segunda-feira, 16 de agosto de 2010




Hoje eu tenho muita coisa pra falar, esses dois dias em que passei sem foram muitos emocionantes e tão repletos que tive que dar um tempo para poder digerir, antes de relatar.
Mas antes algumas explicações: algumas pessoas que tem freqüentado o blog andam reclamando que eu to escrevendo muito errado, que tenho salpicado vírgulas pelo texto e até mesmo que to usando muitos palavrões. Tudo bem, entendo as reclamações, mas gostaria também de contar com um pouco mais de paciência de vocês. Às vezes escrevo assim que chego do set, com mil palavras rondando minha mente, com as imagens frescas ainda nas minhas retinas e quero falar, falar e falar, e desse jeito vou inventando idiomas, desvirgulando frases, aÇassinando a gramática (agora foi uma brincadeira hein). Peço licença para errar meus caros leitores. Mas gosto das reclamações, postem seus comentário para eu sentir o feed back. Quanto ao palavrão, sei que ás vezes fica demais, mas outras vezes só um palavrão consegue conter a intensidade necessária da emoção do que quero dizer. Mas vou maneirar.
HOJE FOI MAIS UM DIA DE AULAS DO MESTRE GERO CAMILO. Que facilidade que o cara tem de representar!!! Impressionante, e ter um diretor como o Beto Brant ajuda em muito a performance do ator, uma vez que ele deixa o caminho livre, cria junto, muda a cena, compõe a muitas mãos. Não me canso de elogiar a equipe. Lula Araújo também é um grande parceiro, entende o diretor, embarca na onda, e com sua alegria contagiante vai deixando o set cada vez mais leve. Esse filme é de ator. E pra ser um filme de ator, precisa ter um diretor competente e uma equipe sensível. É o que está acontecendo.
Hoje foi o último dia do Gero Camilo no set. vai ter champanha no final. Tive que sair antes de terminar a diária hoje, não participarei da festinha. Mas já me sinto recompensado. Só de ver o Gero em cena é uma aula prática de como fazer cinema com personalidade. Esse filme ta ficando lindo.
Na seqüências de hoje, Vicktor Laurence, próximo do seu suicídio resolve sacanear com Cauby ao mostrar as fotos nuas de Lavínia roubadas da casa do fotógrafo. No roteiro, a cena aconteceria em seu escritório. Mas nas mãos do Beto...
Como a casa tem uma piscina seca, o Beto decidiu levar a cena pra lá. Pra ficar mais surreal, o Gero havia escrito um texto sobre a Lavínia, o Beto incluiu na cena, e a cena ficou escandalosa. Os dois fumam maconha dentro da piscina seca, enquanto Vicktor declama seu poema para Cauby, daí ele mostra o motivo de sua inspiração Cauby fica puto e preocupado, porque seu “segredo” está sendo descoberto e vai embora, e o Vickto/Gero termina a cena com a frase “Santa é a carne que peca”.
A cena foi exaustivamente ensaiada. Chagamos no set ás 20hs, jantamos, e fomos ao ensaio. 21:30h começaram os ensaios, a cena só começou a ser rodada á 1h. cerca de oito takes depois, a cena terminava com todo o set aplaudindo a performance. Tiramos fotos de equipe e tudo.
O Beto é o tipo de diretor que cuida de cada cena, quer sempre o melhor, não adianta o take meia boca. Cada take tem que ser sofisticado, um olho no trabalho dos atores, outro lho no movimento de câmera. 3:45m de plano seqüências, a cada take terminado o Lula Araújo saia estafado, pedia água e quando todos achavam que ele ia sentar um pouco, ele começa a dançar a dança do sapinho. (daqui a pouco eu conto o que é isso. Não, vou contar logo)
O papai Lulinha, como ele é chamado, se juntou com o maluco do Akira e compuseram algumas músicas. A melhor, na minha opinião, é a Daca do sapinho. A letra é: “Eu tava no meu lugar/ veio uma moça me procurar/ a mamãe disse que isso tudo pode dar/ sapinho/ sapinho/ sapinho/ muitaquitã/ muiraquitã/ muiraquitã/ sapinho”, o Lula dançando isso é de cair no chão de tanto rir. Hoje acordei com essa música na cabeça. Hahahahahaha.
Juntos, os compositores ainda fizeram uma música para lavinha (La vinha ela/ lá vinha ela...) Hilário!. Empolgante! É nesse clima que a gente trabalha. Que tal?.
Voltando ao Gero.
Anteontem rodamos a cena em que ele lê sua carta-testamento-crônica. Essa cena arrancou lágrimas da equipe. Vamos começar por aí. 17hs, o Beto ligou pro meu quarto e me convidou para ir ao ensaio. O set só abriria ás 20hs. Ensaiamos um pouco, mas rendeu pouco. O Beto confessou que estava com o raciocínio lento, que tinha dormido muito, e propôs jantar e depois continuarmos o ensaio. Depois do jantar ele esquentou. 21h e recomeçamos o ensaio, o Beto mandou toda a equipe voltar para o hotel, queria tempo, queria paz, queria distensionar. Ficamos a sós com o Gero e o Gustavo na cena. E era assim: o Beto provocava e o Gero ia. Na cena havia uma garrafa de absinto que deveria ser usada na cena, era absinto mesmo. O clima foi subindo. Beto e Gero estavam impossíveis. Na cena deveria ser dito alguns aforismos do Oscar Wide, mas não estavam se encaixando, então o Beto falou “Esse cara é um chato. Vamos esquecer ele. Vai falando o que vier à tua cabeça, Gero”. O que vinha á cabeça do Gero era poesia pura. Uma maluquice. 00h, o Beto mandou ligar para toda a equipe voltar ao set. uma hora de pré-light, e a cena recomeçava. Eram 8:45m de plano seqüências. Pauleira. Perdi as contas dos takes, o Lula suava em bicas, mas valente, pegava o Sted e mandava bala. Enfim, quando a cena ficou pronta, fomos revisar. Ao final, todos estavam com os olhos marejados, até o Gero. Aplausos. Euforia. Fechamos o set. fomos até a base e rolou muita cerveja, brindes. Alegria. Fomos direto ao café da manhã e depois um dia todo de sono.
No sábado rodamos a cena que é passagem para o flash back que contará a história da Lavínia. A cena mostra Caubu andando bêbado pelas ruas escuras, ao passar por uma encruzilhada, um índio de MP3 sai do escuro e cruza com ele, Cauby nem sabe se é alucinação ou não, entra no breu da rua e cortamos para uma rua do Rio de Janeiro, o baixo meretrício para encontrar Lavínia drogada e prostituída.
Cena simples de fazer, mas que o Beto transformou em mais um espetáculo.
Espetáculo de generosidade.
O índio que escolhemos para a cena é um da tribo dos Boraris, Poro. Essa tribo, e mais especificamente esse índio, estão numa luta ferrenha contra uns madeireiros e uma mineradora e mais o Governo Federal. Eles queres a redemarcação de sua terras, querem expulsar os madeireiros que estão destruindo o lugar e a mineradora que está invadindo mesmo suas terras.
A cena estava marcada para acontecer na quinta-feira. Ás 15hs fiquei sabendo que o Poro não viria filmar. Estava em Altamira, numa reunião com o exército, só voltaria a Santarém na sexta. Fiquei em pânico, corri para produzir outro índio. Tinha mais dois em meu casting e mandei por e-mail para o Beto e o Renatão aprovarem. Ás 19hs, nenhuma resposta dos dois. Não sabia o que fazer, o set abriria em uma hora. Então foi falar com o Beto. E ele me deu mais uma aula:
“Desculpa Adrianão, eu não consegui abrir mão do Poro. O cara ta lá, numa puta batalha pelas suas terras. O mínimo que eu posso fazer é colocar o cara no filme. Se ele não pode hoje, a gente derruba a seqüências. Vamos rodar quando ele puder”. Calei. Fiquei pensativo. Atordoado, sou de uma escola de cinema que foda-se o mundo, o plano é mais importante. E de repente, o plano muda por conta de um figurante. Jantei com esse choque. Compreendi. Achei perfeito. O máximo.
Sexta-feira a produção pagou hotel para o Poro se hospedar, sábados fomos rodar a cena, na madrugada, o Poro curtiu, o Beto fez quatro takes até a cena ficar como ele queria.
No início da noturna filmamos a cena de apresentação do Chico Chagas. Quando Cauby anda pelas ruas e encontra Chico Chagas com o carro no prego, e dá uma força a ele começando uma grande amizade.
Armamos a cena em uma rua que estava tendo um aniversário, os 80 anos de Seu Diquito. Como fazer naquela barulheira? Simples. Nos misturamos a eles, fomos lá, parabenizamos o Seu Diquito e fizermos rapidamente um pacto: na hora de rodar, eles desligam o som, em troca eles assistem a cena. “Adoro quando acontece isso. O set aberto. Toda a equipe na frente do vídeo-assiste. Curtindo o que a gente ta fazendo.
Esse é Beto Brant.

4 comentários:

monalisa disse...

"Não esqueça que este é o Blog do Barroso e se não tiver alguns palavrões perde toda a originalidade. Quanto aos erros, tenho certeza que é a carga de ansiedade que te consome. Teu Blog é do CARALHO!"
Mil bjs!
Merda!

ana-cristina amancio de souza disse...

admiro muito o trabalho da camila espero que o filme seja um grande sucesso,queria saber quanto tempo ela ainda fica em santárem ?

ADRIANO BARROSO disse...

amore, sabe como é, o blog ta saindo das minhas mãos. hahahaha. ultrapassando os limites dos amigos.
aliás, notaste que quando não tem sacanagem no blog, pouca gente comenta?
eita pessoalzinho
hahahah
beijos saudosos

aguiar13 disse...

Grande mestre Barroso. Seu diário de bordo é tudo de bom. Gostoso de ler (mesmo com os erros de digitação - meu cu pra isso) e com as informações necessárias para se saber o que está rolando. Estamos ansiosos por sua chegada aqui em Belém. As coisas contadas com o som da voz ficam melhores.