sábado, 31 de janeiro de 2015

A benção João de Deus


De Como ganhei a Benção do Papa João Paulo II
A benção João de Deus

Nunca gostei de religião alguma. Criado em uma família cristã católica, desde muito cedo desenvolvi verdadeiro ódio pela dogma, a pregação do medo. Temer a deus sempre foi o pior de tudo. Para tudo tínhamos que ter merecimento. E o merecimento era a dor. Quando criança, minha mãe inventou que cada palavrão que eu chamava era uma chaga em Cristo. Eu morria de culpa por fazer Cristo sofrer tanto. Mas hoje em dia, acho que ele deve tá precisando da porra de uma transfusão de sangue, no mínimo. Tudo era explicado pelo medo e pela culpa. Um trovão era um ralho de deus. Meu time perder no campeonato, era porque deus não quis ou eles não mereceram. Uma topada na rua, deus castigou. A perda da Copa de 78 era uma provação de deus. Um saco.

Mas como eu não era Senhor de mim, tinha que fazer catecismo para poder me crismar e tal. O problema era que o catecismo era exatamente na hora da bola. Sábado à tarde e domingo pela manhã. Eu rezava três pai nosso, e fugia das aulas da professora Rita de Cássia (que alias, eram bem gostosa, mas deus há de me perdoar). Vez ou outra tinha uma freira batendo lá em casa pra reclamar. E lá vinha escroteada da mamãe.

Além de crescer temeroso a deus (que até hoje continua sendo um monstro pra mim) e carregando uma enorme culpa, eu também sempre fui muito tímido. Na adolescência então... morria de vergonha do meu nariz largo e dos meus beiços grandes. Nariz de palhaço e beiço de nós todos como a galera encarnava. Eu queria me enterrar e detestava a herança da minha família. E pra completar eu tava crescendo rápido. Sempre magricela. Desengonçado.
Por ser tão tímido eu tinha diversas paixões platônicas. Quase uma por semana. Morria de paixões. Mara é um capítulo a parte, depois eu conto. Mas Vaninha era a da vez, irmã de um amigo, eu sequer tinha coragem de olhar em seus olhos, quando ela virava de costas é que eu escaneava ela toda. Linda. E não me dava a mínima bola, sequer sabia da minha existência. Deus, por quê és tão cruel comigo?

Mas teve um dia que um jogo de botão (ou deus, sei lá) nos aproximou. Fui jogar no pátio da casa do irmão dela e ela assistia da janela a partida que eu mesmo fazia questão de narrar. Vez ou outra eu tirava os olhos do Estrelão e, jurando que ela não tava percebendo, eu entortava toda minha testa para, mesmo de cabeça baixa, forçar os olhos para cima e visualizar sua boquinha de cereja. Um contorcionismo do caralho (desculpa mais essa chaga, deus).

Ela claro, percebia e, cheia de graça, fazia questão que eu percebesse que ela estava me olhando. (filha da puta, ops) Quando meus olhos caiam nos dela, eu queria me enterrar. Errava a narração e o lance.

Caramba, eu pensava, acho que ela tá na minha, deus resolveu me dar uma colher de chá. Como deus é bom. Então ela disse, doce: “Teu cabelo é tão bonito”. Fiquei roxinho, queria me enterrar, meu coração pulava quase para fora da boca. Eu finalmente poderia dar meu primeiro beijo na boca.
Mas como eu não fazia o catecismo, deus não poderia deixar barato.

Logo logo o Toti invadiria a casa do meu amigo gritando: O Papa tá passando!, o Papa tá passando!
Num impulso de sei lá o quê, nós dois largamos tudo e saímos correndo pra Almirante Barroso pra ver o Papa Móvel. Corremos tanto que chegamos bem perto do Papa Móvel e, sem perceber, já estávamos na 1° de Dezembro e ainda conseguimos ficar bem próximo do palco onde o pontífice rezaria uma missa e abençoaria a multidão.

Emocionado, eu já cantava em alto e bom tom junto com a multidão “ A Benção João de Deus/ nosso povo te abraça”. Aí, o Papa se aproximou da beira do palco, e, com meus olhos marejados eu juro que vi ele me olhar nos olhos e, sorrindo, me abençoar. Como eu queria que minha mãe tivesse visto aquela cena. Como eu queria que a Vaninha tivesse visto aquilo.
Após a missa, voltei correndo novamente atravessando a 1° de Dezembro para contar a novidade pra mamãe. Mas uma certeza se criava em mim: “Quando deus fecha uma porta, abre uma janela” ou uma porra dessa qualquer.
Nunca mais tive outra oportunidade de chegar tão próximo de Vaninha. Perdi um possível beijo e ganhei uma benção. Tenho certeza que o beijo seria mais divino.


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