sábado, 31 de janeiro de 2015

Killer, o AMOROSO


Killer, o AMOROSO
A casa da minha infância era um mundo delicioso de madeira, sonhos e um quintal inesquecível povoado de bichos e de fantasias. Tinha patos, galinhas, coelhos, tartarugas, passarinhos, cachorro e gato. Tinha lago, casinha de madeira, chocadeira, poleiro, planta. Tinha jambeiro, pé de mamão, jasmim, capim santo, floreira, espada de São Jorge... Tinha quarador, minha mãe lavando roupa, minha irmã varrendo o terreiro. Tinha um monte de areia branca (sobra da construção do piso da cozinha).
A casa da minha infância tinha uma cozinha construída pela gente, piso de cimento com vermelhão, teto de telha de barro, paredes de madeira pintadas de azul. Tinha um corredor de tábua corrida e três quartos,um para o meu pai e minha mãe, outro das meninas e outro dos meninos. Tinha uma sala onde ficava a televisão, o gato e o cachorro, o Killer.
Desde quando eu me lembro ele já estava lá, ao lado de meu pai, colado em meu pai, isso todo mundo se admirava, aonde o meu pai ia ele ia também e era só o meu pai viajar para o Killer deixar de comer, era incrível. Os dias que meu pai ficasse fora o bicho não comia e não saia debaixo da poltrona dele, para nada. Nem no dia da faxina ele saía de lá, ele que adorava correr atrás do escovão enquanto a gente passava cera na casa. Um dia, quando meu pai tava viajando, meu irmão, só de brincadeira, gritou da cozinha: benção, pai! O Kilei saiu pela casa, desesperado, correu para porta, correu para o quarto dele, pro quintal, procurou ele na casa toda e, como não encontrou, voltou mais triste do que nunca para debaixo da poltrona do papai. Todos gargalharam em casa, minha mãe, meus dois irmãos, minhas duas irmãs e eu forcei um riso, mas confesso que morri de pena e quase fui lá, em baixo da poltrona, partilhar a dor do bichinho.
Um dia, o Killer deu pra seguir o papai pela rua, bastava ele sair para trabalhar que lá ia o kilei atrás, por várias vezes o papai voltava do ponto do ônibus só para prender o kilei em casa.
Fui crescendo assistindo a paixão do Killer pelo meu pai. Enquanto todos lá em casa éramos grudados na mamãe, o Killer fazia o que nenhum filho se atrevia em fazer: pousar a cabeça no colo do papai, dividir o dia com ele. Meu pai que tinha fama em casa de durão e pouca paciência para aturar as coisas de meninos, se entregava em carinhos pelo cachorro e vice versa.
Mesmo se eu me esforçar eu não consigo lembrar o latido do Killer, só consigo lembrar do seu pelo marrom, dos seus olhos amarelos e as sobrancelhas cerradas, meio de tristeza meio de estranheza.
Um dia, ele já velho, eu com quinze anos, saiu atrás do papai e nunca mais voltou. Não tivemos nunca mais notícias do Killer. Meu pai tentava ter bom humor, tentava fingir para gente, mas eu via que ele sentia a falta do seu companheiro.
Então foi a vez do papai parar de comer.

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