo para dar aulas de literatura brasileira à noite, em troca da manutenção dos bares de Belém.

Sala de aula de cursinho é um universo bem a parte da vida lá fora. Pega-se um cubículo, coloca-se um quadro em uma das paredes, põe-se um cara para falar de determinado assunto e enche-se o que sobrou de espaço dos mais variados tipos da fauna de uma cidade.

Em uma sala de cursinho não há classes sociais, as pessoas não são causas, são efeitos do que fizeram na vida escolar pregressa, e isso determina o comportamento de todos, da roupa que se está vestindo até o nível do interesse. De repente a imagem pode virar do paraíso de perninhas de fora em mini saias mínimas, para a quinta porta do inferno de Dante de “nerds” de cabelos arrepiados e óculos fundo de garrafa perguntando sem parar o que você acabou de explicar: "Eu disse que o Naturalismo aparece como os primeiros passos para o pensamento teórico evolucionista. E-VO-LU-CIONISTA, e não Revolucionista!! entendeu? Darwin, sacou?", para ouvir logo um "ahhhhhhh, agora entendi. O senhor precisa articular melhor as palavras".

Odeio nerds. Não gosto de gordos que vivem suados, como cara que sentava bem na direção da minha mesa. Detesto bocas pintadas de vermelho mastigando chicletes com força, ladeada por um celular róseo, com a Bety Boop pendurada, como a moça do lado. “Larga esse celular, menina. Ta esperando ligação?” Odeio o dono do meu apartamento.

Mas dar aulas também tem compensações maravilhosas, todas depositadas naqueles rostinhos lindos e olhinhos brilhantes, buscando aprender o que nunca deu bola, só para conseguir alcançar o sonho de ter um diploma de médica, de advogada, de assistente social, de jornalista, de fisioterapeuta. E o professor é o macho alfa da sala de aula, aqueles que todos acreditam encerrar em si todo o conhecimento, e claro, elas adoram dar para professores, por acreditarem, talvez, que o conhecimento acontece por osmose. Adoro cursinhos.

Eu abomino pedofilia, acho uma doença terrível. Mas aquela boquinha falando comigo me dava calafrios e vontade de ir para casa me chicotear as costas como dizem que fazia Carol Wojtyla, ao se sentir tentado. “O diabo tem várias faces”, fui atrás de minhas poucas aulas de catecismo com a professora Laura, uma morena gostosíssima, que falava em Deus com um charme, que era capaz de levar qualquer um para a cruz, e eu só pensava na santa ceia que seria aquele corpo desnudo.

“Qual a principal base do determinismo, professor?”, falou aquela boca maravilhosa, com o corpo se debruçando sobre a minha mesa. “O meio influencia o homem”, respondi seco, objetivo, duro, ereto, olhando para a classe toda. Mas foi só ela se afastar que baixei minha cabeça e a olhei como quem não quer nada. Que bunda! Meu deus, que bunda! Arrebitadinha e apertadíssima em uma calça jeans que deveria ser vestida a vácuo. Pernas roliças, e jeitinho de andar infantil. Ai, quando crescer vai dar um trabalho...

Ela tinha um charme encantador, cabelos à altura dos ombros,olhos negros agateados, boca carnuda, dentes terrivelmente brancos postos um ao lado do outro em harmonia infernal, a voz era rouca, suave, delicada, a fala era pausada, o olhar continha um delicioso charme infantil. Certamente, não devia ter nem 16 anos completos. Meu deus quantas chibatas eu merecia? Me dá uma resposta! Mas deus em sua infinita covardia se calava ante aquela tentação ambulante, falante, rebolante. Desconcertante, excitante.

Um dia me surpreendeu quando entrei na sala de aula e a encontrei em pé de costas conversando com outras meninas. Ela calçava uma sandália branca, adornando perfeitamente os pezinhos nus, morenos. Mais a cima do joelho, começava uma sainha preta de pregas, acompanhada de uma blusa branca, simples, colada, que quando ela virou de frente vi que estava sem sutiã e que apertava aqueles seios pequenos, redondos, duros deliciosos. Pedi licença e fui ao banheiro. Chutei a pia com a canela e voltei pra sala de aula mancando.

“Professor, não entendi porque o autor compara a Rita Baiana a uma cadela no cio”. “É pela sensualidade”, falei com pouco ar, ainda sentindo dores na canela. Cão no cio era eu!

E aí, para relaxar desandei a falar de como em O Cortiço o autor desenvolve o processo de zoomorfismo, a transformação do homem em animal. Senti que eu babava enquanto falava, olhando para a sala inteira e evitando aqueles peitos acochados. Olhava para os nerds e via neles hienas repugnantes, olhava para a menina do chiclete e a via como um boi ruminante, as das sainhas curtas eram puramente vacas ou galinhas, o gordo da frente era um búfalo, e a minha Lolita era a Rita Baiana. E eu, eu era um pobre Jerônimo, que dei para beber cafés e reclamar da vida. Um cabra.

Próximo ao vestibular começou os viradões. Minhas olheiras iam longe, trabalhava o dia inteiro naquele escritório infernal e a noite ia dar aulas no cursinho e depois, claro, ia purgar aquele desejo pedófilo no bar São Jorge, tendo o Veloso, o garçom, como única testemunha do meu silêncio mofino. “Que foi meu patrão, cadê a mulherada?”, perguntava o Veloso.

Naquela noite, era sexta-feira, entre alguns alunos tínhamos combinado de relaxar no São Jorge depois das aulas, que a essa altura terminavam uma da manhã. Muitos alunos foram, gazetando a aula final de matemática, a matilha era grande e estava aberta a temporada de caça, escolhi a mais fácil para não ter que suar muito a camisa. E, em pouco tempo, já tava tudo engatilhado. Ia fazer muito barulho no meu apartamento para me vingar do meu locador.

Mas jamais esperava que a Lolita aparecesse quase duas da manhã, segurando o caderno comprimido entre os seios e com aquela saia de pregas, dessa vez vinha adornada de tênis preto e meia branca até o joelho. “Minha nossa senhora das normalistas!!! É muita tentação!”

Ela entrou no bar acompanhada de outras amigas e vieram sentar exatamente na nossa mesa, que a essa altura era a mais animada, por conta das cervejas muitas depositadas na mesa. Ela sentou reclamando da aula de matemática, eu me calei, mas não conseguiu desgrudar os olhos dela. Esqueci a vaca fácil que eu pensava em levar pra casa.

Assim que ela chegou, alguns alunos começaram a dar mais atenção àquela boca entreaberta, que mostrava os dentes. Que ora sorria, ora se calava. Peguei um susto quando a vi beber uma cerveja. “Meu deus, será que o pai dela sabe que ela bebe? E eu estou na mesa, vou levar a culpa também”.

O bar continuava lotando, toda hora chegava gente, os garçons já não davam conta de tantos pedidos. As cervejas da mesa cessaram, então me levantei e fui, meio cambaleante, ao balcão pedi mais duas. Me assustei ao ouvir a voz rouca, meiga e doce falar ao meu lado. “Mudou de mesa, professor?”. Tremi. Virei o rosto devagar, ajustei o olhar mais para baixo, para encontrar os dela. “Não, imagina, eu só estou ajudando o garçom”, enrolei a língua. “Eu sou tão baixinha perto do senhor”, ela disse. “Pára de me chamar de Senhor, eu me sinto um velho”, falei com um sorriso idiota na boca. “Então, como eu devo lhe chamar?” “de qualquer coisa, apenas me chama, que eu já vou achar ótimo”. Me arrependi imediatamente da fala canalha-clichê. Que merda, que é que eu to fazendo? Peguei as cervejas e corri pra mesa, dessa vez nem cambaleei. Pensei que eu precisava colocar uns espinhos naquele cinturão em que eu me autoflagelava.

Ela percebeu que mexia comigo, tomou a iniciativa total. Puxou a cadeira e sentou ao meu lado. Gelei. Rindo e ligeiramente bêbada, ela puxou conversa com a amiga do lado e depositou a mão em minhas coxas em baixo da mesa. Esquentei. Fiquei sem jeito. Pensei no chicote com espinhos, minhas costas ensangüentadas e o vizinho do apartamento que batia na parede todas as noites “Pára de gritar, fresco!”, mal sabia ele o quanto eu me esforçava para manter minha integridade e minhas olheiras que cresciam.

Mas aquela noite esquentava por baixo da mesa. Não resisti e passei a corresponder aos seus apelos, e depositei minhas mãos em suas coxas nuas, sob a saia. Enlouqueci. Virei um copo grande de cerveja para esquecer a culpa, me entregar àquela Lolita linda, ela se virou para falar comigo e ficamos frente a frente, nossas bocas quase se tocaram. E eu tremi. Era a porra da culpa cristã batendo em meu peito, brochando meus ímpetos. Era a praga da minha professora de catecismo, era a mão pesada de deus, me julgando e condenando, antes mesmo do ato. Me levantei da mesa, puxei uns trocados. Paguei minha conta e saí correndo dali.

Não levei a vaca pra casa. Naquela noite decidi não usar o açoite, foi na mão mesmo. Queria me vingar de deus, da lolita, do meu locador. Esporrei nas paredes do banheiro, urrando alto, depois me ajoelhei e chorei a consciência do pecado *.


*nota: dias depois, olhando a ficha da lolita, descobri que ela tinha 22 anos. Nunca mais tive outra oportunidade: O Naturalismo provou sua razão, o homem é mesmo um animal. Nesse caso fui uma besta... quadrada. (...) naquele mês deixei atrasar o aluguel.

12 comentários:

lázaro araújo disse...

kakakaka. Porra comedô, essa porra se estraga às vezes. Mas tenha fé que a culpa evapora. hahaha. Voltastes com a corda toda, eh. E aí meu cumpade, vamo entrá numa breja por aí.

ADRIANO BARROSO disse...

Po, saudades, velhinho. ainda bem que a gente tem essa ferramenta fria da net. rsrsrsrsr.
vamo marcar essa breja, sim

Paulo disse...

porra mano tortura !!

muito boa! Parabéns!

Waldez disse...

fala parente é melhor não pensar na tal da culpa, ai meu Deus acabei de pecar!!!!

Waldez disse...

jbosco espera até hoje a vaguinha no filme, como ator principal claro. só entra em cena quando for pra beijar as muié bunita. abraços cumpadi.

ADRIANO BARROSO disse...

Parente, o cara só pode estar no filme se for no papel principal. tem que se ter muito cuidado com as estrelas. hahahah.
abraços.

J.BOSCO disse...

Quando esqueço a hora de dormir
E de repente chega o amanhecer
Sinto a culpa que eu não sei de que
Pergunto o que que eu fiz?
Meu coração não diz e eu...
Eu sinto medo!
Eu sinto medo!

Se eu vejo um papel qualquer no chão
Tremo, corro e apanho pra esconder
Com medo de ter sido uma anotação que eu fiz
Que não se possa ler
E eu gosto de escrever, mas...
Mas eu sinto medo!
Eu sinto medo!

Tinha tanto medo de sair da cama à noite pro banheiro
Medo de saber que não estava ali sozinho porque sempre...
Sempre... sempre...
Eu estava com Deus!
Eu estava com Deus!
Eu estava com Deus!
Eu tava sempre com Deus!

Minha mãe me disse há tempo atrás
Onde você for Deus vai atrás
Deus vê sempre tudo que cê faz
Mas eu não via Deus
Achava assombração, mas...
Mas eu tinha medo!
Eu tinha medo!

Vacilava sempre a ficar nu lá no chuveiro, com vergonha
Com vergonha de saber que tinha alguém ali comigo
Vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro
Vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro

Para...nóia

Dedico esta canção:
Para Nóia!
Com amor e com medo (com amor e com medo)
Com amor e com medo (com amor e com medo)
Com amor e com medo (com amor e com medo)
Com amor e com medo (com amor e com medo)...

Com amor e com medo...

J.BOSCO disse...

finalmente alguma coisa séria na blogosfera pra se ler e morrer de rir...rsss
a exuberante volta do nosso escritor maldito dos sete bares!!!
sensacional Barrosão!!
abs

J.BOSCO disse...

até hoje o sentimento de culpa me mata sem eu poder fazer absolutamente nada,o jeito e tomar todas no biras bar com um peixinho frito...
vamos voltar os bons tempos de quintal mestre barrosão.
abs

J.BOSCO disse...

Estou com um disco novíssimo da Aracy de Almeida,e Jorge Veiga que tal???
uma tentação ao túnel do tempo sem volta...rsss
abração

ADRIANO BARROSO disse...

Você é sensacional Boscão. a trilha sonora foi perfeita e o convite aos boteco do barroso com suas pedras novas é quase uma imposição.
vambora cumpadiiiiiiiiii

Waldez disse...

parente o que não falta é estrela, resta saber onde está brilhando!!!!
tu sabe...