sábado, 31 de janeiro de 2015

O sol do meu quintal


Mãe

O que lembro de minha mãe? Café quentinho. Feijão com jerimum. Rapadura raspadinha com farinha. Sono da tarde. Terço. Sopa de carne. Salada de Frutas. Doce de Mamão verde. Leite de rosas. Colo quentinho. Lençóis cheirosinhos. Cama esticada. Galinhas no quintal. Quarador. Risada gostosa jogando a cabeça pra trás. Bordados. Escova nos cabelos. Lancaster. Selva de Alfazema.

Minha mãe sempre foi muito vaidosa e cheirosa. Jamais senti mamãe sem um cheirinho gostoso. Da hora que acordava até a hora de dormir, seu ritual de passar leite de rosas pelo corpo, no rosto, depois uma Selva de Alfazema, orações e estava pronta para dormir ou enfrentar mais um dia. Mamãe suava flores.

Catar piolho também lembra a mamãe. Fui uma criança extremamente piolhenta. Hoje eu acho que no fundo eu até alimentava os piolhos só para ter uma hora naquela tarde quente, com uma brisa leve batendo nas folhas das árvores do quintal, eu sentado entre as pernas da minha mãe e ela passando a unha nos meus cabelos, depois o pente fino, depois a espinha de peixe para tirar as lêndias.

Mamãe jamais foi de usar remédios para matar piolhos era no método tradicional mesmo. Amarrava um lenço na cabeça (para os piolhos não “voarem” para ela) e toma-te caçada implacável aos “bois”. E que delícia que era eu meter a unha nos piolhos que caiam no papel após o pente fino. Eu esmagando os bichinhos e eles explodindo em sangue, o meu sangue, como dizia a mamãe. “É isso que tá te deixando tão amarelo, os bichos estão te sugando todo”.
Hoje eu vejo o mundo precisando cada vez mais de neocid.

Padre Cícero também me lembra Mamãe, como boa nordestina, devota incondicional do santo malandro. Gosto de Padre Cícero até hoje, ainda mais quando descobri suas malandragens.

Acho que santo tem que ser assim, danado em vida. O que pode me ensinar o santo que já nasceu santo, que não conhece o pecado, as tentações, as inquietações? Quem foi danado, malandro e escroto sabe o que digo pra ele em orações e saberá certamente me orientar exatamente por que conhece o pecado.

Também gosto de Santo Onofre, o santo trans. Reza a lenda que ele nasceu mulher. Bonita. Desejada. Tão desejada que não tinha sossego. Se mandou pra floresta, mas ainda assim não tinha paz, então pediu a Deus para lhe transformar em homem, e foi atendido.

Desde criança temos a pintura dele na parede (tenho ate hoje, todo rasgadinho) Um homem com traços femininos, “vestido” somente com os grandes cabelos que descem até as coxas e esconde o sexo, traz consigo também duas bolsas cruzadas no peito. Mamãe dizia que era o santo da fartura, onde ele está não falta comida. Li também que ele é o protetor dos bêbados, isso não sei por que, mas ele cuida de levar os bêbados em segurança para casa. Ninguém mais indicado para ser meu santo de cabeça, né?

Quanto ao futuro, mamãe sempre positiva adorava projetar: “Um dia ainda vou ver aquele carrão parando na porta de casa, e alguém gritando: Chegou o Doutor Adriano”. Aliás, ela dava o mesmo texto para todos os irmãos. Queria a gente doutor, queria um futuro tranquilo para nós, queria a gente “homens de moral”, como dizia.

Minha mãe também tentou estudar. Lembro ainda que assim que nós chegamos na Nina Ribeiro, 293, duas ruas após o terminal (todos nós só dávamos assim o endereço) ela, ao matricular a gente no Augusto Olimpo, também se empolgou e se matriculou em um curso noturno. Queria tirar o primário. Só havia feito até a primeira série, no sertão do Ceará. Meu pai tinha até a quarta série.

Então lembro com o coração muito apertado dos questionários que meus irmãos faziam para ela em cartolina azul clarinho e pregava sobre o fogão, para que, enquanto ela cozinhasse, estudasse as matérias “decorativas”.

De azul as perguntas e de vermelho as respostas. Mamãe se dedicava. A tardinha minha irmã mais velha fazia as perguntas para ela e ela respondia na ponta da língua, com uma felicidade de criança.

Mas suas forças foram estraçalhadas por um professor de língua portuguesa que a reprovou por vinte e cinco décimos. Nunca tinha visto minha mãe tão arrasada. Quando chegou em casa com o boletim escrito “reprovada”, ela repetia essa palavra incansavelmente. Ela precisava de seis e meio para passar e tirou 6,25, havia errado uma pontuação e o cara desconsiderou uma vida inteira, de uma senhora que lutava para ter um pouco mais de conhecimento.
Foi um dia terrível. Mamãe bebia café e chorava revoltada. Todos em casa chorávamos. Eu, muito menino, só pensava o que fazer para acalmar o coração daquela que tinha como profissão acalmar o coração de todos nós.
Nunca mais botou os pés em uma escola.


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