sábado, 31 de janeiro de 2015

O TORNEIO DOS LARÁPIOS.


O TORNEIO DOS LARÁPIOS.
Sempre fui um pouco abestalhado, mas quando o assunto era "bater uma bola" eu me espertava e fazia de um tudo.
Todo final de semana na rua lá de casa, nós jogávamos um torneio, com direito a time de camisa e tal. Até os adultos esperavam as partidas. havia muita torcida. Nosso time era foda. O ataque era eu e Ivan, matadores. Mas tínhamos um goleiro fraquíssimo, o Biratan, mas como ele era metido a fortão da rua, a gente não podia barrá-lo por nada (sob pena de uns olhos roxos).
Para ter um time de camisa naquela pobreza toda nós fazíamos de tudo, principalmente vender alumínio e cobre para comprar as camisas e shorts.
Então, já viu, éramos o terror dos quintais desavisados. À noite a patrulha do futebol saía pulando de quintal em quintal atrás de uma roupa de molho na bacia de alumínio dando sopa, panelas, canecos, penicos, tudo que fosse de alumínio e mais a fiação das casas abandonadas era nossa pré temporada para os torneios.
Daí era só colocar uma pedra lá dentro, amassar e correr pro ferro velho do Seu Pelé pra em seguida estar em campo com uniforme novo.
Naquele ano, nós havíamos inexplicavelmente perdido o campeonato. (inexplicavelmente nada, um puta frango do Biratan tirou nosso troféu, mas era melhor dizer que foi inexplicavelmente).
Precisávamos trocar as camisas (que ja estavam velhas demais devido a quantidade de jogos em um ano). Então foi decidido que sairia o Glorioso Remo e entraria a Estrela solitária. Jogaríamos o próximo torneio de Botafogo. Mas os vizinhos já estavam espertos àquela altura. Não estava nada fácil conseguir novas camisas.
Então o Ivan teve uma idéia. Roubar as camisas lá do supermercado Almirante, que trabalhava também com material esportivo. Eu gelei de cara. Mas diante do desafio, todo o time topou. O Caveirinha (uma espécie de mestre na arte de furtar), no dia seguinte ja mostrou a sua, novinha e no saco. Biratan foi depois. Ivan. Boi. Chulipa. Faltava eu, que só de pensar em ser pêgo me cagava todo. Sempre fui medroso. Tentei roubar no desafio, pedi pro meu irmão (que ja trabalhava no veropa vendendo peixe), mas não rolou. Pedi pro papai nem pensar.
Tentei vender umas panelas da mamãe, mas pensei que a surra ia ser grande também. A galera me pressionava. Os dias se passavam. O torneio se aproximava. faltava eu, meu Deus me dá uma luz!! Nada, até Deus dizia: te vira, moleque.
reuni coragem e fui pela enésima vez ao Almirante, a camisa já havia brilhado aos meus olhos várias vezes. Faltava era coragem. Mas naquele dia tinha que ser. O Biratan ja tinha me prometido até porrada, não dava pra voltar atrás.
Fui. Peguei o saco da camisa, coloquei dentro do short. sabia que na minha testa tava escrito LADRÃO. olhava pra todos os lados. Mas ia, depressa rumo a porta. Um segurança me olhou com atenção. Gelei. Mas segui em frente e finalmente eu estava na rua, com o coração batendo forte, tentando atravessar a Almirante Barroso correndo.
Só fico pensando hoje que o segurança jamais deve ter entendido aquele rastro de urina, que seguia da terceira gôndola e seguia até a rua.

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