quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um tigre nunca perde suas listras

O artigo primeiro do estatuto dos canalhas com princípios está escrito em letras garrafais:

NEGUE. SEMPRE.! A princípio parece somente um conselho para inescrupulosos, mas como tempo se percebe o quanto de valia e de sabedoria tem essa primeira página.

O estatuto tem uma estrutura livre, ele também vem com pequenos textos comportamentais para canalhas mirins ou neófitos na bagaça. Não é um livro para decorar, é um livro para se andar com ele, um livro de consultas. Lá também está escrito: Nenhuma mulher gosta de perdedores.

“Se você esta baixo astral, contando as derrotas, é melhor nem sair à caça, o melhor é ficar em casa lambendo as feridas mesmo. É na caça que os seres humanos experimentam os seus instintos mais básicos e animalescos. Mulheres gostam de macho alfa, aquele que se destaca em “seja-lá-o-que-for”. “Quem não se destaca em nada está relegado aos restos e vive como hienas, se alimentando das sobras da caça dos machos mais ativos”, diz o texto. E no final do artigo diz assim: “se você está por baixo, minta. Invente uma história fantasiosa qualquer, diga que a falta da grana é porque o dinheiro está aplicado ou coisa parecida”. É assim, simples e rasteira as orientações, longe das metáforas e parábolas bíblicas, o livro é direto, como tem que ser. E não serve só para homens, não. Mulheres também se utilizam dele.

“Mulheres são competitivas, se você quer aumentar o seu número de parceiras sexuais, arranje uma parceira fixa. O cheiro da competição é altamente afrodisíaco”. O mesmo artigo serve para mulheres. Seres humanos são competitivos.

Agora, se você encontrar por aí uma mulher que tenha lido O Livro, cuidado. Muito cuidado.

...

Era porque naqueles dias eu estava meio para baixo, por isso deixei escapar a Kátia (é, mesmo quem conhece O Livro às vezes comete falhas capitais). Quando ela entrou no bar deu de cara com a minha cara de derrotado e desviou caminho. Kátia era uma mulher linda que eu estava há anos dando em cima e nada. Nesse meio tempo Kátia se casou com um cara apagado que sempre fiz questão de não ser amigo dele. Corria o risco da gente ficar amigos, e comer mulher de amigo é um dos pecados mortais escrito na terceira página do estatuto: crime passível de forca ou apedrejamento em praça pública.

Kátia era daquelas mulheres que a gente encasqueta e sonha mesmo até ter filhos juntos. Dona de um sorriso cativante e um humor ácido e estonteante, eu confesso que ficava bobo toda vez que a gente se encontrava.

Não queria que a Kátia me visse lambendo feridas em um bar. Bar não é lugar de lamber feridas. Artigo terceiro.

Para completar a avalanche de coisas que não davam certo, arranjei uma namorada. Linda e cruel. Ninfomaníaca e ciumenta. Os primeiros meses foram de tanto sexo que andava fraco por aí, mal sabia eu que isso era um indício de quem tinha lido O Livro. Esta lá na 25ª página. Artigo 52: para não levar contraataque, castiga em casa.

Márcia era uma mulher desejável. Estávamos juntos ha quase um ano, e as minhas escapadelas precisavam ser cada vez mais precisas. Ela era uma dessas companheiras que faz questão de estar sempre ao lado. Sempre. Mas a qualidade também escondia uma estratégia: o de cão de guarda. Além de todos os meus problemas financeiros, que me impuseram até mesmo a venda do carro e menos idas ao bar, Márcia e Kátia tinham se transformado em um fardo, pesado e maravilhoso.

Márcia adorava realizar minhas mais ousadas fantasias sexuais (ela topava me dividir com outra, desde que participasse do bolo). Ela era uma louca na cama, realmente eu não precisava de mais ninguém. Porém ela estava me transformando em uma ovelha, apagando meus instintos de caça, destreinando-me, adestrando-me. Ela tinha lido O Livro.

A partir de determinado momento, só aparecíamos juntos nos bares. Eu olhava com água na boca os velhos companheiros de caça em suas estratégias: a posição da cadeira na mesa, os gestos, os olhares aquilinos nas presas que saracoteavam ao lado, as investidas. Chegava até mesmo a me divertir com os botes errados dos amigos, e fazia minha avaliação do erro dos outros silenciosamente, contido, ao lado de Márcia e dos casais amigos sentados em nossa mesa.

Márcia não permitia nem uma ingênua ida ao banheiro sozinho. Ela se levantava e ia junto, e na porta, enquanto esperávamos me agarrava e me beijava com lascívia. Somente na ida dela ao banheiro eu conseguia pular um pouco de mesa e rir com os amigos, mas era pouco tempo, logo, logo ela estava do lado rindo também. Dava pena de ver tanta mulher bonita pedindo para ser enganada, e eu posando de casado.

Mas um tigre nunca perde suas listras. (conselho postado no 66ª página d’O Livro).

Nem Kátia nem o marido tinham lido O Livro.

E foi num dia de extremo estresse que ela pipocou no meu msn. Foi só ela dizer um simples “Oi” na tela fria do computador que a transformação começou a se dar em mim. A cada linha de diálogo sentia meu corpo se transfigurando, minhas listras iam voltando, minhas narinas iam inflando para sentir naquela conversa amena o cheiro bom e doce de carne mal passada. Minhas garras feriam o teclado.

A conversa terminou num singelo “tchau, um beijo”. Mas eu sentia que aquele silencio de anos quebrado através do meu monitor, deveria ter um motivo a mais. Kátia não era uma mulher de falar amenidades à toa. Ela sabia o que queria, sempre soube. Só errou em casar com aquele otário.

Artigo 8º: para caças ariscas, busque ficar íntimo sem ser amiguinho. Use de sinceridade visceral. Ouça mais do que fale. Ganhe confiança. Se ela não ceder, Gelo.

Tive que consultar O Livro, pois os dias se passavam e todas as noites à mesma hora eu e ela nos encontrávamos no computador. Quando Márcia estava em casa, eu tinha que usar de alguns artifícios para estar diante do monitor na hora marcada, e me punha a trazer trabalho para casa. Márcia desfilava só de calcinha à minha frente, tomando sorvete diante da televisão, passando pra lá e pra cá de camiseta velha e rebolado estonteante. Isso me desconcentrava do papo com Kátia.

Kátia, do outro lado do monitor, ria de bobagens que eu falava. Contava-me a vida que estava levando, as dificuldades do doutorado que estava enfrentando e finalmente deixou escapar um certo desentendimento com o marido. O suor escorreu pela minha fronte, um frio na barriga subiu. Mas me fiz de desentendido e me contive num simples: “por isso que eu não caso”. Ela pegou a deixa e disse que eu seria um ótimo marido, meus olhos se apertavam diante da tela, minhas presas cresciam, a saliva escorria no canto da boca. Meus instintos estavam tão voltados para o rosto de Kátia na janela do msn que nem percebi a aproximação de Márcia que engatinhava nua por debaixo da mesa. Tomei um susto quando ela abriu meu zíper. Fechei o computador num susto. Márcia também tomou um susto quando percebeu o quanto eu estava excitado e reclamou da minha cueca molhada. “É que eu to te vendo daqui, meu amor, é isso!”, ataquei, mas ela só fingiu que acreditou até se saciar e me questionar: “Não sabia que o trabalho te deixava excitado”.

Os dias foram passando, Kátia foi se entregando mais e os instintos de Márcia também foram evoluindo. Ela não sabia o que era, mas sabia que algo estava acontecendo, mesmo que eu não tivesse mudado em nada. Ou quase nada.

O meu desejo particular por Kátia trouxe de volta o instinto de caça, nem ligava mais se a grana tava curta ou se eu tava prestes a ser demitido por aquele babaca do chefe. Por todo o dia e por toda a noite eu só pensava como eu ia armar o bote para Kátia.

Artigo 32: Nunca ame a sua comida.

Artigo 33: Coma apaixonadamente. Se entregue durante o ato, seja gentil e responsável pela sua presa, primeiro sacie a ela e só depois pense em você. Ligue no outro dia. Nunca dispense uma comida (não se sabe o dia de amanhã).

Artigo 47: Mulheres em crise no casamento são uma das presas mais difíceis. A suposta facilidade esconde atrás de si a carência, um bicho que ficou acuado e que agora quer se soltar, e essa suposta liberdade sempre virá em altas intensidades.

Da frieza do computador, eu e Kátia passamos para as mensagens de textos no celular. Mas elas quase sempre chegavam na presença de Márcia, que já não se contentava quando eu dizia que era a operadora me oferecendo promoções. “Tens muita moral com essa operadora, hein. Ela não te deixa mais em paz”, desconfiava Kátia. Desliguei o aviso de mensagem e continuei me correspondendo. Até que chegou o dia de marcarmos um encontro.

Eu não andava, eu flutuava na expectativa de ter aquela mulher que há anos eu queria nos meus braços. Já sentia por antecipação os beijos daquela boca, os cheiros daquela pele. Mas antes de ir ao encontro, tinha que arranjar uma boa desculpa para Márcia que eu sabia que estaria em casa na hora que eu chegasse do trabalho. Resolvi não confrontar, de manhã, quando eu sai, já levei na mochila uma muda de roupa, ia descolar um lugar para tomar banho na rua mesmo. Nem me importei com o ônibus lotado naquele dia, o esfrega-esfrega do lotação amassava toda a minha roupa e me despenteava os cabelos, mas a esperança de reencontrar de novo aquela deusa era mais forte. Meu coração estava aos pulos.

À noite, depois que deixei o trabalho, tratei de ligar pra Márcia e inventar uma desculpa. Mas me ative em dizer somente que ia chegar tarde em casa, ela que me esperasse lá, pois aí eu também garantiria que ela não estaria na rua atrás de mim.

O banho foi na casa do Sales mesmo, ele inventou para a mulher dele que em casa tinha faltado água e me joguei no banheiro. Tomei um banho demorado, me perfumei com o que o Sales tinha e ainda passei minha roupa antes de deixar a casa do casal sob os olhares desconfiados da mulher dele.

Marquei com Kátia em um barzinho despintado, que eu nunca tinha ido, mas sabia que era limpeza. A Márcia jamais me procuraria ali.ninguém me procuraria ali, era um bar de play, de gente só estampa, dos nascido na década do nada, dos que gastam no som do carro para compensar o tamanho ínfimo do pau. Mas era um lugar com três ambientes e tinha um à meia luz para quem não quer ser descoberto. Foi pra lá que eu levei Kátia, assim que ela chegou, uma hora e meia atrasada.

Pedi um vinho, não seria a minha falta de grana que atrapalharia aquele momento, ela tomou, falou do passado, eu ouvi, falou do presente, eu ouvi, falou do futuro, eu ouvia, eu olhava, eu me admirava, eu participava, eu pensava, eu só pensava na hora do ataque, até aquele momento não tinha rolado nenhuma deixa, ela fala e falava e falava. E eu com o artigo 8º na cabeça. “Diante de mulheres carentes, seja um bom ouvinte. Mulheres adoram anunciar para as amigas que encontrou um homem delicado, educado, que escuta seus problemas e participa das soluções”

Artigo 9º. “Afie seus instintos para perceber quando uma mulher quer desesperadamente ouvir mentirinhas agradáveis”.

E ataquei. Já ia pela metade do vinho quando eu disse que eu estava esperando esse tempo toda por ela. Ela enrubesceu. Mas respondeu: não é o que eu ouço, sempre soube que você era um conquistar contumaz. Respondi, mas isso não se aplica a ti. Se eu fosse só um conquistador barato, eu já teria desencanado de ti (gosto de usar o verbo na terceira pessoa por que ele dá um clima de mais intimidade). Eu te vi casar, sofri com isso, e hoje eu te vi entrar nesse bar e fiquei gelado, não sinto isso por todas as mulheres, pode acreditar. Pra mim, tu não és só uma mulher, pra mim tu és uma paixão que me acende, que me devolve os instintos mais básicos da adolescência de um homem. Eu me sinto um menino do teu lado.

Artigo 10º. Fale olhando no olho. Amacie sua voz, torne-a agradável. Diga uma sucessão de frases curtas contendo o que uma mulher deseja ouvir.

Kátia calou. Baixou os olhos. Bebeu o resto do copo de vinho de uma única golada. Mexeu no cabelo. Pegou o lenço de papel e secou os lábios. (se ela mostrar inquietação é porque você está chegando muito perto. Está no caminho certo). Tu sabes que eu não deveria estar aqui né? (Outro indício que você está chegando perto é o movimento “espelho”, ela começa a falar com você na sua linguagem, o próximo passo será repetir os mesmos gestos). Mas é que minha vida, ela continuou, ta de cabeça pra baixo. Nem sei se fiz o certo vindo aqui, eu sabia que tu ias tentar me cantar. (sinal vermelho, mulheres casadas, confusas, podem se arrepender depois do ato e chorar no motel. É melhor recuar e deixar para ela os próximos passos.) Eu não estou dando em cima de ti, eu disse, só estou sendo sincero. Desculpa minha falta de jeito. Isso não vai mais se repetir, tentei encerrar o assunto.

Então Kátia fez o que todo ser humano faria quando precisa parecer importante para alguém e para si mesmo, puxou outros assuntos, mas caprichou no charme. Ela usava palavras que, ao dizer, tornavam a boca mais sexy, mexia no cabelo com delicadeza, usava gestuais claramente pensados para deixá-la mais atraente e fixava os olhos em mim.

O artigo 11º diz: “Se a mulher casada estiver sem muita confiança no que está prestes a fazer, seja a vítima. Deixe que ela se sinta tomando as rédeas da conquista. Encabule-se”. Acompanhei o livro. Eu desviar o olhar. A cada vez que o assunto poderia ter uma deixa para que eu entrasse com uma cantada eu me atinha em rir somente. Então ela não agüentou mais e deu sentido ao artigo 12º: “Ao ver você com um certo ar tímido, ela tomará uma atitude. Se ela não fizer isso, não vale a pena, guarde seus instintos pague a conta e saia com a certeza que evitou uma noite sofrível”. Mas Kátia não seria tão ingênua assim, ela queria ser amada, cortejada, mais que isso, ela merecia ser corteja e amada como uma mulher daquele porte exige, e quando menos eu esperava eu se aproximou de mim e disse: estou pronta pra correr atrás do tempo perdido.

O que se sucedeu a partir dessa frase? acho que eu não conseguiria traduzir em palavras. Só sei dizer que foi o máximo, eu realmente nutria uma paixão por Kátia, tê-la na cama, disposta e disponível me dava a sensação de missão cumprida, negando um dos últimos artigos d’O Livro: “Nunca pense que você já comeu todas as mulheres que desejou. Sua vida acabará. É necessário sempre haver alguém mais para tornar a fazer sentido o instinto de caça. Se acaso você pensar assim estando com uma mulher, ou você está velho demais ou você finalmente se domesticou e esse livro não lhe servirá mais para nada. Passe-o adiante”.

Ao olhar no espelho nossos corpos entrelaçados eu quase explodia de felicidade, ao testemunhar aquela mulher tendo um orgasmo meu peito pulsava em um ritmo nunca sentido. Realmente aquela mulher mexia comigo. Tanto, tanto, que nem sequer me preparei para gozar e quando percebi eu já estava ali gemendo, arfando agarrado àquele corpo, beijando aquela boca, envolto aos cabelos desgrenhados e suados de Kátia. Eu realmente tive um orgasmo. Meu corpo tremeu, eu me entreguei. Rasguei O Livro. “artigo 38º: Ao gozar, tente não perder totalmente os sentidos. É um momento bom para dizer palavras que deixe sua parceira orgulhosa de estar na cama com você. Emende palavras bonitas com palavras desconexas. Mostre a ela que você está orgulhoso e feliz de estar com ela”.

Kátia me deixou na esquina de casa às 3hs. Entrei em casa rezando para que Márcia estive ido embora, eu queria curtir aquele momento do “pós” sozinho, deitado quieto, esperando o “descanso do guerreiro”. Mas não, Márcia estava lá, e acordada.

Artigo 29º (para os casados): Em nenhuma guerra a frase “A melhor defesa é o ataque” se enquadra melhor do que na guerra conjugal. Se sua mulher reclamar de qualquer de suas ações suspeitas, magoe-se. Mostre-se ofendido. Reclame da falta de confiança da parceira. Não esmoreça. E sobretudo, lembre-se da primeira página: NEGUE. SEMPRE!

Foi o que fiz, o foi o que fez Márcia se acalmar e me deixar quieto. Armei uma rede na sala e deixei-a no quarto remoendo a falseta que acabara de fazer comigo. Adormeci pensando em Kátia.

Cheguei cedo e disposto no trabalho. Sob os olhares ansiosos do Sales sentei na minha mesa e tamborilei um sambinha. Não demorou para que Sales metesse a cara por cima do computador. “me conta”, disse ele. Contei. Contei com brilho nos olhos, sorrisos nos lábios e gestos tão largos que chamou a atenção dos outros canalhas. O que ta acontecendo aí, O Fagundes perguntou se juntando a nós, O cara tá apaixonado, o Sales respondeu fazendo troça do meu companheirismo em contar. Mas assumi, é isso. Isso mesmo, esse velho tigre está sob a sombra com um banquete ao alcance das patas. Isso vai dar merda, disse o Fagundes, sempre com um tom pessimista sobre as mulheres, se a Márcia descobrir tu estas morto. Isso era verdade.

Esperei bater as 10hs para mandar uma mensagem pelo celular para Kátia, ela não demorou a responder, em tom bem humorado. Ótimo, a noite valeu a pena para os dois. Artigo 53º: “A importância de ligar no “outro dia” não está em fazer ela achar que a noite foi importante, mas em você ter certeza de que sua performance foi boa. O tom e o nível de felicidade de sua presa é no que você tem que se ligar”.

Minhas férias iam chegando, e achei que Márcia não precisava saber disso. Mas seria ótimo uma viagem de “negócios” com Kátia. Foi o que fiz, anunciei para Márcia que precisava passar uns dias fora para resolver coisas do escritório e combinei com Kátia três dias de felicidade no Arquipélago do Marajó. “que história é essa de viagem? Desde quando tu és escalado para viajar na tua empresa”, Márcia protestou sentindo cheiro de outra fêmea na savana. “Tu não estais percebendo,mas estou crescendo naquela empresa de merda. Meu chefe é um otário, mas ele não pode deixar de perceber que eu sou competente”, encerrei o assunto, arrumei as malas e fui ter meu pedaço de paraíso nesse plano espiritual. Kátia disse em casa que precisava fazer uma pesquisa para o doutorado. Na verdade eu não perguntava nada para Kátia sobre seu relacionamento, se ela quisesse que me dissesse, mas ela era uma dama, sempre reservada e fazia questão de não expor o marido para o amante, gostava disso.

Três dias depois voltamos. Márcia não estava em casa, para ser sincero, nem senti falta, incorrendo no artigo 52º : A não ser que você esteja disposto a trocar de parceira, não deixe faltar afeto, atenção e sexo em casa. As mulheres sabem que isso só acontece por causa de outra e isso acende nelas o instinto de competição. Elas não agüentam achar que existe outra mulher melhor do que ela.

Mais dois dias liguei para Márcia, ela atendeu fria, perguntou por que não liguei antes, e disse que acabei ficando por lá mais do que gostaria. Uma mentira fraca. Aliás, quando um homem está empolgado com outra mulher começa a achar que qualquer mentira que diga a sua companheira vai colar. Esse é um erro fatal. Artigo 50º: A mentira bem elaborada é um sinal de inteligência, que tende a enfraquecer pela paixão ou empolgação para com outra mulher. Lembre-se que o sinal de bom princípio de um canalha é deixar sua parceira sempre bem, para isso servem as mentiras, ou verdades inventadas, para melhor dizer. Não deixe dissabores para sua companheira.

Márcia ligou o sinal de alerta total. Passou a escavacar meu computador, olhar meus bolsos, se ligar mais no meu cheiro e, sobretudo, no meu apetite sexual. Eu me encontrava quase todas as manhãs de minhas férias com Kátia, íamos a um motel, almoçávamos juntos e riamos de tudo como dois maconheiros idiotas. Era o céu. Eu pisava em nuvens.

Mas um dia isso acabou.

Sem muita explicação, Kátia decidiu ficar cada vez mais sem tempo para nós. Um dia sem muita graça recebi um e-mail de Kátia explicando os motivos de seu afastamento e decretando nosso fim. Ela dizia estar muito envolvida comigo, que se preocupava de onde ia chegar aquela história, que estava confusa em jogar mesmo o casamento para o espaço e que gostaria de pensar sozinha. E que seria melhor não nos vermos mais.

Fiquei de luto.

Fiquei puto.

Eu estava sendo sincero mesmo com ela, havia jogado O Livro de lado. Estava me doando, queria viver aquilo intensamente. Não estava preparado para aquilo ter um fim tão abrupto. Adoeci de desejo. Tive até febre. O feitiço havia virado contra o feiticeiro, eu realmente havia voltado a ser criança.

Márcia chegou a se preocupar com minha falta de apetite com a vida. Me levava em bares, cinemas, mas tudo era realmente cinza ante os meus olhos.

Minhas férias acabaram. Voltei para o trabalho com olheiras. Um leão ferido. O pessoal inquiriu o porquê, eu disse apenas que a praga do chefe tinha pegado e que eu passara todas as férias doente.

Mas o tempo foi passando e sem notícias de Kátia, Márcia foi importante na minha recuperação. Voltei à vida. Voltei à Márcia, voltamos à vida.

Porém, como uma boa caçadora, Márcia ainda tinha assuntos para passar à limpo. E num lance de quem tem O Livro na cabeça, Márcia armou o bote.

Numa noite, ao chegar em casa, uma surpresa: mesa posta, velas, arranjos de panos sobre as paredes, um tapete vermelho desenha os passos que eu deveria dar e desenhava um caminho da porta de entrada até a cabeceira da mesa. Um cheiro olor de perfume se misturava ao cheiro de assado do prato que estava sobre a mesa. Uma música suave. Fui entrando, seguindo o tapete, larguei minha pasta no sofá e sentei à mesa. Márcia apareceu vestida com um provocante vestido branco com um decote que deixa seus seios fartos quase à mostra e que descia até o meio das pernas morenas e bem torneadas. Ela vinha trazendo uma garrafa de vinho nas mãos e abriu bem próximo de mim. “hoje você vai ter um banquete”, anunciou. Tentei pular em cima dela, mas ela pediu calma. “A comida da mesa pode esfriar, a comida aqui não esfria nunca”, disse com uma cara sem vergonha, movendo os lábios vermelhos delicadamente.

Comi afoito pensando na sobremesa. Bebemos vinhos. Rimos. “espera que vou buscar a sobremesa”, disse ela. Foi à geladeira pegou um sorvete depositou sobre a mesa. “Mas calma, não é para comer de colher”, avisou. Foi até o som, colocou uma música provocante, e fez um strip tease que quase me da uma congestão. Sobre o vestido uma combinação com calcinha branca quase me fez gozar só de assistir, enquanto eu estava sentado no sofá assistindo aquela deus se despir, ela pegou o sorvete e começou a passar no corpo, e finalmente, sentenciou: vem!

Fizemos amor feito louco. Sim, fizemos amor. Eu gostava dela também, e ela me fazia sentir o peito tão abalado quanto Kátia. Nosso encaixe era perfeito e suas fantasias eram as mais ousadas, se eu não me concentrasse era capaz de ir primeiro que ela.

Finalmente quando nossos corpos suaram, se extasiaram, se cansaram, mas cansaram daquele jeito que o cérebro vira uma geléia, ela abriu a 110º página d’O Livro e declamou: “Sabe, eu te gosto tanto. Acho que nossa história é tão especial que nada abalaria o que a gente é.por que chega um tempo que sexo é importante, mas quando a gente pula essa fase a gente se depara com nós e com o outro, e com a percepção de que há muitas coisas nesse mundo que podem conflitar com um casal de companheiros. Tai, a gente é mais do que um casal, a gente é companheiro, no sentido mais profundo da palavra, e companheiro é isso, é sempre estar ao lado, agüentar firme as situações mais difíceis, mais dolorosas...

Enquanto ela falava eu alisava seu corpo moreno gostando de ouvir suas declarações, não pensava em absolutamente nada. Eu gostava de estar com ela e estava com ela, tinha passado por uma provação com Kátia, mas estava de novo com ela...

Enquanto isso ela discorria O Livro: pegou mais um copo de vinho e continuou: “...acho que o que a gente sente pelo outro suportaria até mesmo uma pulada de cerca. Porque sei que a gente sente desejos, não é por star com outro que a gente perde nossos instintos...”

E eu estava tão frágil e tão feliz, que caí como um patinho. O pensamento em Kátia se tornou mais presente e mais presente também um certo sentimento de culpa, não por ter traído aquela mulher, por ter sentido que fui desleal com ela. E abre o jogo.

Olha, eu tenho uma coisa pra te dizer: ...

Nunca mais vi Márcia. Nem Kátia.

Aprendi minha lição: Para se entender toda a história, é preciso saber que a primeira parte de um livro determinará o final.

7 comentários:

Paulo disse...

Parabéns mais uma vez. Deus permita que minhas listras nunca desbotem.

Hudson Andrade disse...

Tão divertido que nem parece tão extenso. Ainda que seja um pouco!
E o final é ótimo! Não poderia ser diferente. Afinal, literatura e poesia também carecem de verdade.

Beijos, querido.
Parabéns.

Juliana Camargo disse...

Resumindo: te fodestes no final das contas, hahaha
Mas concordo com o Hudson aí: foi tão engraçado que nem pareceu tão extenso. Deverias atualizar mais...

ADRIANO BARROSO disse...

agora REALMENTE acabou essa série. haverão outros post de material que estou produzindo. mas agora será um infanto-juvenil, que prezará pela moral e os bons costumes da família brasileira.
hahahahaha
beijos a todos

papistar_nunes disse...

Vim aqui antes que acabes com essas maravilhas e venhas com essas coisas de prezar a família brasileira quando os escândalos estão presentes todos os dias na nossa cara. Basta ver o Para-night na TV.Ainda por cima colocam umas mulheres tão horrorosas que só fazem atiçar a líbido dos porcos pedófilos.
Pois é, o tigre já sem listras,devido o abandono da presa arrependida(não, saciada) caiu na besteira de confiar numa fêmea ninfomâniaca.
"Nenhuma mulher gosta de perdedores" e a partir do momento que um homem confessa sua traição, ele é um PERDEDOR, errou feio no estatuto primeiro.

Bianca Leão disse...

Meu lado feminista que não veja esse meu comentário no teu blog, mas adoreeeeei o texto!!!Foi uma delícia ler e eu realmente não senti o tempo passar. A história é envolvente, oestá muito bem escrita, o desfecho é inusitado. Isso sem falar nas 'pérolas' como: "Dava pena de ver tanta mulher bonita pedindo para ser enganada, e eu posando de casado", ou "...era um bar de play, de gente só estampa, dos nascido na década do nada, dos que gastam no som do carro para compensar o tamanho ínfimo do pau". Está impagável, parabéns! Um beijo!!!

Laísa disse...

tuas palavras envolvem...
incitam.

parabéns!