sábado, 31 de janeiro de 2015

É PROIBIDO COCHILAR.


É PROIBIDO COCHILAR.
Meu pai sempre gostou de rádio e traquitanas eletrônicas. Formado bem novo em técnico em eletrônica por correspondência pelo I.U.B (não dá pra explicar, coloquem no google rsrs), adorava construir os próprios rádios. Era sua cachaça, já que seu organismo jamais suportou uma gota de álcool sequer.
Então crescemos ao som das rádios, com os maiores sucessos das décadas. Ouvimos muitos artistas nascerem. A Rádio do Seu Rocha não cessava um minuto sequer.
Meu pai espalhava caixas de som pela casa e instalava nelas temporizadores. Quando uma desligava a outra ligava. Então pela manhã a Marajoara troava na cozinha, a tarde era a vez da Radio Clube na sala, a noite ligava no quarto do papai e na madrugada no corredor que dava para todos os quartos.
Lembro ainda de todas as principais vinhetas: "Paulo Ferreeeeeer, o amarelinho-linho". "É uma tristeza/ uma infelicidada-a-de/ ouvir meu nome na patrulha da cidade". "Alô, Alô interior: Alô dona fulana, seu marido manda dizer que esse final de semana não vai voltar para casa, mas esta mandando uma saca de farinha no navio tal".
Mas havia um programa mais emblemático na madrugada: "É proibido Cochilar" A vinheta era esta frase (acho que cantada pelos 3 do nordeste) repetida incansavelmente. Em seguida entrava o locutor com uma voz nordestina, voz de idoso, e depois de mandar duzentos abraços anunciava a próxima música, que, quase sempre, era um forró agitado.
A gente odiava esse programa. Apesar dos diversos apelos ao papai, ele nem abaixava o volume do rádio (que ficava cada vez mais alto com o silencio da madrugada), nem mudava de estação.
Mas nenhum de nós odiava mais esse programa que meu irmão.
Naqueles dias meu irmão andava estranho. Menos brincalhão. Mais impaciente do que de costume. Andava mocambúzio. Sério. Fechado. E principalmente com uma insônia da porra. Levantava de madrugada, deitava com raiva. Batia no beliche de cima, passava se esfregando na minha rede, bebia água no filtro de barro e voltava pra deitar, tão barulhento quanto se levantou. Não tinha sossego.
O apetite dele, que sempre foi um cavalo pra comer, havia desaparecido. Mamãe comentava baixo: Teu irmão não tá bem, nem tocou no prato. Meu outro irmão respondia: e nem tá dormido também, mãe.
O papai com a sabedoria de um boiadeiro, comentava enquanto chupava com barulho mais um tutano: é buceta.
Mamãe dava-lhe logo uma cotovelada: Respeita teus filhos macho abestado.
Mal sabia a mamãe que o oráculo dos tutanos estava certo, e logo logo seríamos surpreendidos com a chegada de uma sobrinha. Mas enquanto "a bomba" não estourava os dias se passavam, com madrugadas terríveis.
E quando meu irmão, por fim, parecia que ia dormir: "é pribido cochilar/ cochilar/ cochilar/ é proibido cochilar/ cochilar/cochilar"
Meu irmão, que sempre foi explosivo, não aguentou mais. Se levantou num pulo e saiu pelo corredor destruindo Todas as caixas do papai.
naquele dia ele apanhou cantando "A Jardineira".

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